Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Rúbia Mércia de O.Medeiros (UFC)

Minicurrículo

    Doutora em Comunicação, Imagem e Som (PPGCOM-UFC). Realizadora, pesquisadora, curadora, professora audiovisual e gestora de projetos. Integrante do Laboratório de Estudos e Experimentações em Artes e Audiovisual (ICA/UFC). Curadora da Mostra Cine Caratapa (2023-dias atuais). Curadora do Festival Ceará Voador (2025). Professora do Ateliê de Filmes-carta (MST-Ceará). Coordenadora Pedagógica do Cinema no Brejo. Diretora da Vila das Artes (Fortaleza/CE). Esta desenvolvendo seu roteiro BR 116 IDA.

Ficha do Trabalho

Título

    Filme fora do filme: o extra-campo como território de presença

Resumo

    O trabalho investiga o conceito filme fora do filme como prática pedagógica no audiovisual, entendendo o cinema como processo relacional que nasce do encontro, da escuta e da partilha, sobretudo entre mulheres em territórios rurais. Valoriza o extra-campo, a fotografia narrada e o gesto coletivo de montar juntas. Nos apoiamos na ideia de suficiência: o processo já é o filme, cujo valor está no vínculo, no cuidado e na experiência compartilhada.

Resumo expandido

    Esta comunicação apresenta o percurso investigativo do conceito filme fora do filme como processo pedagógico no audiovisual. O eixo da pesquisa propõe repensar o que entendemos por cinema, formação audiovisual e produção de imagens em contextos formativos descentralizados, especialmente a mulheres em territórios rurais. Em vez de considerar o filme como produto final destinado a circuitos de exibição, o conceito propõe compreender o cinema como processo relacional, pedagógico e sensível, que nasce do encontro, da escuta e da partilha.

    Não se trata de negar a forma fílmica hegemônica, mas de questioná-la como único modelo possível. O desvio proposto inicia na constituição das ideias, na disposição das imagens que se organiza no cotidiano das formações, na sonoridade das falas e na prática da fotografia narrada, exercício que mobiliza arquivos pessoais e domésticos para investigar narrativas que não estão visíveis na própria imagem. Esse procedimento vincula-se ao fora de campo, ao extra-campo, entendendo que o cinema também se constitui por aquilo que não aparece na tela, mas sustenta a experiência fílmica: a conversa antes da filmagem, a hesitação diante da câmera, os olhares trocados, os silêncios, a vida que atravessa o filme sem caber nele.

    Nesse contexto, o que importa não é o resultado técnico, mas o gesto coletivo de olhar, narrar e montar juntas, como quem costura vizinhança. O cinema passa a ser entendido como método de presença, capaz de produzir vínculo, memória e pertencimento ao território. Reunir-se para filmar, assistir e montar inaugura uma suspensão do tempo que permite reinscrever o olhar: ver novamente, ver de forma deslocada, ver junto. A montagem, assim, torna-se gesto de aproximação, criando conexões entre fragmentos, sons, silêncios e imagens antes desconectadas. O sentido não se impõe; ele se constrói na relação entre fragmentos e, sobretudo, entre pessoas.

    A investigação se apoia na ideia de suficiência como princípio ético e metodológico: o processo coletivo de filmar, conversar e montar já constitui o próprio filme. O valor não está na técnica, na visibilidade ou na escala, mas na potência do vínculo criado e na transformação do olhar. O cinema não precisa se tornar outra coisa para ter valor; ele já é pleno no momento em que acontece entre nós. O percurso teórico dialoga com a noção de escrevivẽncia de Conceição Evaristo, que inspira a ideia de uma escrita que nasce da vida vivida em comunidade. Essa perspectiva se amplia como Judith Butler, ao compreender a narrativa de si como relacional e dependente do outro. Tim Ingold contribui com a noção de materiais, entendo objetos e gestos cotidianos como parte viva do processo criativo; na montagem, reunir esses materiais é também reunir memórias e relações com o ambiente. E por fim, Saidiya Hartman inspira a ressignificação do trabalho manual por meio do manejar, entendido como gesto do cuidado e da crianção.

    O percurso teórico dialoga com a noção de escrevivência de Conceição Evaristo, que inspira a ideia de uma escrita que nasce da vida vivida e que é sempre coletiva. Essa perspectiva se amplia com Judith Butler, ao compreender a narrativa de si como relacional e dependente do outro. Tim Ingold contribui com a noção de materiais, entendendo objetos e gestos cotidianos como parte viva do processo criativo; na montagem, reunir esses materiais é também reunir memórias e relações com o ambiente. Por fim, Saidiya Hartman inspira a ressignificação do trabalho manual por meio do manejar, entendido como gesto de cuidado e criação. No filme fora do filme, a montagem também liga os tempos: ela junta a colheita e o luto, o gesto do bordado e o da denúncia, a memória individual e a memória comum. E é nessa junção que a montagem se torna pedagogia da imagem, dispositivo de formação sensível que não ensina uma história, mas convoca à escuta do que viveu e ainda vibra. É por isso que o filme fora do filme não se encerra quando termina a exibição.

Bibliografia

    ALVARENGA, Clarisse. Corpos de mulheres guerreiras e suas falas-imagens em Nhemongueta Kunh M’baraete. In catálogo Fórumdoc. 2020.
    BUTLER, Judith. Relatar a si mesmo: crítica da violência ética. Tradução de Rogério Bettoni. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
    DUARTE, Constância Lima; NUNES, Isabella Rosado (org.). Escrevivência: a escrita de nós: reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo. Ilustrações de Goya Lopes. Rio de Janeiro: Mina Comunicação e Arte, 2020.
    HARTMAN, Saidiya. Vidas rebeldes, belos experimentos: histórias íntimas de meninas negras desordeiras, mulheres encrenqueiras e queers radicais. Tradução de Floresta. São Paulo: Fósforo Editora, 2022.
    INGOLD, Tim. Trazendo as coisas de volta à vida: emaranhados criativos num mundo de materiais. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 18, n. 37. 2012.
    NANCY, Jean-Luc. À escuta. Tradução de Fernanda Bernardo. Belo Horizonte: Chão da Feira, 2014.
    XAKRIABÁ, Célia. Amansar o Giz. Piseagrama. Belo Horizonte, número 14. 2020.