Ficha do Proponente
Proponente
- Liana Lobo Baptista (UFMG)
Minicurrículo
- Doutoranda em Cinema e Audiovisual na UFF, mesma instituição onde anteriormente havia se graduado na Licenciatura. Mestre em Educação e Docência pela UFMG. Professora efetiva de cinema no Centro Pedagógico da UFMG, primeiro colégio de aplicação a incluir o audiovisual em seu currículo de Arte. Interessa-se por experiências de educação audiovisual nas infâncias, no ensino fundamental e em formação de professores. Publicou o livro ”Montaulas: cenas de educação audiovisual com crianças”.
Ficha do Trabalho
Título
- Por um cinema artesanal: como fazer cinema pode cuidar da experiência na escola?
Resumo
- Esse trabalho parte da observação e descrição dos processos de estudantes da educação básica que agem com o cinema em aulas de arte da escola de educação básica da UFMG. A aposta é que o cinema é um modo de narrar e partilhar experiências, e que uma junção de modos de fazer cinema pode cuidar das experiências desses estudantes. Propomos um cinema artesanal, que cuide dos processos, da produção local e em grupo, da demora, do risco e da disponibilidade à experiência.
Resumo expandido
- Estudantes encenam a memória de um medo que não se materializou: o massacre na escola em 20 de abril de 2023. A câmera enquadra, em primeiro plano, a lateral da cabeça de um estudante em sala de aula. Fora de quadro, uma colega bate em um armário. O som parece um tiro. O estudante em cena reage ao som e levanta a cabeça assustado. Ao fundo do quadro, um corpo cai pela porta. Com a criação do filme emerge a memória (que persistiu) de possível violência.
Essa cena aconteceu em uma aula de cinema no Centro Pedagógico (CP), escola de educação básica da UFMG. Aqui, interessam-nos os processos desses estudantes que agem com o cinema: Quais experiências vivem com a criação de cenas, imagens e sons? Quais sentidos elaboram no processo de fazer cinema?
Há uma relação íntima entre experiência e sentido. Para Larrosa, a experiência é o que nos acontece, e o saber da experiência tem a ver com a elaboração do sentido ou do não-sentido do que nos acontece. Benjamin e Han pontuam que, cada vez mais, uma série de dispositivos tem impossibilitado a experiência e a partilha dela. Os autores falam de uma substituição da arte de narrar pela transmissão da informação. Ao contrário do acúmulo de dados, a vinculação das experiências na narração é portadora de sentido, e ancora comunidades.
Diante do empobrecimento da partilha de experiências, como fazer cinema pode cuidar da experiência?
Apostamos no cinema como outro modo de narrar e partilhar. Ao fazer filmes, as cenas que os estudantes do CP criam num devir-cineasta não representa o que já acreditavam previamente. É na intra-ação humano-cinema que se produzem (novos) sentidos. Por exemplo, na criação de um curta-metragem um grupo de estudantes encenaram as dificuldades do próprio cotidiano (acordar cedo, ver notícias de aquecimento global e de guerra, não ter amigos), e inventaram uma caixa de pandora reversa, que refaz o mundo. Sentadas no brinquedo gira-gira, amigas conversam sobre um mundo sem guerras, sem aquecimento global, sem inflação. Benjamim diz que a narrativa mergulha a coisa na vida do narrador, deixando vestígios da própria experiência do narrador (ou das experiências relatadas por outros) nas coisas narradas. Aqui, vestígios das experiências dessas estudantes de 12 anos.
É importante diferenciar experiência de prática. Pensamos a experiência não a partir da ação, e sim a partir do princípio da paixão. Portanto, para que fazer cinema cuide da experiência, é necessário um fazer cinema passional. Fazer cinema não para resolver algo, mas para se ter experiência.
Propositalmente, “as empresas detentoras das formas de produção digital estão cada vez mais voltadas para nos vender velocidade – de consumo de informação, de transação, de relacionamento” (Falci, 2025, p. 216). A mensagem é: não podemos nos demorar. Nesses ambientes, não há tempo para questionar as relações que recebemos já estabelecidas, já prontas, já acabadas.
Se no digital recebemos as relações acabadas, aqui, nesse cinema na escola, os processos abrem um futuro a cada novo vínculo tecido, produzindo o que é possível e o que é impossível. Apesar do cinema, historicamente, ter se estabelecido a partir da forma da linha de produção industrial (na qual projetos controlados por poucos se transformam em produtos acabados), esse cinema produz novas imagens: corpos que partilham a criação em processos inacabados.
Propomos uma junção de certos modos de ter ideias em cinema: um modo demorado, arriscado, de produção local e em grupo, de processos abertos, e de disponibilidade à experiência. Vamos nomear esse modo de cinema artesanal, em oposição à um modo de produção de conteúdo digital (da velocidade, do conforto, da produção padronizada e individual, do produto acabado, e da esquiva à experiência). Aqui a artesania, em seus processos comunitários e prolongados, confere sentido à experiência concreta.
Bibliografia
- BELLACASA, M. et al. O pensamento disruptivo do cuidado. In: Anuário antropológico (Brasília), v. 48, n. 1, jan-abri 2023, p. 108-133.
BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política. 3ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.
FALCI, C. A memória como tecnologia da demora. Em: 20a CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto. 1a ed. Belo Horizonte: Universo Produção, 2025, p. 216-219.
HAN, B. A crise da narração. Petrópolis, RJ: Vozes, 2023.
LARROSA, J. Tremores: escritos sobre experiência. 1ª ed; 3a reimp. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.
MIGLIORIN, C. Cinema e Clínica: a criação em processos subjetivos e artísticos. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2022.
RESENDE, D. Cinema e educação: uma proposta de montagem (para uso de cineastas e educadores). Em: 10 anos da Licenciatura em Cinema e Audiovisual da UFF. Niterói: MC&G, 2023, p. 30-46.