Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Jeferson de Vargas Silva (USP)

Minicurrículo

    Graduado em Produção Audiovisual pela PUC/RS, Especialização em Artes/UFPEL e Mestrando em Artes Cênicas PPGAC/ECA/USP. Atualmente, trabalha profissionalmente como produtor executivo de projetos audiovisuais e editor de vídeos para cinema e publicidade.

Ficha do Trabalho

Título

    DISPOSITIVOS DE TEATRALIDADE NO DOCUMENTÁRIO: análise de Jogo de Cena e Moscou, de Eduardo Coutinho

Eixo Temático

    ET 2 – INTERMIDIALIDADES, TECNOLOGIAS E MATERIALIDADES FÍLMICAS E EPISTÊMICAS DO AUDIOVISUAL

Resumo

    Analisaremos, de forma comparativa, dois filmes de Eduardo Coutinho: “Jogo de cena” (2007) e “Moscou” (2009). Em ambas as obras, o conceito de “teatralidade” assume abordagens específicas. No caso de “Jogo de cena”, “a teatralidade da situação ganha conotações específicas pela escolha do espaço de um teatro, com sua arquitetura típica” (XAVIER, 2015, p.235). Já em “Moscou”, a teatralidade se constrói a partir do jogo entre o cineasta e o Grupo Galpão no ensaio de “As Três Irmãs”, de Tchekhov.

Resumo expandido

    Quando analisamos a literatura sobre a relação entre cinema e teatro no Brasil, destacam-se as contribuições de Gabriela Lírio Gurgel Monteiro e Roberta Matsumoto.
    Gabriela Lírio Gurgel Monteiro, além de desenvolver estudos nos quais analisa diferentes objetos a partir dessa perspectiva (como por exemplo, obras de Peter Brook e Cristiane Jatahy) apresenta abordagens teóricas sobre o tema nos artigos “Teatro e cinema: uma perspectiva histórica” e “Cinema e teatro: Interfaces”. Já o artigo Roberta Matsumoto, intitulado “Imagens e(m) cena: variações sobre cinema e teatro”, publicado em 2017, resulta de uma pesquisa sobre as relações entre cinema e teatro desenvolvida desde 2011.
    Roberta Matsumoto pensando a relação teatro e cinema aponta:
    ao menos quatro possibilidades de abordagem, que se complementam, se misturam, se sobrepõem: o audiovisual como ferramenta metodológica na pesquisa em teatro; a transposição do teatro para o audiovisual – filme de/sobre teatro; a linguagem audiovisual como inspiração das opções estéticas no teatro; o audiovisual como elemento de composição cênica. (2017, p. 50)

    A partir dessas possibilidades apresentadas pela autora, na busca por mapear as diferentes relações entre cinema e teatro, proporcionando-nos uma visão ampla e geral sobre o tema, a tarefa que propomos é debruçar-nos, sobretudo, sobre “a transposição do teatro para o audiovisual”. Partindo tanto dos estudos teatrais quanto dos estudos audiovisuais, a fim de analisar os possíveis desdobramentos sobre o tema. O objetivo principal é refletir sobre como o teatro se manifesta na tela.
    Assim, para abordar “a transposição do teatro para o audiovisual”, consideramos as categorias de “teatro filmado”, “filme sobre teatro” e o “filme de teatro”.
    Nesta exposição, abordaremos especificamente o “Filme de teatro” no âmbito da linguagem documental. Diferentemente do “teatro filmado”, em que a linguagem cinematográfica se coloca a serviço do teatro, o “Filme de teatro”, propõe uma relação mais complexa: ao entrar em contato com o cinema, a linguagem teatral deixa-se afetar de maneira substancial. Embora preserve sua natureza teatral, ela se transforma completamente, sendo “contaminada” pelos princípios da linguagem cinematográfica.
    Portanto, a partir do conceito de “Filme de teatro” aplicado à linguagem documental, analisaremos, de forma comparativa, dois filmes de Eduardo Coutinho: “Jogo de cena” (2007) e “Moscou” (2009). Em ambas as obras, a teatralidade assume configurações específicas. No caso de “Jogo de cena”, como observa Ismail Xavier, “a teatralidade da situação ganha conotações específicas pela escolha do espaço de um teatro, com sua arquitetura típica” (2015, p.235). Já em Moscou, a teatralidade se constrói tanto a partir do espaço físico da sala de ensaio quanto pelo jogo estabelecido entre o cineasta com o Grupo teatral Galpão no processo de ensaio da peça “As Três Irmãs”, de Anton Tchekhov.
    Essa abordagem de Coutinho vai ao encontro das reflexões de Béatrice Picon-Vallin (1997), que, ao pensar sobre adaptação, chama atenção para a existência, uma “língua de partida” (a obra original) e uma “língua de partida” (a obra adaptada). Nesse sentido, ao se pensar o “Filme de teatro”, independente de qual for a referência teatral inicial, a principal preocupação não reside em reproduzir a forma como a obra foi concebida para o público de teatro, mas em construir uma experiência própria para o espectador cinematográfico.
    Outras duas referências importantes para a análise são, em primeiro lugar, a definição de teatralidade desenvolvida por Josette Féral (2015), que propõe uma abordagem do conceito para além das manifestações teatrais. Em segundo lugar, destacam-se os textos de André Bazin (2018) sobre adaptação, especialmente, os apontamentos sobre as especificidades de cada meio, refletindo sobre as diferentes abordagens e apropriações que o cinema realizou (e pode realizar) em relação à linguagem teatral.

Bibliografia

    BAZIN, André. O que é o cinema?. São Paulo: Ubu editora: 2018.
    MATSUMOTO, Roberta. Variações sobre teatro e audiovisual. Repertório, Salvador, ano 20, n.28, p.47-67, 2017.
    MONTEIRO, Gabriela Lírio Gurgel. Teatro e cinema: uma perspectiva histórica. ArtCultura, Uberlândia, v. 13, n. 23, p. 23-34, 2011.
    FÉRAL, Josette. Além dos limites: teoria e prática do teatro. São Paulo: Editora Perspectiva, 2015.
    PICON-VALLIN, Béatrice. Deux arts en un? In: ALBÉRA, François; PICON-VALLIN, Béatrice (org.). Le
    film de théatre. Paris: CNRS Éditions, 1997. p. 11-27.
    XAVIER, Ismail. A teatralidade como vetor do ensaio filmico no documentário brasileiro contemporâneo. In TEIXEIRA, Francisco Elinaldo (ORG). O ensaio no cinema: formação de um quarto domínio das imagens na cultura audiovisual contemporânea. São Paulo: Hucitec, 2015.