Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Amanda de Sousa Veloso (UFG)

Minicurrículo

    Graduada em Direção de Arte pela Universidade Federal de Goiás, mestra e doutoranda em Comunicação pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação da mesma universidade (PPGCOM/UFG) na linha de pesquisa Mídia e Cultura. Interessa-se por insólito ficcional sobretudo no cinema brasileiro, direção de arte e produção de sentido, sua pesquisa de mestrado centrou-se no filme Bacurau (2019) inserido no Circuito de Cultura. Lattes: https://lattes.cnpq.br/2847738122151795.

Ficha do Trabalho

Título

    Cidade; Campo (2024): horror social e fins do mundo

Seminário

    Estudos do Insólito e do Horror no Audiovisual

Resumo

    O objetivo deste trabalho é analisar o horror social em Cidade; Campo (2024), de Juliana Rojas, sob a ótica do pensamento de Mark Fisher, a partir das obras: The Weird and the Eerie (2017) e Realismo Capitalista (2020). Propomos que as culturas vividas do Brasil podem ser percebidas pela categoria do absurdo e são evidenciadas materialmente pelo capitalismo. Nossa hipótese é que, a partir do vínculo contextual entre produção e público, a obra opera como experiência sensível das culturas vividas.

Resumo expandido

    Sobre o cinema de horror brasileiro contemporâneo, Laura Cánepa (2016) propõe que é possível identificar duas tendências, o horror militante, que se aproxima mais das convenções do gênero e o horror social, “que prefere a forma híbrida com outros gêneros, em filmes que dificilmente podem ser incluídos na categoria do horror, mas que decerto dialogam com ela” (Cánepa, 2016, p. 128).
    No horror social, os espectadores compartilham com os personagens a sensação de que algo horrível está prestes a acontecer, mas que, no caso desses filmes, se constrói “em função de mazelas atávicas e nunca resolvidas da sociedade brasileira” (Cánepa, 2013). Assim, podemos dizer que o horror social se constrói nas relações entre a obra e as culturas vividas (Johnson, 2014), um reservatório de discursos e significados compartilhados social-histórico-culturalmente.
    O longa-metragem Cidade; Campo (2024), escrito e dirigido por Juliana Rojas, narra duas histórias de mulheres distintas que vivenciaram um processo de migração entre os espaços urbano e rural. A primeira do campo para a cidade e a segunda da cidade para o campo. Em Cidade acompanhamos a mudança de Joana para São Paulo, devido ao rompimento de uma barragem que devastou sua cidade natal em Minas Gerais, a atmosfera da narrativa se constrói em torno do insólito. Enquanto em Campo, cuja atmosfera se aproxima mais do gênero de horror, vemos a adaptação de Flávia e sua companheira, que se mudam para a fazenda deixada pelo seu recém falecido pai.
    Sabendo que as narrativas de Cidade; Campo (2024) traçam conexões com as culturas vividas do Brasil – bem como outras obras de Juliana Rojas, como Trabalhar Cansa (2011), Sinfonia da Necrópole (2014) e As Boas Maneiras (2018) – e não necessariamente se comprometem formalmente com o cânone do horror-gênero, propomos que ela se enquadra na segunda tendência observada por Cánepa. A tensão no filme é criada a partir de vivências e “horrores” de alguma forma naturalizados pelo contexto capitalista, e cada vez mais absurdo, como a precarização do trabalho e a crise ambiental.
    Propomos que as culturas vividas do Brasil já se enquadram numa categoria do absurdo, evidenciadas materialmente pelo capitalismo. Essa condição material é compartilhada pela produção e pelo público. A nossa hipótese é que, a partir desse vínculo contextual entre produção e público, a obra opera como experiência sensível das culturas vividas. No caso de Cidade; Campo (2024), há uma sensação progressiva de um fim do mundo iminente.
    Com isso, nosso objetivo é analisar o horror social em Cidade; Campo (2024) sob a ótica do pensamento de Mark Fisher, a partir de duas obras: The Weird and the Eerie (2017) e Realismo Capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? (2020). É relevante dizer que este trabalho é parte de uma pesquisa em desenvolvimento, que se debruça sobre a obra em questão numa perspectiva circular com base no Circuito de Cultura (Johnson, 2014) e, portanto, o filme será examinado a partir das suas relações com o contexto de lançamento, serão considerados na análise – além da obra – elementos da produção e da circulação.

Bibliografia

    CÁNEPA, Laura. Configurações do horror cinematográfico brasileiro nos anos 2000: continuidades e inovações. In: CARDOSO, J. & SANTOS, R. (orgs.). Miradas sobre o cinema ibero latino-americano. São Caetano do Sul: USCS, 2016. p. 121-143.

    CÁNEPA, Laura. “Terror incidental?”. Revista Interlúdio. São Paulo, 13 jan. 2013.

    FISHER, Mark. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? Tradução de Eloisa Ferreira. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.

    FISHER, Mark. The Weird and the Eerie. Londres: Repeater Books, 2017.

    JOHNSON, Richard. O que é, afinal, Estudos Culturais?. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (org.). O que é, afinal, Estudos Culturais?. 5. ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2014. p. 7-85.

    REIS, Carlos; ROAS, David; FURTADO, Filipe; GARCÍA, Flavio; FRANÇA, Júlio (Eds.). Dicionário Digital do Insólito Ficcional (e-DDIF). 2. ed. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2022.