Ficha do Proponente
Proponente
- Lucas Fontanella Ferraz (UAM)
Minicurrículo
- Doutorando e Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi (SP), com bolsa CAPES/PROSUP. Graduado em Produção Audiovisual pela Universidade Metodista de São Paulo (2022). Atua na linha de pesquisa Análises de Produtos Audiovisuais, com interesse voltado às narrativas audiovisuais contemporâneas de horror.
Ficha do Trabalho
Título
- A TV COMO FRONTEIRA: Estética VHS e Identidade em Eu Vi O Brilho Da TV
Resumo
- Este trabalho analisa o filme de horror contemporâneo Eu Vi o Brilho da TV (2024), examinando como a estética VHS, a estática e o neon estruturam a narrativa da disforia e da repressão identitária e do insólito. A partir dos conceitos de “imagem ruim”, “geologia da mídia” e glitch, argumenta-se que a televisão opera como fronteira ontológica. Conclui-se que a obra subverte a alta definição ao posicionar o ruído como espaço de emergência da verdade.
Resumo expandido
- Este artigo analisa o filme Eu Vi o Brilho da TV (I Saw the TV Glow, 2024), dirigido por Jane Schoenbrun, a partir da hipótese de que a materialidade da imagem estrutura a experiência de disforia e repressão vivida pelos protagonistas. A narrativa acompanha Owen, cuja vida no subúrbio é transformada pelo contato com a série The Pink Opaque, um programa que mimetiza as séries procedurais da televisão americana dos anos 90.
O que se propõe aqui é que o uso de fitas VHS, tubos de imagem (CRT) e iluminação neon ultrapassa o mero pastiche nostálgico para constituir a própria substância de uma narrativa ligada à transição de gênero. Dessa forma, a obra é aqui examinada enquanto um exemplar do horror contemporâneo que utiliza o insólito para mediar traumas identitários.
Diferente de produções contemporâneas marcadas pela “retromania”, que recorrem a estética oitentista sob a clareza da alta definição digital para oferecer um “refúgio estético” confortável (REYNOLDS, 2011), a obra de Schoenbrun subverte essa lógica. Ao rejeitar a limpeza do HD em favor de uma estética deliberadamente degradada, a obra mobiliza tecnologias obsoletas como vetores de conexão afetiva e ontológica. Nesse contexto, recorre-se ao conceito de “imagem ruim” (STEYERL, 2015) para demonstrar como a baixa resolução do VHS produz um contraste com a nitidez opressiva do subúrbio, atribuindo à “sujeira” analógica uma aura de autenticidade marginal e possibilitando a emergência de uma “socialidade t4t” (MARVIN; BESS, 2025).
A análise dialoga ainda com a noção de “geologia da mídia”, de Jussi Parikka (2015), ao tratar a fita VHS como um “fóssil geológico” que ancora a memória de Owen em uma realidade física contra o apagamento normativo. O filme estabelece uma fronteira estética: o mundo “real” é apresentado com iluminação naturalista e estabilidade digital, enquanto o universo ficcional é mediado por falhas de rastreamento e baixa fidelidade. Contudo, essa fronteira colapsa à medida que a disforia de Owen se intensifica, e a granulação analógica passa a “sujar” a realidade objetiva, revelando a artificialidade da vida suburbana.
Complementarmente, discute-se o corpo do protagonista como um campo de batalha analisado através da estética do glitch (MENKMAN, 2011), entendido como uma interrupção poderosa que desloca o objeto de seu fluxo comum. No clímax da obra, ao abrir o próprio peito, Owen não encontra órgãos viscerais, mas a estática brilhante da televisão. Este momento de “corporeidade metamórfica” revela que sua substância não é a carne humana normativa, mas a matéria midiática da ficção, validando visualmente sua disforia.
Por fim, a iluminação neon é abordada como uma atmosfera “Neon-Gótica” (CORRADINO, 2025) que sinaliza a irrupção da verdade identitária em um mundo marcado pela opacidade afetiva. A tragédia final de Owen reside na sua incapacidade de sustentar essa luz, culminando na tentativa de revisitar a série via streaming. Sem a textura e o “corpo” físico do VHS, a imagem limpa do digital reflete a própria autonegação do personagem, convertendo aquilo que antes operava como verdade em um produto higienizado e domesticado. O filme, assim, sugere que, em um regime de visibilidade marcado pela clareza excessiva, o ruído constitui um dos últimos refúgios possíveis para identidades dissidentes.
Bibliografia
- CORRADINO, Anna Chiara. The Neon-Gothic: Some Theoretical Considerations. Between, [S.l.], v. 15, n. 29, p. 41-63, maio 2025. Disponível em: https://doi.org/10.13125/2039-6597/6398.
MARVIN, Amy; BESS, Isobel. Atmospheres of Conversion: Trans Cinema, Tactics, and t4t Sociality. philoSOPHIA: A Journal of Transcontinental Feminism, [preprint], 2025.
MENKMAN, Rosa. The Glitch Moment(um). Amsterdam: Institute of Network Cultures, 2011. (Network Notebooks, n. 04). ISBN 978-90-816021-6-7.
PARIKKA, Jussi. A Geology of Media. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2015. (Electronic Mediations, v. 46). ISBN 978-0-8166-9551-5.
REYNOLDS, Simon. Retromania: Pop Culture’s Addiction to Its Own Past. London: Faber & Faber, 2011.
STEYERL, Hito. Em defesa da imagem ruim. Tradução de Alexandre Barbosa de Souza. Revista Serrote, Rio de Janeiro, n. 19, p. 185-199, mar. 2015.