Ficha do Proponente
Proponente
- Guilherme de Oliveira Furutani (UFMG)
Minicurrículo
- Bacharel em Jornalismo (UFOP), mestre em Artes (UFMG), com linha de pesquisa em Cinema e doutorando em Artes (UFMG). Sua área de pesquisa envolve cinema brasileiro, crítica cultural e cinema de horror. Integra o Grupo de Estudos em Literaturas Fantásticas (ELF) e o Núcleo de Pesquisa em Narrativas Gráficas (NPNG).
Ficha do Trabalho
Título
- CENA MALDITA: 2008 e a continuidade do horror brasileiro
Resumo
- Este trabalho investiga o cinema brasileiro de horror contemporâneo, propondo o ano de 2008 como o início de uma “nova cena” do gênero no país, visto que foram localizadas dez obras no período que flertam ou se inserem no gênero. A metodologia consiste em uma revisão bibliográfica sobre o horror nas artes brasileiras e no mapeamento de filmes nacionais. Por fim, apresenta-se um apanhado das obras que dialogam com o horror no início dos anos 2000, estabelecendo um panorama da época.
Resumo expandido
- Durante décadas, o horror no cinema brasileiro foi frequentemente reduzido ao cinema de José Mojica Marins e seu personagem Zé do Caixão. Ao se falar em “horror brasileiro” ou “horror nacional”, o que pode vir primeiro à mente são episódios da história política e social do país. Pouco se falava sobre uma tradição estética do horror nas artes nacionais, como se o gênero não estivesse presente tanto no cinema quanto na literatura do país. Essa percepção de uma quase inexistência do gênero começou a ser analisada e contestada a partir dos anos 2000, com o surgimento de pesquisas, dissertações e teses que buscaram mapear e analisar obras anteriormente marginalizadas. A tese de Laura Cánepa (2008), ao mapear cerca de 132 títulos (entre 1930 e 2007), demonstrou que a suposta escassez do gênero é, na verdade, uma ausência mais historiográfica do que histórica. Essa ausência historiográfica no cinema também ecoa na literatura brasileira. Embora autoras e autores consagrados tenham mobilizado elementos das “poéticas negativas” – o horror, o terror, o gótico, o sublime, o grotesco –, tais obras raramente foram reconhecidas ou lidas sob essa perspectiva, como se o gênero fosse incompatível com o cânone nacional (FRANÇA; NESTAREZ, 2022).
Considerando a marginalização do gênero, o presente trabalho – derivado da dissertação “Cenas Malditas: 2008 e os horrores do cinema brasileiro” (2024) – investigou o interesse pelo cinema de horror brasileiro no início do século XXI, buscando confrontar a lacuna historiográfica. Para tanto, foi mapeada a produção de longas-metragens lançados entre 2000 e 2010 que apresentassem aproximações ao gênero – seja pelo uso de ferramentas comuns ao gênero, seja por se inserirem diretamente no horror.
Constatou-se que enquanto o período entre 2000 e 2007 registrou uma produção esporádica, o ano de 2008 se destaca, contando com pelo menos dez filmes que dialogam com o gênero. Com uma diversidade estética e temática, é possível encontrar em 2008 obras que transitam do gótico, como Fronteira (Rafael Conde), ao insólito, em A erva do rato (Julio Bressane), passando pelo horror corporal em FilmeFobia (Kiko Goifman) e o subgênero zumbi em A capital dos mortos (Tiago Belotti) e Mangue negro (Rodrigo Aragão).
Somado ao volume da produção, 2008 conta com o fator (simbólico) do lançamento de Encarnação do demônio (José Mojica Marins). O encerramento da trilogia de Zé do Caixão reuniu profissionais que continuariam a trabalhar com o horror, como é o caso do roteirista Dennison Ramalho e o efeitista Kapel Furman – que viriam a realizar, respectivamente, Morto não fala (2018) e A percepção do medo (2016). Esse retorno de Zé do Caixão coincidiu com a emergência de novos realizadores em diversas regiões do país, indicando uma nova cena que é geograficamente diversa.
Assim, a pesquisa defende que 2008 surge como ano chave para a compreensão do cinema de horror brasileiro contemporâneo, configurando um marco inaugural para a nova cena que viria a se consolidar na década seguinte. Esse fenômeno acontece, justamente, no contexto dos avanços tecnológicos e dos efeitos da globalização. O barateamento e acesso facilitado a equipamentos de filmagem e edição permitiram a produção de obras sem altos custos, e, posteriormente, sua distribuição e divulgação via internet. A chamada “rede mundial de computadores” também foi central para a articulação de comunidades, blogs e sites especializados no horror, reunindo virtualmente entusiastas de todo o país. Nesse cenário conectado, surgem festivais de cinema como o Fantaspoa (2005- ), reunindo entusiastas, críticos e cineastas em torno do gênero. Por fim, essa “nova cena” apresenta uma geração de cineastas que cresceu durante as décadas de 1980 e 1990, que vinha com referências trazidas da televisão e da cultura das locadoras, com o VHS e o DVD e um acesso facilitado a filmes de horror.
Bibliografia
- BALADI, Mauro. Dicionário de Cinema Brasileiro: Filmes de longa-metragem produzidos entre 1909 e 2012. São Paulo: Martins Fontes – selo Martins, 2013.
CÁNEPA, Laura Loguercio. Medo de quê? Uma história do horror nos filmes brasileiros. Tese (Doutorado em Multimeios) – Instituto de Artes da UNICAMP. 2008. 498 p.
FRANÇA, Júlio; NESTAREZ, Oscar (org.). Tênebra: narrativas brasileiras de horror [1839-1899]. São Paulo: Fósforo, 2022.
FURUTANI, Guilherme de Oliveira. Cenas Malditas: 2008 e os horrores do cinema brasileiro. UFMG. Belo Horizonte. 2024