Ficha do Proponente
Proponente
- Júlia Meireles de Lima (UNICAMP)
Minicurrículo
- Júlia Meireles de Lima é natural de Recife e doutoranda em Multimeios na UNICAMP, onde desenvolve uma pesquisa acerca do diretor francês Jean Eustache. É graduada em Cinema pela UFPE (2018) e mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP (2022).
Ficha do Trabalho
Título
- Cinema e autorretrato: “Numéro Zéro” (1971), de Jean Eustache
Eixo Temático
- ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL
Resumo
- Mobilizando as noções de retrato (Nancy, 2018), autorretrato (Bellour, 1997) e alterbiografia (Feldman, 2008), pretende-se, nesta comunicação, analisar o filme “Numéro Zéro” (1971), de Jean Eustache, de modo a acessar em seu interior uma segunda dimensão possível, refletida sobre a própria história do cinema francês. Ao retratar sua avó enquanto repensa formalmente o papel do cinema, Eustache perfila seu autorretrato e questiona o próprio gesto de filmar ou, ainda, o próprio gesto de retratar.
Resumo expandido
- Em 1971, antes mesmo de gravar seu filme mais conhecido, “A Mãe e a Puta” (1973), o cineasta francês Jean Eustache havia realizado um outro longa-metragem, que permaneceria inédito em sua íntegra para o público até 2002: “Numéro Zéro”. Como sugere o título, o filme foi pensado por Eustache (1971) como uma espécie de grau zero, de ponto de inflexão na sua carreira – até então de curtas e médias metragens – e contou apenas com uma única exibição privada para um grupo de pessoas próximas ao diretor, ainda em 1971. Nove anos depois, o diretor faria uma versão mais curta de “Numéro Zéro”, intitulada “Odette Robert” (1980), para uma série televisiva organizada por Jean Frapat: “Grand-mères”. O filme em sua íntegra, contudo, veio a público somente no começo dos anos 2000, descoberto por Thierry Lounas e Boris Eustache (filho do realizador), e restaurado em 35mm pela Cinemateca Portuguesa a pedido do diretor Pedro Costa (Sudoh, 2022).
Em “Numéro Zéro” Eustache filma por praticamente duas horas a sua avó materna, Odette Robert. À parte de uma rápida sequência inicial em que a vemos na rua, o filme se passa inteiramente na sala do apartamento em Paris onde moravam, além dela, também seu neto Eustache e seu respectivo filho, o bisneto Boris. Sentada à mesa, com um copo de uísque e cigarro em mãos, Odette conta a história de sua vida: infância, casamento, filhos, tragédias e intempéries. Na frente dela e de costas para a câmera vemos Eustache, que vez ou outra bate claquetes e intervém pedindo-lhe para contar algo específico.
Para que fosse possível captar, sem interrupções provenientes da troca de rolo, o evento na íntegra, o relato foi gravado integralmente com duas câmeras fixas e com uso de som direto. Uma vez que Eustache contava com uma quantidade limitada de película, é a própria matéria que baliza a duração desse retrato. A ideia, admitida pelo próprio Eustache em entrevista, era realizar uma espécie de ‘filme protótipo’; um filme que retomasse a simplicidade do primeiro cinema, como uma forma de retorno aos Lumière (Eustache, 1971). Levando em consideração essa situação limiar engendrada por Eustache – espécie de entrelugar entre entrevista, filme de família e retrato — a presente comunicação formula, enfim, algumas leituras e aproximações possíveis em relação ao filme.
Ao filmar em sua própria casa, Eustache nos remete imediatamente a o ambiente familiar, privado e íntimo de sua avó. Ele escolhe precisamente o espaço doméstico, em que histórias como aquela já foram contadas mais de uma vez, para retratá-la e pedir-lhe que repita a sua história frente a uma câmera. Nesse sentido, podemos encontrar em “Numéro Zéro” o que Mariana Baltar (2012) chamaria de “pacto de intimidade”, diante da dimensão confessional do relato e uma vez que Eustache, além de interlocutor da personagem filmada, é também seu neto. Contudo, há outro aspecto que nos chama particular atenção: a dimensão do retrato e do autorretrato no filme. “Numéro Zéro” é um retrato de Odette: vemos sua imagem, ouvimos sua voz, adentramos a sua narrativa. Contudo, ao contar sua história, ela conta também a história do próprio Eustache — que, ao se interpor entre a objetiva e sua avó, se coloca fisicamente como parte desse retrato. Com esse gesto, o realizador parece levar a cabo o que lembra Jean-Luc Nancy (2018) a respeito de todo retrato ser também um autorretrato. Pois Eustache, enquanto ouve a sua avó, enquanto a grava e a materializa em película, materializa-se a si mesmo, construindo a partir dela o que Ilana Feldman (2008) nomeou alterbiografia. Conectando o retrato de sua avó – nascida pouco tempo depois da primeira exibição dos irmãos Lumière – ao próprio questionamento formal do cinema, acreditamos que Eustache empreende, junto à reflexão sobre a realização de um filme, uma reflexão mais particular sobre o próprio ato de retratar – e de se auto retratar; propondo um grau zero não só de sua carreira, mas do próprio cinema francês enquanto tal.
Bibliografia
- ARFUCH, Leonor. O Espaço Biográfico: Dilemas da Subjetividade Contemporânea. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2010.
AUMONT, J. Du visage au cinéma. Paris: Cahiers du Cinéma, 1992.
BALTAR, M. Pacto de intimidade–ou possibilidades de diálogo entre o documentário de Eduardo Coutinho e a imaginação melodramática. XIV Encontro Anual da Compós, Niterói, RJ, 2005.
BELLOUR, R. Entre-imagens. Campinas: Papirus, 1997.
COMOLLI, J-L. Ver e poder: a inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Ed. UFMG, 2008.
EUSTACHE, J. Entretien avec Jean Eustache. La Revue du Cinéma, n.250, mai. 1971.
FELDMAN, I. Na contramão do confessional: o ensaísmo em Santiago, de João Moreira Salles, e Jogo de cena, de Eduardo Coutinho. DEVIRES-Cinema e Humanidades, v. 5, n. 2, p. 56-73, 2008.
NANCY, J-L. Portrait. Fordham Univ Press, 2018.
OLIVEIRA JR., L. Retratos em movimento, ARS, [S.L.], v. 15, n. 31, p. 183-208, 2017.
SUDOH, K. Jean Eustache: génétique et fabrique. Paris: Classiques Garnier, 2022.