Ficha do Proponente
Proponente
- Jailson Ramos de Oliveira Junior (USP)
Minicurrículo
- Jailson Ramos tem graduação em Cinema e Audiovisual pela Universidade Anhembi Morumbi (2017), é mestre em Multimeios pela Universidade Estadual de Campinas (2024), faz graduação (bacharelado e licenciatura) em Filosofia na FFLCH/USP e também Doutorado em Filosofia Contemporânea na mesma instituição. Tem experiência na área de Artes e Filosofia, com ênfase em Cinema, atuando principalmente nos seguintes temas: estética, cinema brasileiro, tradição crítica brasileira e ocupação cultural.
Ficha do Trabalho
Título
- A centralidade negativa do trabalho em Arábia
Resumo
- O objetivo de nossa comunicação será discutir como o longa-metragem ficcional Arábia (Affonso Uchôa e João Dumans, 2018) dá forma à experiência do trabalho enquanto elemento negativo, de desagregação social. Nossa proposta, é analisar como a montagem opera de modo estrutural a fim de intensificar a derrocada do trabalhador. Esse ponto em particular fez parte de um capítulo de nossa dissertação de mestrado (2024). Trata-se, portanto, de apresentar aos pares alguns resultados de nossa pesquisa.
Resumo expandido
- O objetivo de nossa comunicação será discutir como o longa-metragem ficcional Arábia (Affonso Uchôa e João Dumans, 2018) dá forma à experiência do trabalho enquanto elemento negativo, de desagregação social. Em dois artigos, Edson Costa Jr. (2022; 2021) verificou como o desenrolar da trama evidencia um processo de esgotamento do corpo do trabalhador e também como a fotografia expressa esse definhamento pelo uso do escuro enquanto ferramenta dramática de intensificação de traumas. Nossa proposta, no entanto, é analisar como a montagem opera de modo estrutural a fim de intensificar a derrocada do trabalhador. Esse ponto em particular fez parte de um capítulo de nossa dissertação de mestrado (2024). Trata-se, portanto, de apresentar aos pares alguns resultados de nossa pesquisa.
Contudo, espera-se enriquecer nossa análise a partir da comparação com um outro filme: Não espere muito do fim do mundo (Radu Jude, 2023). A relação entre os longas-metragens foi proposta na última sessão da mostra Trabalho em transe, organizada pela Cinemateca Brasileira entre os dias 1 e 5 de abril de 2026. Sobre o filme romeno, o filósofo brasileiro Paulo Arantes (2026) afirmou que “o fim do mundo já ocorreu; acontece, porém, que ainda temos que acordar cedo e trabalhar até a exaustão” – tal parece ser o também caso de Arábia. Nesse sentido, o “fim do mundo” de que se fala é o esgotamento da sociedade do trabalho enquanto meio de emancipação humana, remetendo à ideia de colapso da modernização (KURZ, 1992), por exemplo.
Arábia mostra esse fim por meio de uma série de episódios em que Cristiano, o protagonista, realiza trabalhos distintos: plantação de mexerica, construção civil, serviços informais, indústria têxtil e metalurgia – todos, porém, resultando em seu colapso ao final. O que nos interessa ressaltar é que a montagem opera de modo cíclico, mantendo sempre a mesma forma. Cristiano chega a um novo lugar, começa a trabalhar, algo acontece e ele precisa ir embora e recomeçar o plano de viver dignamente por meio do trabalho. Essa forma remete a uma estrutura marcada pela impossibilidade de completude, uma sucessão de esperanças e fracassos que não permitem o pleno desenvolvimento das finalidades iniciais. Essa repetição, todavia, se intensifica até o ápice, quando, então, o trabalhador colapsa.
Assim, Arábia parece formalizar esteticamente a experiência descrita por Roberto Schwarz em Fim do século (1999), ensaio em que o crítico detectou o esgotamento dos ideais desenvolvimentistas, tão marcantes da tradição moderna brasileira. Schwarz fala de sociedades que fracassaram sucessivamente em realizar seus planos de desenvolvimento e, por isso, viviam agora um cenário pós-catastrófico, quando o que está em pauta não é exatamente o abandono das ilusões de formação nacional, mas sim o acompanhamento de sua desintegração. A montagem de Arábia dá forma justamente a esse processo de tomada de consciência e crítica às ilusões da sociedade do trabalho, dos ideais de desenvolvimento segundo os marcos da modernidade capitalista.
Bibliografia
- ARANTES, Paulo. Não espere muito do fim do mundo. In: MOSTRA TRABALHO EM TRANSE. Abril/2026. São Paulo. Palestra na Cinemateca Brasileira.
COSTA JR., Edson. “Memories from the darkness in the films of Pedro Costa and Affonso Uchôa” Comparative Cinema, Vol. IX, nº 17, 2021, p. 38-56.
__________. “Trabalhadores precarizados e a estética do cansaço no recente cinema de ficção brasileiro.” Compós. Imperatriz – MA, nº 31, jun/2022.
KURZ, Robert. O colapso da modernização: da derrocada do socialismo de caserna à crise da economia mundial. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
SCHWARZ, Roberto. Fim de século. In: SCHWARZ, Roberto. Sequências brasileiras. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.