Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Ana Clara Silva Mattoso (UFRJ)

Minicurrículo

    Doutoranda em Tecnologias da Comunicação e Estéticas pelo PPGCOM-UFRJ com bolsa CAPES. Mestre em Estudos Contemporâneos das Artes (PGCA-UFF). É pesquisadora no FIP (Fotografia, Imagem e Pensamento – UFRJ) e cineasta. Seu filme No fundo da baía moram meus ancestrais (2026) foi realizado junto a uma família de pescadoras da Baía de Guanabara, Rio de Janeiro e comissionado pelo Humboldt Forum Berlim e Instituto Goethe. Escreve ensaios, roteiros, ficções e artigos.

Ficha do Trabalho

Título

    O que olham os bichos? Notas para um possível Cinema Feral em meio às ruínas do Antropoceno

Resumo

    Seria o cinema feral uma resposta às ruínas do Antropoceno? Poderia a feralidade se tornar uma categoria metodológica fortuita para análises fílmicas? Evocando ficções etnográficas e sensorialidades hápticas, este trabalho se volta aos bichos de É noite na América (2022), filme de Ana Vaz, para se perguntar como sua presença fratura o regime de visualidade antropocêntrico, principalmente quando comparados aos animais do primeiro cinema.

Resumo expandido

    Partindo de um pensamento feral, como vem sendo mobilizado pela filósofa Juliana Fausto a partir da antropóloga Anna Tsing, busco percorrer e alargar a pergunta enunciada no título deste trabalho: o que olham os bichos? Se feral é aquilo que não pertence à cultura, tampouco à natureza, escapando das categorizações binárias ocidentais em arranjos de sobrevivência (Fausto, 2021), invisto em seu caráter marginal enquanto categoria analítica fortuita para abordar a irrupção de bichos e outros seres fronteiriços no cinema contemporâneo, especialmente naquele realizado por cineastas brasileiras. Interessa pensar se o cinema seria um espaço adequado para abrigar tais criaturas e cosmopolíticas (Stengers, 2018), uma vez que seus enquadramentos formais e estéticos podem servir como mais um circuito de domesticação e aprisionamento das vidas que escapam. Por outro lado, talvez possamos dimensioná-lo enquanto um ato de fuga, seguindo o fio tramado pelo filósofo Dénètem Touam Bona (2020), isto é, um arranjo instável que assegura a permanência e reinvenção das feras errantes, humanas e outras que humanas.
    Diante de um ecocídio sistêmico do que já se configura como a sétima extinção em massa planetária, voltamo-nos à necessidade das artes de notar (Tsing, 2022) para elaborarmos, coletivamente, como coabitar uma terra devastada. Proponho, então, o exercício de análise da crítica ambiental em tempos de Antropoceno, um evento (Haraway, 2023) limite marcado pela ação humana como força geológica, com o foco nos chamados animal studies [estudos animais], e em suas interseções estéticas, ou seja, o vínculo desse campo com a produção de imagens contemporâneas. Para isso, iremos nos envolver com o filme É noite na América (2022), de Ana Vaz em aliança e fissura às imagens de bichos produzidas pelo primeiro cinema. Revela-se, a partir de tal método comparativo, uma inquietação sobre os modos com que a arte pode ser convocada a participar do debate ambiental e social, provocando deslocamentos, tensões e a fabulação do que chamaremos de cinema feral.
    Como o desejo é, de fato, experimentar tal proposição, evoco, ainda, outras questões que permeiam essa pesquisa em diferentes atravessamentos: poderia a feralidade se tornar uma metodologia de análise fílmica? Seriam as ficções etnográficas um gênero capaz de agrupar diferentes produções de um cinema comprometido com o problema ecológico? Como os bichos revogam sua autonomia em fricções interespecíficas a partir de estratégias sensoriais e hápticas produzidas pelo dispositivo cinematográfico? Aqui, essas perguntas irrompem para traçar conexões entre a chamada ecocrítica — o estudo dos modos como imaginamos e representamos as relações entre o ser humano e o meio ambiente, nas mais diversas manifestações culturais — e a emergência de imagens que deslocam a centralidade do humano para fabular novas perspectivas de composição e imaginários.
    A fera, assim como a besta, o monstro, a criatura, seria um ser fronteiriço entre uma suposta humanidade e uma selvageria apartada. Uma vez inventados pelas ficções modernas em seus bestiários, gabinetes de curiosidade, zoológicos, diários de viagem, filmes de um primeiro cinema e outros formatos de coleção, contenção e especulação, esses seres revogam sua autonomia ao nos olharem de volta a partir desses mesmos dispositivos. Para que esse “olhar de volta” insurja, é necessário que se efetue um giro perspectivista epistêmico (Viveiros de Castro, 2018), uma vez que as histórias sobre bichos e suas hibridizações sempre povoaram os relatos originários. Enquanto as narrativas coloniais de navegações pelo Novo Mundo instituíram às feras um certo terror monstruoso, olharemos para os modos com que tais seres integram perspectivas fundacionais e insurgentes no filme de Ana Vaz, instaurando alianças multiespécies (Tsing, 2019) capazes de fraturar o regime hegemônico de visualidade antropocêntrica (Mirzoeff, 2014).

Bibliografia

    FAUSTO, Juliana. LA PENSÉE FÉRALE. Das Questões, [S. l.], 2021.
    HARAWAY, Donna. Ficar com o problema: fazer parentes no chthluceno. São Paulo: N-1 edições. 2023.
    HARAWAY, Donna. Quando as espécies se encontram. São Paulo: Ubu Editora, 2022.
    MARKS, Laura. The Skin of the Film – Intercultural Cinema, Embodiment, and the Senses. Durham: Duke University Press. 2000
    MIRZOEFF, Nicholas. “Visualizing the Anthropocene”. Public Culture, 2014.
    MURARI, Lucas. “O arquivo animal”. Revista Territórios E Fronteiras, 2025.
    STENGERS, Isabelle. “A proposição cosmopolítica”. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, 2018. .
    VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. “A antropologia perspectivista e o método de equivocação controlada”. Aceno – Revista de Antropologia do Centro-Oeste, 2018.
    TOUAM BONA, Dénètem. Cosmopoéticas do Refúgio. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2020.
    TSING, Anna. O cogumelo no fim do mundo: Sobre a possibilidade de vida nas ruínas do capitalismo. São Paulo: N-1 edições, 2022