Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Barbara Vida Mefano Fares (USP)

Minicurrículo

    Barbara Vida é atriz, cineasta e comunicadora popular. Graduada em Teatro pela UNIRIO, mestre pela UFF e doutoranda em Maior e Processos Audiovisuais pela USP. Trabalhou como atriz e produtora com os diretores Helena Ignez, Ricardo Miranda e Joel Pizzini em filmes como “Ralé”, “A Moça do Calendário”, “Djalioh”, “Paixão e Virtude”, “Zimba” e “Depois do Trem”. Dirigiu os curtas “Sereias” e “Lágrimas de Crocodilo”. Integra a Brigada Audiovisual Eduardo Coutinho e o Setor de Comunicação do MST.

Ficha do Trabalho

Título

    A Construção da Imagem do MST no Audiovisual (1984-2000)

Resumo

    O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), fundado em 1984, consolidou-se como um dos principais atores da política nacional. Esta pesquisa investiga a construção da imagem do MST dos seus primórdios até 1995, ano em que o Setor de Comunicação foi criado e os próprios militantes passaram a produzir o conteúdo audiovisual. Tem como objetivo localizar, catalogar e analisar recortes desse conteúdo fílmico atualmente fragmentado.

Resumo expandido

    O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), fundado em 1984, atua em 24 estados e assentou cerca de 450 mil famílias. Desde seus primórdios, cineastas, documentaristas e jornalistas registraram essa luta, produzindo um significativo material audiovisual.
    Obras como “Terra Para Rose” (1987), de Tetê Moraes, que retrata a ocupação sem-terra da Fazenda Annoni (RS), servem como ferramenta de debate e testemunho da questão agrária brasileira. Essas obras não apenas documentam, mas intervêm na disputa hegemônica, oferecendo narrativas contra-hegemônicas que se contrapõem à cobertura da imprensa tradicional, pautada pelo agronegócio e, outrora, pelo latifúndio. Conforme Luara Dal Chiavon, a dicotomia entre narrativa hegemônica e contranarrativas constitui o cerne da disputa simbólica em torno do MST. A análise dessas perspectivas permitirá compreender como as representações do movimento se transformaram ao longo do tempo.
    A estrutura do MST, ao longo de sua expansão e construção, organizou-se em setores e coletivos especializados (Produção, Educação, Saúde, Frente de Massas), a fim de dar conta do encaminhamento das questões ligadas à luta pela terra em todas as suas dimensões (MORISSAWA, 2001). Com a criação do Setor de Comunicação (2000) e do Coletivo de Memória (2014), o movimento assumiu o protagonismo na produção e gestão de seus registros, resultando em um acervo próprio. Essa virada representa a construção de uma memória contra-hegemônica, rompendo com a dependência das estruturas midiáticas tradicionais, bem como cineastas externos ao movimento. Como aponta Engelmann (2018, p. 81), movimentos sociais marginalizados apropriam-se das mídias digitais para organizar processos de comunicação contra-hegemônicos, agregando ao seu projeto político de mudança social a necessidade da conquista da cidadania comunicativa.

    A autora desta pesquisa integra desde 2014 o Setor de Comunicação e, durante quatro anos, trabalhou produzindo vídeos na Secretaria Nacional do MST, em São Paulo, onde se encontra o arquivo do movimento. O acervo, composto por HDs, fitas VHS e Mini DVs em sua maioria não digitalizados, revela lacunas significativas no material produzido entre o final dos anos 1970 e meados da década de 1990, período anterior à criação do Setor de Comunicação.

    Essa produção encontra-se dispersa por universidades e arquivos públicos e privados. Como é recorrente, os objetos de memória de movimentos populares são guardados por terceiros, e o MST não tem acesso à maior parte dessas obras. Em parceria com o Setor de Comunicação e o Coletivo de Memória, foi criado um formulário aplicado nos estados para localizar acervos desse período. Pretende-se localizar esses materiais para pesquisa e para garantir o acesso do movimento aos filmes produzidos em seus territórios.

    Este trabalho debruçar-se-á sobre arquivos ainda não explorados pela literatura, encontrados nos acervos nacional e estaduais do MST, assim como nas universidades e outros locais onde foram depositados itens do movimento. Contribuirá, portanto, para a preservação da memória audiovisual da luta pela terra e para a compreensão das estratégias contra-hegemônicas desenvolvidas pelo movimento ao longo de quatro décadas.

Bibliografia

    Coutinho, Carlos Nelson. Cultura e sociedade no Brasil – Ensaios sobre idéias e formas. São Paulo: Expressão Popular, 2011.

    CUARTEROLO, Andrea; MORETTIN, Eduardo; TORELLO, Georgina. A Pesquisa Histórica no Cinema Latino-americano: Perspectivas e desafios na era digital. Aniki, [S. l.], v. 9, n. 1, p. 123-138, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.14591/aniki.v9n1.882. Acesso em: 21/10/2025.

    DAL CHIAVON, Luara. O sujeito coletivo do fazer fílmico na produção audiovisual do MST. 2022. 102 f.Dissertação (Mestrado em Meios e Processos Audiovisuais) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2022.

    MORISSAWA, M. A história da luta pela terra e o MST. São Paulo: Expressão Popular, 2001.

    STÉDILE. J. P.; FERNANDES, B. M. Brava Gente: a trajetória do MST e a luta pela terra no Brasil. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1999.