Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Alexandre Ramos Vasques (UFF)

Minicurrículo

    Doutorando vinculado ao Programa de Pós Graduação em Cinema (PPGCine) da Universidade Federal Fluminense. Possui mestrado em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos. Autor do livro ”Nos rastros de Limite: Um estudo de caso na história da preservação das imagens em movimento no Brasil”, publicado em janeiro de 2024.

Ficha do Trabalho

Título

    MST e Jorge Sanjinés – Reflexões e práticas audiovisuais revolucionárias latinoamericanas

Eixo Temático

    ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS

Resumo

    Desde 2007 produzindo audiovisual, o MST não abriu mão de publicar os debates internos sobre a prática, relatando suas intenções e suas influências. Este exercício abarca as cinematografias mais distantes, no tempo e no espaço, permitindo a aproximação com a obra de Jorge Sanjinés, sobretudo àquela vinculada ao grupo Ukamau. Propor o diálogo entre o MST e a obra de Sanjinés pode esboçar o desenho de uma diversidade sul-americana distante e potente para a representação audiovisual camponesa.

Resumo expandido

    A produção audiovisual do MST inicia-se com a criação da Brigada de Audiovisual da Via Campesina, em 2007, durante o V Congresso Nacional do MST. A partir de 2014, o coletivo rebatizado de Brigada de Audiovisual Eduardo Coutinho (BAEC), segue produzindo os vídeos da militância camponesa.
    Ainda seguindo a trajetória de Cabra marcado para morrer [Eduardo Coutinho,1984], Classe roceira [Berenice Mendes, 1985] e Terra para Rose [Tetê Moraes, 1987], todas cineastas consideradas parceiras pela militância do MST, o movimento, num primeiro momento, produz um audiovisual voltado para a denúncia das injustiças sociais e da violência no campo, como nos vídeos Nem um Minuto de Silêncio – Fora Syngenta do Brasil (2008), que denunciava o assassinato de Valmir Mota, o Keno, durante uma ocupação à Syngenta Seeds; Tucuruí – A Saga de um Povo (2010); e O Canto de Acauã (2011), os dois últimos produzidos em parceria com o Setor de Comunicação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).
    Além da produção audiovisual, a militância do MST também se dedica ao debate, à documentação, à reflexão e à teorização sobre essa prática, tornando público o seu comprometimento com o letramento audiovisual do campesinato organizado.
    Em 2009, dentro dessa perspectiva pedagógica, é publicado pelo Pontão de Cultura Rede Cultural da Terra o Caderno das artes: Estudos sobre audiovisual e a construção da realidade. A despeito da relevância da republicação de textos assinados por Glauber Rocha, Julio García Espinosa e Tomás Gutiérrez Alea, todos vinculados a uma ideia de cinema militante na América Latina, chama a atenção a reprodução de um depoimento do cineasta boliviano Jorge Sanjinés à rede venezuelana ViVe TV, no qual ele abertamente coloca as bases de seu cinema revolucionário, pautado pelo necessidade urgente de retratar a realidade do camponês andino nos anos 1960 e 1970.
    Um trecho desse depoimento em especial possui uma carga de autocrítica desenvolvida por Sanjinés. Depois de filmado Sangue de Condor (1969), segunda produção do coletivo Ukamau, o cineasta reconhece que o grupo precisou revisar sua narrativa cinematográfica, com a necessidade de mudar sua linguagem, ainda carregada de uma forte influência da narrativa norte americana.
    Nascido em 1936 em La Paz, Sanjinés iniciou sua trajetória cinematográfica em 1962. Dois anos mais tarde, ele cria as bases que fundamentariam o grupo Ukamau, nome que batiza o primeiro longa-metragem do grupo, em 1966. Ukamau é reconhecidamente o coletivo cinematográfico mais influente da Bolívia. O grupo estabeleceu-se como produtor de um cinema militante voltado para a identidade andina e camponesa. Além da produção, o grupo comprometia-se também com a educação audiovisual e a difusão de uma filmografia militante anti-imperialista.
    Assim como observamos nos primeiros anos da prática audiovisual sem-terra, a representação da violência contra o povo camponês, guardada as especificidades de contexto, também pode ser claramente observada na obra de Sanjinés dentro da experiência do Ukamau, e aqui destacamos os filmes Ukamau (1966), Sangue do condor e El coraje del Pueblo (1971).
    Outro ponto de análise é a práxis do grupo boliviano que, de certa maneira, dialoga com aquela implementada pelo MST, representado hoje pelo seu Setor de Comunicação e organizado através da Brigada de Audiovisual Eduardo Coutinho (BAEC). Além da produção audiovisual, ambos os grupos se comprometem com a educação audiovisual e a difusão de uma filmografia militante contra hegemônica. Portanto, é a partir também da produção teórica que encontramos ressonância da experiência boliviana no fazer audiovisual camponês brasileiro neste século.
    Esta proposta de comunicação pretende promover um diálogo entre a experiência teórica e prática do grupo Ukamau, co-fundado pelo diretor boliviano Jorge Sanjinés, e a reflexão e a produção audiovisual realizada pelo MST, a partir de 2007, com a Brigada da Via Campesina, até os dias atuais com a BAEC.

Bibliografia

    CHIAVON, Luara Dal. , SILVA, Maria & SOUZA, Cadu. (Org.). “Ocupar a terra e as telas: Reflexões sobre audiovisual no MST”. Brigada de Audiovisual Eduardo Coutinho (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), 2022.
    “Caderno das artes: Estudos sobre audiovisual e a construção da realidade”. Pontão de Cultura Rede Cultural da Terra (org.). 1ª edição. São Paulo, 2009.
    JESUS, Abimael de Oliveira de. “Brigada de audiovisual Eduardo Coutinho (BAEC/MST): sobre o fazer estético e a utopia agroecológica no território”. / Abimael de Oliveira de Jesus. – São Paulo, 2024.
    LANDAETA, Óscar Gracia & TAPIA, Andrés Laguna. “Medio siglo de Jorge Sanjinés: Una revisión al cine y a la sociedade boliviana a partir de los largometrajes del autor”. In:. Ciencia y cultura. Bolívia, n 36, 105-134, jun.2016.
    NÚÑEZ, Fabián. “Teoria e prática de um cinema junto ao povo de Jorge Sanjinés e Grupo Ukamau”. In:. Significação. São Paulo, v. 47, n. 53, p. 323-329, jan-jun. 2020.