Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Plínio Luís Pereira Lopes (Unespar)

Minicurrículo

    Plínio Lopes é estudante da graduação de Cinema e Audiovisual na Universidade Estadual do Paraná (Unespar) e graduado em Comunicação Social – Jornalismo na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Trabalha como produtor audiovisual em curtas-metragens.

Ficha do Trabalho

Título

    Processo em cena: os ecos do modo de produção de Hong Sang-soo dentro de seus filmes

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    Esse trabalho investiga como o modo de produção de Hong Sang-soo ecoa em seus filmes. Partindo de entrevistas do cineasta e da sistematização de Dennis Lim, se propõe que o discurso do diretor sobre seus processo filmico encontra enunciação nas obras. A análise de The Novelist’s Film (2022) e In Water (2023) mostra personagens encenando procedimentos descritos pelo diretor, transformando processo em forma e deslocando a interpretação para as condições de realização.

Resumo expandido

    Hong Sang-soo é um autor prolífico. Desde 1996, dirigiu 36 longa-metragens. Ao longo do tempo, também se tornou um realizador cada vez mais centralizador: desde 2011, produz seus próprios filmes e, mais recentemente, passou a assinar fotografia e edição. Em uma obra tão vasta, é evidente que existam variações formais e narrativas. No entanto, o que frequentemente chama a atenção de espectadores e críticos é a repetição de situações, dispositivos e personagens: planos fixos interrompidos por zooms, longas conversas regadas a soju ou makgeolli e figuras ligadas ao campo artístico.
    Esse conjunto recorrente costuma ser interpretado a partir da noção de autoria, aproximando Hong de cineastas como Eric Rohmer ou Woody Allen. No entanto, como observa Dennis Lim, “cinema de autor é uma lente, um modo de leitura, e não um método de realização” (Lim, 2022, p.23). De fato, o próprio Hong parece resistir reiteradamente a interpretações de seus filmes, adotando respostas vagas ou evasivas quando questionado sobre intenções e significados. Por outro lado, demonstra grande interesse em discutir seu processo de trabalho: em entrevistas detalha modos de produção, financiamento, escrita, direção de atores, figurinos, etc, sempre enfatizando um método baseado na redução de infraestrutura, na autonomia criativa e na construção do filme durante o processo de realização.
    Mas e se a chave de leitura de seus filmes estiver menos na interpretação de seus sentidos e mais na observação de seus processos? O próprio Hong já afirmou em entrevista que “sempre quis fazer muitos filmes” e por isso quis “desenvolver uma maneira de conseguir fazer filmes com o mínimo de base, de infraestrutura” (Hong, 2021, pg. 23) . Essa ênfase na criação de um método que viabiliza a prática mostra como o processo, em Hong, é tão importante quanto o resultado final.

    Assim, essa comunicação pretende encontrar ecos e espelhos do modo de produção de Hong dentro dos filmes do diretor. O discurso do sul coreano sobre o fazer cinematográfico encontra uma forma de enunciação interna em seus próprios filmes, por meio de personagens que encenam, reiteram ou tensionam esse método.
    Para desenvolver essa hipótese, proponho a análise de dois filmes recentes em que o fazer cinematográfico (e não apenas o debate filmico) é explicitamente tematizado: The Novelist’s Film (2022) e In Water (2023). Em ambos, personagens concebem e realizam filmes, tornando visíveis procedimentos recorrentes na prática de Hong, como a escrita do roteiro durante a filmagem, a recusa de estruturas prévias rígidas e a abertura ao acaso.
    Em In Water, o diretor Sang-guk trabalha sem roteiro definido, adiando decisões e construindo o filme a partir de estímulos encontrados no ambiente. O baixo orçamento, a equipe reduzida e o autofinanciamento aparecem como condições intrínsecas do processo de fazer filme, em sintonia com as entrevistas dada por Hong e pelo modelo descrito por Dennis Lim. Ao mesmo tempo, decisões de enquadramento, atuação e som são discutidas e ajustadas em cena, mostrando um cinema que se constrói e planeja durante a filmagem.
    Já em The Novelist’s Film, esse método surge de maneira mais discursiva. A diretora Junhee descreve seu projeto como algo baseado na observação dos atores, na escrita de uma estrutura ficcional simples para que a câmera capture o que emergir das atuações. Ao priorizar o que vai emergir ao invés da estrutura ficcional, Junhee se aproxima de declarações dadas pelo próprio Hong sobre trabalhar com elementos cotidianos organizados durante o processo.
    Ainda em The Novelist’s Film, já na parte final do filme, vemos o filme que, teoricamente, estava sendo gravado por Junhee. Mas em determinado momento é Hong que assume a câmera (podemos ouvir sua voz no filme): a síntese entre criador e obra fica ainda mais clara. Seus filmes encenam o próprio modo de produção. Portanto, a interpretação deles precisa passar pela observação cuidadosa de como ele fabrica as condições para realizá-los.

Bibliografia

    AUMONT, Jacques. Idiocies: a poetics of the real. In: HONG SANG-SOO: infinite worlds possible. Bruxelas: Sabzian, 2018.

    DEBUYSERE, Stoffel; CLAES, Gerard-Jan. Introduction. In: HONG SANG-SOO: infinite worlds possible. Bruxelas: Sabzian, 2018.
    HAN, Ju-yeon. Conferência de imprensa do diretor de The Novelist’s Film, Hong Sang-soo: “Não excluo o elemento do acaso”. Cine21, 2022. Disponível em: https://cine21.com/news/view/?mag_id=99715. Acesso em: 26 abr. 2026.
    HONG, Sang-soo. Entrevista concedida a Dennis Lim. In: BRASILEIRO, Samuel; MEDEIROS, Vitor; VEIGA, Isabel (org.). Encontros à deriva: retrospectiva Hong Sang-soo. Tradução: Pedro Tinen. Rio de Janeiro: CCBB, 2021.
    LEFEBVRE, Romain. The Hong Sang-soo Method. 2018. Disponível em: https://www.sabzi