Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Edson Pereira da Costa Júnior (Sem vínculo)

Minicurrículo

    Doutor em Meios e Processos Audiovisuais (ECA-USP).

Ficha do Trabalho

Título

    Entre o cinema e o mundo: notas a partir do Haiti

Seminário

    (Re)existências negras e africanas no audiovisual: epistemes, fabulações e experiências

Resumo

    A comunicação busca analisar as interseções entre cinema e mundo em dois filmes que partem de ações teatrais em torno da história haitiana: “Ouvertures” (2020), do coletivo The Living and the Dead Ensemble, e “L’oubli tue deux fois” (2024), de Jean Michel Pierre. A partir de uma análise da estética e das relações com o fora de campo, indaga-se como as obras participam das reescritas da(s) história(s), ao mesmo tempo em que insinuam a intervenção no mundo a partir de uma imaginação radical negra.

Resumo expandido

    Os vínculos do cinema feito no Haiti com a história do país remontam, pelo menos, ao curta-metragem “Haiti” (1938), do suíço-estadunidense Rudy Burckhardt. Enquanto o filme foi cultuado em razão de seus jogos formais com os ritmos do espaço urbano e as texturas de Porto Príncipe, uma breve atenção ao seu fora de campo revela que a realização da obra foi uma extensão direta da ocupação imperialista dos EUA na ilha (1915-1934). Mesmo a passagem de Burckhardt pelo Haiti reproduziu a “caricatura do homem branco nos trópicos”, permeada “pelos tipos de lógica racista que sua arte denuncia” (HUDSON, 2012, p. 4).

    Uma articulação de outra ordem entre o dentro e o fora do campo, o cinema e o mundo, verifica-se em obras do cinema militante feito na segunda metade do século XX. Realizado durante a ditadura militar dos Duvalier e considerado o primeiro longa-metragem haitiano, “Ayiti, men chimin libete” (Arnold Antonin, 1975), por exemplo, tanto enforma sua narrativa a partir do momento histórico que o produziu como busca nele intervir, servindo ao propósito de contrainformação, “de pedagogia e engajamento” (ALI, 2026).

    Esta comunicação busca analisar a particularidade das negociações entre o cinema e o mundo a partir de filmes haitianos contemporâneos. Encontramos na produção recente uma estrita coesão na ética que preside os espaços internos e externos ao quadro fílmico, mas por uma lógica distinta daquela que presidia a intervenção direta via cinema militante. Obras documentais e de formato híbrido, como “Ouvertures” (2020), do coletivo The Living and the Dead Ensemble, “L’oubli tue deux fois” (2024), de Jean Michel Pierre, e “Koutkekout” (2024), de Joseph Hillel, acompanham a realização e os efeitos de ações teatrais e/ou performáticas no cotidiano de pequenas comunidades. O engajamento com o mundo se dá por uma dupla mediação: a exercida pelas atividades artísticas e, em seguida, a que o cinema documenta e reinventa em seus termos.

    Interessa-nos aqui refletir sobre os casos de “L’oubli tue deux fois” e “Ouvertures”. O primeiro filma o processo de criação de uma peça teatral em torno do massacre de haitianos que viviam na República Dominicana em 1937, a mando do ditador dominicano Rafael Trujilo. Tanto a peça como o filme se tornam instâncias reais para que haitianos e dominicanos relembrem o evento e elaborem uma memória coletiva in actu, nas contingências do presente que a câmera filma. A obra se torna porosa a esse processo, existindo e se expandindo a partir dele. Mas, o que filme instaura diante da experiência vivida/lembrada?

    Já “Ouvertures” se engaja com uma imaginação radical. O ponto de partida é a tradução para o crioulo haitiano de trechos da peça teatral “Monsieur Toussaint” (1961), de Édouard Glissant. Enquanto acompanha os ensaios em estilo documental, o filme se torna a própria encenação audiovisual da peça, numa mise en abyme. O general Toussaint L’Ouverture e outras figuras históricas da revolução haitiana são revividas na Porto Príncipe contemporânea, reabrindo o continuum da história, num cruzo do passado com o presente e o futuro do país. Se esse exercício designa em si mesmo a invenção do cinema sobre a percepção da história, não é menos relevante sublinhar o processo de tradução coletiva de “Monsieur Toussaint” para o crioulo haitiano. O que esses atos nos dizem sobre “reanimar [a peça] em um corpo social com consistência política no presente”? (THE LIVING AND THE DEAD ENSEMBLE, 2019, p. 90). Até que ponto um texto corporifica uma imaginação capaz de refazer o mundo no agora?

    A comunicação busca refletir sobre a maneira com que os dois filmes recorrem a práticas artísticas na criação de caminhos de negociação e rotas de fugas ante os desafios de um mundo histórico antinegritude. A partir de um diálogo pontual com autores da tradição radical negra, a lida com as obras se esforça por pensar conjuntamente a estética fílmica e as inflexões operadas sobre o real.

Bibliografia

    ALI, Jonathan. In order to change things: tracing Caribbean documentary’s liberation struggle. Documentary Magazine, 9 de fevereiro, 2026a: https://www.documentary.org/feature/order-change-things-tracing-caribbean-documentarys-liberation-struggle. Acesso em: 05/04/2026.

    FRANKETIENNE. Anthologie sécret. Montréal: Memoire Encrier, 20025.

    HUDSON, Peter James. Germaine, Evangeline, and Other “Negro Girls”: Rudy Burckhardt’s Caribbean. Small Axe, v. 16, n. 1, p. 1-19, 2012.

    SILVA, Denise Ferreira. Unpayable Debt. Londres: Sternberg Press, 2022.

    THE LIVING AND THE DEAD ENSEMBLE. The Unfolding of Life in a Spiral. In BELINA, Mirna (org.). HereAfter. Amsterdã: Sonic Acts Press: 2019.