Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Felipe Puchalski da Silva Fiedler (Unespar)

Minicurrículo

    Felipe Puchalski da Silva Fiedler é mestrando no programa de Cinema e Artes do Vídeo na Unespar (PPG-CINEAV), vinculado à linha de pesquisa Teorias e Discursos no Cinema e nas Artes do Vídeo. Bacharel em Cinema e Audiovisual (Unespar). Membro do grupo de pesquisa EIKON – Estudos de Imagem, Conhecimento e Ontologias do Audiovisual (Unespar/PPG-CINEAV/CNPq). Suas pesquisas abordam temporalidades, figuração, cinema experimental, estudos comparados e representações estéticas e políticas no cinema.

Ficha do Trabalho

Título

    Entre o sono e a morte: figuração e limiar nas imagens do corpo adormecido no cinema

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    O trabalho investiga a representação da imagem do sono no cinema, para além de sua função narrativa, ao abordar a dormência como um gesto limiar no relacionamento entre a vida e a morte. Por meio de uma análise comparativa de cinco filmes, articulamos duração, inatividade e materialidade da imagem, buscando entender como o corpo adormecido, em sua ambiguidade entre presença e ausência, produz um pensamento de imagens que escapa à lógica figurativa tradicional.

Resumo expandido

    No cinema, a imagem do corpo dormindo é representada com tamanha recorrência. Em seu caráter abrangente, essa representação parte de uma instrumentalização narrativa, sendo o sono tratado como um mero recurso de elipse temporal ou como ferramenta de montagem, insinuando uma mudança espacial na cena. Dessa forma, o sono é uma espécie de gesto intervalar na construção ilusória da continuidade cinematográfica. Mas será que o registro da dormência poderia ser reduzido apenas à sua instrumentalização? O propósito desta comunicação é, de forma introdutória, investigar outros modos de representação que operam na gestualidade do sono no cinema.
    No imaginário romântico da arte pictórica, existe uma ambivalência entre a representação do sono e da morte. O mesmo ocorre no cinema. Enquanto a morte atua como um fim definitivo, o sono opera como um limiar entre a vida e o repouso eterno. Uma espécie de intervalo; um entre-imagens. Com o intuito de abordar esse paralelismo entre o sono e a morte, propomos uma análise comparativa entre 5 obras cinematográficas: Sleep (Andy Warhol, 1964), Cemitério do Esplendor (Apichatpong Weerasethakul, 2015), Memoria (Apichatpong Weerasethakul, 2021), I Don’t Want to Sleep Alone (Tsai Ming-liang, 2006) e Casa de Lava (Pedro Costa, 1994). Na tentativa de aproximar e tensionar certas imagens, faremos uso de metodologias comparatistas apresentadas por Mariana Souto (2020) e Etienne Samain (2012), para tratar a respeito do que chamamos de um “repouso das imagens”.
    Ao ampliar a dimensão fisiológica do sono para uma análise política, é possível aproximá-lo daquilo que Jonathan Crary identifica como uma zona de resistência ao regime contínuo de produção e visibilidade (Crary, 2016). Se, no regime 24/7 do capitalismo, o sono é percebido como interrupção indesejada, no cinema ele pode operar como suspensão produtiva da própria lógica narrativa. Tal suspensão encontra ressonância com a noção de “inatividade” proposta por Byung-Chul Han (2023). A inatividade, nesse contexto, não implica um estado vazio, mas uma abertura para outras formas de sensibilidade e de relação com o tempo. O motivo visual do sono, independente de sua aplicação narrativa, cria laços diretos com o cinema de longa duração, propondo uma dilatação temporal e cisão com a ação em cena, reorganizando sua temporalidade e enaltecendo o que é defendido por Bachelard (2010) como a descontinuidade do instante.
    O corpo adormecido, frequentemente imóvel ou em mínima variação, aproxima-se de um limiar, uma espécie de entre-imagens; um limiar entre o movimento e a estase, convocando o espectador a um outro regime de atenção. Essa ambiguidade dialoga com a reflexão de Laura Mulvey sobre a relação entre movimento e imobilidade na imagem cinematográfica, sobretudo quando a duração prolongada ou a repetição permitem que o olhar se detenha sobre o detalhe, instaurando uma espécie de “pausa” dentro do fluxo (Mulvey, 2006). Da mesma forma que o motivo visual do sono também pode ser pensado a partir de uma dimensão figural, em que a imagem deixa de ser apenas veículo de significação para afirmar sua materialidade, sua plasticidade e sua força sensível (Dubois, 2012).
    Diante desse percurso, buscamos entender qual posição é tomada pelos corpos em repouso diante das zonas limiares entre sono e vigília. Por meio desta análise comparatista, o motivo do adormecimento não se reduz a um operador narrativo, mas emerge como figura central de uma política da imagem, instaurando o que chamamos, aqui, de um “repouso das imagens”: um regime em que ver torna-se, também, um exercício de espera, de suspensão e de abertura ao indeterminado.

Bibliografia

    BACHELARD, Gaston. A intuição do instante. 2. ed. Campinas, SP: Verus Editora, 2010.

    CRARY, Jonathan. 24/7: capitalismo tardio e os fins do sono. 1. ed. São Paulo: Ubu Editora, 2016.

    DELEUZE, Gilles. Cinema 2: a imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 2007.

    DUBOIS, Philippe. Plasticidade e cinema: a questão do figural. In: HUCHET, Stéphane (org.). Fragmentos de uma teoria da arte. São Paulo: Edusp, 2012.

    HAN, Byung-Chul. Vita contemplativa ou sobre a inatividade. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis, RJ: Vozes, 2023.

    MULVEY, Laura. Death 24x a second: stillness and the moving image. London: Reaktion Books, 2006.

    RIBEIRO, Sidarta. Limiar: ciência e vida contemporânea. São Paulo: Fósforo, 2021.

    SAMAIN, Etienne. As imagens não são bolas de sinuca. Como pensam as imagens. Etienne Samain (org.). Campinas, Editora da Unicamp, 2012.

    SOUTO, Mariana. Constelações Fílmicas: um método comparatista no cinema. Galáxia (Online), n. 45, set-dez, 2020, p. 153-165.