Ficha do Proponente
Proponente
- Paula Gadelha Ferreira Costa (UFF)
Minicurrículo
- Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal do Ceará, atuou como arte-educadora no Instituto Serviluz e desenvolveu pesquisa independente em pedagogia, filosofia e estética. Trabalhou como educadora no Museu da Cultura Cearense e na Casa Barão de Camocim. Também atuou em gestão cultural no Projeto Travessias Culturais. Atualmente é mestranda em Cinema na UFF.
Ficha do Trabalho
Título
- Mas, por que o cinema?
Eixo Temático
- ET 5 – ETAPAS DE CRIAÇÃO E PROCESSOS FORMATIVOS EM CINEMA E AUDIOVISUAL
Resumo
- Aqui se estende um ensaio acerca do deslocamento da pedagogia ao cinema e seus desdobramentos, numa tentativa de traçar rotas para pensar uma educação menos rígida e mais comprometida com a experiência. Para isso, importa presenciar um cinema que se expanda para além do âmbito técnico, em vias das desorganizações causadas pela experiência com cinema. Assim, nessa fronteira se deslocam as noções de educação e de cinema e se produzem novos agenciamentos com os elementos em questão.
Resumo expandido
- Me desloco da pedagogia para o cinema por um atrevimento e por um esgotamento. Ao sentir certa aridez no campo da educação, é preciso produzir algum deslocamento para, quem sabe, encontrar algum refúgio. Diante de uma pedagogia firmada na curricularização do pensamento, a experiência estética é desmembrada da educação. Assim, enquanto o cinema atuar diretamente no âmbito estético, desestabilizando uma organização primordial, nos forçando a criar novos estados de presença, ele será também campo fértil para se pensar uma educação que seja, acima de tudo, comprometida com novas formas de estar e perceber o mundo. Desse modo, trata-se de uma pesquisa que se pretende afirmativa da educação e da força política da experiência, ainda que, para isso, seja necessário traçar rotas de fuga.
Sair da educação não significa abandoná-la, mas sim desorganizar sua estrutura fundamental: a escola. Pois se ela se dobra ao currículo em vias de uma capitalização de corpos (Sibilia, 2012), é imprescindível criar uma educação que olhe para as entrelinhas, que vague pelas brechas, que se esquive da contenção dos afetos e se forje atenta à experiência, esta que pressupõe o encontro: uma colisão tão violenta, que quase como um rompante, provoca um movimento qualquer, um deslocamento. É assim que Deleuze(1988) se refere ao exercício do pensamento, afirmando-o como ato de criação que deriva do impacto desses encontros. E é esse ato de criação, que irrompe na realidade, que há de interessar à educação.
Assim, uma educação que se apresente conformada com a estabilidade das relações do saber está passível à desconfiança. Talvez o próprio movimento de caminhar em direção ao cinema tenha a ver com os tremores causados por essa inquietação. Por isso, a fuga: “fugir é traçar uma linha, linhas, toda uma cartografia. Só se descobre mundos através de uma longa fuga quebrada.” (Deleuze, Parnet, 1998, p. 30). É, então, nessa atitude fugidia que se desenrola um transitar distraído, até esbarrar com o cinema.
O cinema por sua vez, parece precisar da escola – foi o que ouvi recentemente – para se propor, não rigorosamente técnico, mas possivelmente experimental. Me deparo, então, com um movimento que corta a rota que eu mesma tracei e cria um plano comum, onde habita a pesquisa que pretendo esboçar. Nesse plano, o cinema empresta à educação um aparato técnico que serve para o manejo das percepções de mundo. O cinema então nos oferece uma ferramenta mínima para expandir o campo da experimentação e, assim, friccionar, sobrepor, costurar, separar, reunir, deslocar e desmontar os elementos que compõem o mundo em que nos inserimos.
É certo que a educação se preserva quase como um sotaque: às vezes impregna na fala, às vezes existe em ato de resistência. É ele que me impede de esquecer de onde vim, mas se retornar à minha terra, irão dizer “já está falando diferente”. Um sotaque irreconhecível é uma língua desterritorializada. Esta, segundo Gallo (2003), reposiciona os códigos da língua e produz agenciamentos através de discretas operações para que, finalmente, seja possível “fazer alguma coisa fugir, fazer um sistema vazar como se fura um cano” (Deleuze, Parnet, 1998, p. 30). Assim, a linha de fuga é iminente, é parte essencial do método de uma pesquisa que vaga entre o cinema e a educação.
Desse modo, “entre” é localidade e imperativo: ordena uma posição infiel à categorização em vias da produção de novos agenciamentos. Assim, Gonçalves (2014) evidencia que só habitando as fronteiras é possível distender seus limites. Portanto, na fronteira entre o cinema e a educação, os dois se colocam em questão, desfigurando simultaneamente o caráter técnico de um e o didatismo do outro. Portanto, quando Migliorin (2015) afirma que a experiência com cinema “porta o risco de trazer microdesestabilizações naquilo que entendemos como ‘nosso mundo’.” (p. 51) garante seu caráter político, pois incide sobre uma postura ativa de intervenção nesse mesmo mundo. Então, por que não o cinema?
Bibliografia
- DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. Rio de Janeiro: Editora Graal, 1988.
DELEUZE, Gilles; Parnet, Claire. Diálogos. São Paulo: Escuta, 1998.
GALLO, Sílvio. Deleuze & a Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.
GONÇALVES, Osmar. Introdução. In: GONÇALVES, Osmar (org). Narrativas sensoriais: Ensaios sobre cinema e arte contemporânea. Rio de Janeiro: Editora Circuito, 2014. p. 09- 25.
MIGLIORIN, Cezar. Inevitavelmente cinema: educação, política e mafuá. Rio de Janeiro:
Beco do Azougue, 2015.
SIBILIA, Paula. Redes ou paredes: a escola em tempos de dispersão. Rio de Janeiro : Contraponto, 2012.