Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Gilberto Alexandre Sobrinho (UNICAMP)

Minicurrículo

    Professor Associado junto ao Departamento de Multimeios, Cinema e Comunicação, do Instituto de Artes, da UNICAMP (Campinas – SP). Bolsista de Produtividade do CNPq. Realizador de documentários. Em 2025, lançou o curta-metragem Poema para o trabalhador da Cidade. Curador de mostras e festivais de cinema.

Ficha do Trabalho

Título

    Cartografia crítica dos cinemas afro-diaspóricos em perspectiva transnacional

Seminário

    Cinema e Espaço

Resumo

    A comunicação propõe uma metodologia para analisar o cinema afro-diaspórico, articulando experiências estéticas transnacionais nas Américas, Caribe e Europa, em formações territoriais específicas. Baseada na noção de espaço como relação entre objetos e ações, investiga produções que enfrentam o eurocentrismo e valorizam epistemologias negras. Destaca movimentos políticos e culturais para a análise de cineastas e coletivos que constroem estéticas próprias nos continentes americano e europeu.

Resumo expandido

    O objetivo da comunicação é compartilhar e discutir uma metodologia de análise sobre o cinema afro-diaspórico do Atlântico Negro, circunscrito no campo de estudos do cinema mundial (World Cinema), interessado em cartografias para a história e a crítica do cinema. Para este trabalho, centrado na aglutinação e relação de diferentes experiências estéticas do cinema em geografias transcontinentais, a noção de espaço como um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações (SANTOS, 1996) é estratégica (e fundamental) para o desenvolvimento estético das práticas cinemáticas em tela, a saber: trata-se de intervir no espaço da imagem, por meio da inscrição de um reposicionamento imagético, valorizado pela própria experiência dos sujeitos realizadores. Recorta-se aqui, provisoriamente, América do Sul, América do Norte, Caribe e Europa, a partir de experiências libertárias e descolonizadas, cujo emblema e ponto de partida é o ano de 1492. Parto da ideia de que cineastas afrodescendentes e seus aliados compõem paisagens humanas e culturais que deflagram a defesa do que STAM & SHOAT (2006) denominam o multiculturalismo policêntrico, um modo de reagir, critica e criativamente, ao eurocentrismo e a imponência caucasiana. Assim, o recorte da pesquisa é transversal, ou seja, olho as composições da negritude e seus efeitos, em processos espaço-temporais não lineares e, potencialmente, em processos de recomposição. A reflexão conduz a uma poética e política do olhar, em que pensadores, críticos, acadêmicos, ativistas e artistas articulam suas ideias e trabalhos de uma maneira posicionada. Assim, o Pan-africanismo, a Negritude, o Teatro Experimental do Negro, o Black Power, o Black Arts Movement, o Movimento Negro Unificado, a capoeira, o candomblé, a “cultura popular” etc., entre outros movimentos de libertação e luta política, estarão no centro das abordagens e informam como artistas da imagem e do som dialogaram, reagiram, incorporaram ou tensionaram com esses expedientes culturais e políticos. A comunicação irá explorar esquematicamente como desenvolvi uma metodologia de análise, a partir de uma cartografia específica, de cineastas e coletivos artísticos que moldaram e expandiram outras comunidades de cinema em escala global. Traça-se, assim, uma composição espacial complexa, que envolve a instauração de estéticas singulares, demarcadas territorialmente, bem como, deslocamentos e influências transcontinentais. Consideram-se desde os race films de Oscar Micheaux, que mantinham um tom conciliatório, passando pelas estéticas políticas radicais da era dos direitos civis, incluindo as intervenções coletivas do LA Rebellion e as contribuições autorais de William Greaves, indo para as contribuições contemporâneas de Spike Lee, Julie Dash etc. Além dos Estados Unidos, a comunicação volta-se para a América Latina e o Caribe, com atenção especial ao Brasil — lar da maior diáspora africana — onde o cinema negro se desenvolveu em diálogo com paradigmas estéticos tanto clássicos quanto contemporâneos, ganhando impulso significativo no século XXI (Sara Gómez, Adélia Sampaio, Diretores da Filmes de Plástico, Raoul Peck, Marlon Riggs, Joel Zito Araújo, Jeferson De, Euzhan Palcy, Sabrina Fidalgo entre outros). No contexto europeu, a análise centra-se no Reino Unido, por meio das vozes de imigrantes de segunda geração que respondiam às políticas neoliberais e conservadoras da era Thatcher nos anos 1980 (Sankofa Film and Video Collective e o Black Audio Film Collective). Sustento que os filmes em questão articulam uma estética complexa, pois mobilizam extratos específicos de suas comunidades, o que conduz a construções formais e estratégias narrativas específicas, determinadas pelas noções territoriais desses sujeitos. Eles destacam epistemologias ancestrais, ficções especulativas, práticas emancipatórias, crítica antirracista, pensamento decolonial, tensões com práticas hegemônicas e a luta contínua pela plena cidadania cultural e política.

Bibliografia

    BRUNO, G. Atlas of Emotion: Journeys in Art, Architecture, and Film. London: Verso. 2002.
    DENNISON, Stephanie (org.). World cinema: as novas cartografias do cinema mundial. Campinas, SP: Papirus Editora, 2020.
    GILLESPIE, M.B. Film Blackness. American Cinema and the Idea of Black Film. Duham/Londres: Duke University Press, 2016.
    HALL, Stuart. Da diáspora. Identidade e mediações culturais. Belo Horizonte : Editora da UFMG, 2009.
    MIRZOEFF, Nicholas. The right to look. A counterhistory of visuality. Durham: Duke University Press, 2011.
    SANTOS, M. A Natureza do Espaço. São Paulo: Edusp. 2009.
    SHOHAT, Ella; STAM, Robert. Crítica da Imagem Eurocêntrica. São Paulo: Cosac Naify, 2006.