Ficha do Proponente
Proponente
- Leonardo Mont’Alverne Câmara (UFC)
Minicurrículo
- Pesquisador, realizador e formador audiovisual, é graduado em Publicidade e Propaganda pela UFC, Mestre em Comunicação Social pela UFMG e doutorando em Artes pela UFC. Integrou o Curso de Realização em Audiovisual da Escola Vila das Artes. Atualmente, desenvolve persquisas sobre cinema e educação em territórios rurais e coordena os cursos básicos de audiovisual da escola Porto Iracema das Artes.
Ficha do Trabalho
Título
- Cinema no Brejo: Sons e imagens entre a casa, a escola e o museu
Mesa
- Filmes de formação – o cinema como experiência situada de produção de conhecimento
Resumo
- A partir das experiências de criação audiovisual desenvolvidas pelo projeto Cinema no Brejo em parceria com o Ecomuseu de Pacoti/CE com alunos da Escola Rural Fernando Moreira Sales, este trabalho analisa os modos como metodologias situadas de formação audiovisual vivenciadas no tempo integral de escolas da rede pública podem ser vetores de emaranhamento entre os processos educativos em curso e as múltiplas dimensões – culturais, históricas e ambientais – do território em que a escola se situa.
Resumo expandido
- No módulo A escola: saberes e ciências da natureza, ministrado pela professora Elena Meirelles, os alunos do projeto de formação audiovisual Cinema no Brejo fizeram uma caminhada até o Meliponário Sant’Ana, situado a poucos minutos de sua escola, com o objetivo de gravar um encontro com o meliponicultor Herlano Lima. Equipados com câmeras, tripés, gravadores de som e microfones, o grupo de estudantes adentrou o quintal de Herlano guiado pelo anfitrião. Em meio às imagens e sons captados, conheceram as diferentes espécies de abelhas sem-ferrão ali cultivadas, examinaram a arquitetura das colmeias, provaram do mel fresco extraído das colônias e escutaram sobre a importância das abelhas nativas para o equilíbrio do ecossistema local. O cinema ali era vivenciado como experiência ativa de aprendizagem e de produção de conhecimento situada no território.
A prática da meliponicultura – criação de abelhas nativas sem ferrão – tem crescido nos últimos anos entre agricultores e moradores da região do Maciço de Baturité, no interior do Ceará. Essa iniciativa, que já tem se desdobrado na criação de associações e cooperativas, tem o objetivo de repovoar essa zona de Mata Atlântica com abelhas nativas que foram desaparecendo da região nas últimas décadas devido ao crescente desmatamento, tornando possível o aumento da biodiversidade e a regeneração da floresta. Com o intuito de sensibilizar alunos e professores da rede pública da região, pesquisadores do Ecomuseu de Pacoti idealizaram o projeto “Abelhas nas escolas”, que implantou meliponários em espaços escolares a fim de integrar esse movimento ambiental aos processos educativos vivenciados ali.
Realizado em parceria com o Ecomuseu de Pacoti no segundo semestre de 2025, a última edição do projeto Cinema no Brejo: Sons e imagens entre a casa, a escola e o museu propôs o emaranhamento das metodologias de formação audiovisual e educação digital nas escolas a algumas dessas experiências de transversalidade de saberes que já estavam em curso no território. O percurso formativo ocorreu com estudantes dos últimos anos do Ensino Fundamental da Escola Fernando Moreira Sales, localizada no distrito de Santana, zona rural de Pacoti/CE. Os encontros duraram 4 meses e aconteceram no contraturno da escola, que funciona em regime de tempo integral.
A partir das experiências de criação e aprendizagem vivenciadas nesse processo que culminou na produção de vídeos, sons, fotografias e uma exposição, este trabalho propõe uma reflexão sobre de que modo a presença do cinema na escola em tempo integral, a partir de uma metodologia situada, pode operar como vetor de integração com os conhecimentos e formas de saber do território. Tomados como força conectiva, acreditamos que o audiovisual pode operar no engajamento ativo e sensível dos estudantes às múltiplas dimensões – sociais, culturais, históricas e ambientais – que constituem seus lugares de existência.
Nos últimos anos, o Ceará tem vivenciado uma política de integralização das escolas da rede pública a nível municipal e estadual. Segundo dados do Governo do Estado, 75% das escolas da rede estadual já funcionam em tempo integral. Essa expansão do tempo dos alunos na escola, no entanto, ainda enfrenta desafios em sua implementação, como a sobrecarga dos professores, a repetição dos modelos de ensino tradicionais e a pouca interação entre a escola e os demais saberes que constituem os territórios.
Guiados pelos processos vivenciados na realização dos filmes O que as abelhas nos ensinam? (2025) e Trilha sonora com Zé Mateiro (2025), nos indagamos como a presença do cinema nas escolas pode colaborar para a instauração de uma educação efetivamente integral, ou seja, compreendendo o estudante em sua dimensão emocional, cultural, social, simbólica e relacional e envolvendo o processo de aprendizagem a experiências de criação e produção de conhecimento situadas em seus territórios.
Bibliografia
- ALBUQUERQUE, George Arruda de. Aprendizado técnico como mecanismo de manutenção da vida: etnografia multiespécies no Meliponário Cantinho do Céu, área de proteção ambiental da Serra de Baturité, em Guaramiranga, Ceará. 2022.
CÂMARA, Leonardo. Cinema com o Brejo: experiências de criação com os espaços em processos de formação audiovisual no Maciço de Baturité/CE. Rio de Janeiro: Cinemas e Educações, 2023.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 58a ed – Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2019.
FRESQUET, Adriana; ALVARENGA, Clarisse. Cinema e educação digital: a Lei 14.533. Reflexões, perspectivas e propostas. Rio de Janeiro: Universo Produção, 2023, p. 40-53.
HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, Campinas, n. 5, p. 7-41, 1995.
MIGLIORIN, Cezar, PIPANO, Isaac. Cinema de brincar. Belo Horizonte: Relicário, 2019.