Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    João Eduardo Peçanha de Freitas (PUC RIO)

Minicurrículo

    João Eduardo Peçanha de Freitas é pesquisador, curador e roteirista. Doutorando em Comunicação na PUC-Rio, pesquisa arquivo, memória e fabulação em torno do HIV/aids no cinema e nas artes visuais. Mestre em Liberal Studies pela The New School (EUA), co-curou a exposição Diálogos Contínuos: Temporalidades do HIV/AIDS (MACRS, 2025) e desenvolve projetos audiovisuais e curatoriais voltados a memória queer, contrarquivos e políticas da imagem.

Ficha do Trabalho

Título

    A lacuna do arquivo como motor narrativo: HIV/aids, memória e fabulação no cinema brasileiro

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    O trabalho analisa três filmes brasileiros – A Paixão de JL, Inconfissões e Os Primeiros Soldados – para pensar como a ausência de registros sobre a epidemia de HIV/aids pode funcionar como princípio formal e não como limite representacional. A partir de Jacques Derrida, Saidiya Hartman e Ariella Azoulay, propõe três modos de ativação da lacuna arquivística – escuta do vestígio, montagem de rastros e fabulação do não registrado – como práticas cinematográficas de memória e contra-narrativa.

Resumo expandido

    Há algo perturbador na memória audiovisual da epidemia de HIV/aids no Brasil: ela é cheia de buracos. Registros perdidos, silêncios institucionais, histórias que simplesmente não foram filmadas – tudo isso deixou marcas profundas numa memória que já nasce incompleta. Parte disso se explica pela negligência do Estado; parte, pela marginalização das populações mais devastadas pela doença. Mas o que fazer com essa falta? Como o cinema pode narrar aquilo que não foi registrado, aquilo que foi apagado antes mesmo de ganhar forma?
    Este trabalho parte de uma aposta: a lacuna do arquivo não é apenas um obstáculo. Ela pode ser um ponto de partida – uma força que orienta escolhas formais, que provoca o cinema a inventar novos modos de contar.
    Para pensar isso, proponho uma leitura de três filmes brasileiros que enfrentam – cada um à sua maneira – o problema da ausência documental: A Paixão de JL, Inconfissões e Os Primeiros Soldados. São obras muito diferentes entre si – um documentário de inflexão autobiográfica, um ensaio de reapropriação de arquivo familiar, uma ficção histórica – mas todas três compartilham a mesma questão de fundo: como produzir memória quando o arquivo é lacunar, disperso ou inexistente?
    Em A Paixão de JL, o fio condutor são as fitas cassete gravadas pelo artista Leonilson nos últimos anos de vida. O filme as articula a imagens televisivas de época, fotografias e obras, construindo uma narrativa que não pretende reconstituir uma biografia inteira. O que interessa é outro gesto: transformar a voz gravada numa forma de presença. A lacuna aparece no intervalo entre essa voz e o corpo ausente – entre o que o arquivo guardou e o que nenhum arquivo poderia guardar. A montagem não tenta fechar esse hiato – ela o habita, trabalhando com fragmentos como matéria de escuta, de afeto, de elaboração. O arquivo deixa de ser prova e passa a ser fantasma.
    Em Inconfissões, Ana Galizia parte de fotografias, vídeos, cartas e outros vestígios deixados pelo tio Luiz Roberto Galizia. Mas o filme não usa esses materiais para provar nada – para confirmar uma vida, estabelecer uma cronologia, oferecer uma versão definitiva. Pelo contrário: o arquivo doméstico é deslocado de sua função probatória para uma dimensão quase fabulatória. Os documentos abrem perguntas em vez de fechá-las; revelam não apenas o que existiu, mas o que ficou sem ser dito. A lacuna, aqui, não é falha do material encontrado – ela é constitutiva do próprio ato de lembrar. É exatamente do que falta que o filme extrai sua forma.
    Já em Os Primeiros Soldados, o problema é outro: a escassez de registros sobre os primeiros anos da epidemia em contextos periféricos à narrativa histórica dominante. A ficção surge não como alternativa ao arquivo, mas como resposta àquilo que ele deixou de fora. Inventar personagens, situações, sociabilidades que não foram documentadas não é falsificar o passado – é tornar sensível uma experiência que o registro institucional simplesmente não quis, ou não soube, reter. A fabulação funciona, aqui, como prática memorial.
    A partir dessas três obras, proponho identificar três modos de ativar a lacuna arquivística: a escuta do vestígio, a montagem de rastros e a fabulação do não registrado. São regimes narrativos distintos pelos quais o cinema pode elaborar a memória de uma epidemia que ainda carrega – em sua imagem – a marca do apagamento. O que une os filmes não é só o tema – é a convicção de que a ausência documental pode ser produtiva como princípio formal. A lacuna não interrompe a narrativa. Ela a engendra.
    O trabalho dialoga com debates em torno de arquivo, memória e fabulação – a partir de Jacques Derrida, Saidiya Hartman e Ariella Azoulay – para argumentar que esses filmes constituem práticas contra-arquivísticas: não apenas preservam memórias ameaçadas de apagamento, mas inventam formas de se relacionar com o passado a partir de suas próprias faltas. Importa menos opor documento e ficção do que perceber como – diante de histórias marcadas p

Bibliografia

    DERRIDA, Jacques. Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Tradução de Claudia de Moraes Rego. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.
    Marshall, Daniel, and Zeb Tortorici. Turning Archival the Life of the Historical in Queer Studies. Duke University Press, 2022.
    FOSTER, Hal. An Archival Impulse. October, v. 110, p. 3–22, 2004.
    Juhasz, Alexandra, and Theodore Kerr. We Are Having This Conversation Now: The Times of AIDS Cultural Production. Duke University Press, 2022.
    CRIMP, Douglas. Melancholia and Moralism: Essays on AIDS and Queer Politics. Cambridge: MIT Press, 2002.
    CVETKOVICH, Ann. An Archive of Feelings: Trauma, Sexuality, and Lesbian Public Cultures. Durham: Duke University Press, 2003
    Padva, Gilad. Queer Nostalgia In Cinema and Pop Culture. Pelgrave Macmillan, 2014.
    HARTMAN, Saidiya. Venus in Two Acts. Small Axe, v. 12, n. 2, p. 1-14, jun. 2008.
    INCONFISSÕES. Ana Galizia. Brasil, 2017.
    A PAIXÃO DE JL. Caros Nader. Brasil, 2015.
    OS PRIMEIROS SOLDADOS. Rodrigo Oliveira, 2021