Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Thalita Cruz Bastos (UAM)

Minicurrículo

    Thalita Cruz Bastos é professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi (PPGCOM-UAM) e doutora em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atua em cinema e audiovisual, com ênfase em corpo, desejo, performance e regimes de visibilidade. Coordena o grupo de pesquisa Afetos e Corporalidades no Audiovisual Contemporâneo, articulando estudos queer, estética e análise fílmica.

Ficha do Trabalho

Título

    Desejos noturnos: corpos, coreopolítica e dissenso em Ato Noturno

Seminário

    Tenda Cuir

Resumo

    O artigo analisa Ato Noturno (2025), de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, a partir da relação entre desejo homossexual, espaço público e práticas de dissenso. Com base nas noções de pós-privacidade, expansão do desejo, desorientação dos corpos e coreopolítica, argumenta-se que o filme reconfigura o espaço urbano ao tornar visíveis corpos homossexuais dissidentes, tensionando regimes normativos de intimidade, visibilidade e controle.

Resumo expandido

    Este trabalho analisa Ato Noturno (2025), dirigido por Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, argumentando que o filme dramatiza, por meio de uma narrativa de suspense erótico, a inscrição de corpos masculinos homossexuais no espaço público como um campo de disputa entre desejo, visibilidade e normatividade. Ao acompanhar a relação clandestina entre um jovem ator e um político, mediada por práticas sexuais em espaços públicos, o filme explicita tensões entre o culto da virilidade, a gestão da imagem pública e a precariedade de vidas dissidentes em contextos urbanos brasileiros contemporâneos.
    A análise parte da noção de “pós-privacidade”, conforme discutida por Alexandra Kolb, entendida como um regime cultural marcado pela erosão das fronteiras entre público e privado e pela crescente exposição da intimidade como prática social e estética. Nesse horizonte, o sexo — historicamente relegado à esfera doméstica — emerge como vetor de visibilidade e disputa política. Em Ato Noturno, a exteriorização do desejo não opera como mera exibição, mas como gesto que desloca a sexualidade homossexual da invisibilidade normativa para uma zona de risco e afirmação, na qual o íntimo se torna matéria pública e coreográfica.
    A partir de Guy Hocquenghem, tais encontros podem ser lidos como manifestações de uma “expansão do desejo” que desestabiliza a divisão hetero/homo e a ordem viril que regula corpos e prazeres. Essa expansão se dá espacialmente: os encontros migram do interior doméstico para ruas, carros e parques, instaurando uma progressiva intensificação da exposição e da vulnerabilidade.
    Mobilizando a fenomenologia queer de Sara Ahmed, essa dinâmica é compreendida como uma desorientação dos corpos no espaço urbano. Ao seguirem objetos de desejo não autorizados, os sujeitos desviam-se das linhas normativas, produzindo novas cartografias sensíveis da cidade. Esse desvio implica uma redistribuição do visível e do habitável, tensionando os regimes que definem quais corpos podem aparecer e sob quais condições.
    Nesse ponto, o artigo articula a noção de dissenso de Jacques Rancière, entendendo o sexo público como uma ruptura na “partilha do sensível” — isto é, uma intervenção que torna visível aquilo que era previamente excluído ou silenciado. O dissenso não é apenas conflito, mas reconfiguração das formas de percepção e inteligibilidade do comum. Em Ato Noturno, a visibilidade do desejo homossexual em espaços públicos produz esse tipo de fratura, desorganizando as fronteiras entre o aceitável e o inaceitável.
    A partir de André Lepecki e de desdobramentos recentes da coreopolítica, o filme é analisado como um campo de forças coreográficas no qual movimentos de aproximação, evasão, vigilância e risco constituem uma política do corpo em ação. Como sugerem estudos sobre coreopolítica e arquivos corporais, a dança e a performance podem funcionar como formas de reescrita sensível da história, ativando presenças dissidentes e memórias marginalizadas. Em Ato Noturno, o corpo homossexual opera como um arquivo vivo que inscreve no espaço urbano uma história não normativa do desejo.
    Por fim, argumenta-se que o filme constrói uma cartografia afetiva na qual o corpo masculino homossexual atua simultaneamente como método e estratégia audiovisual. Por meio de uma estética da presença, marcada por opacidade, vulnerabilidade e tensão erótica, Ato Noturno não apenas representa o dissenso, mas o performa, transformando o espaço urbano em um campo de experimentação sensível e política no qual o desejo reconfigura as condições de visibilidade e existência.

Bibliografia

    AHMED, Sara. Queer phenomenology: orientations, objects, others. Durham: Duke University Press, 2006.
    DUNDJEROVIC, Aleksandar; MARTINEZ SANCHEZ, Maria. Festival and the city: performativity of sexual acts in public spheres. Architecture and Culture, v. 6, n. 3, p. 457–471, 2018.
    HOCQUENGHEM, Guy. O desejo homossexual. Rio de Janeiro: A Bolha Editora, 2020 [1972].
    LEPECKI, André. Coreopolítica e coreopolícia. Revista Urdimento, Florianópolis, n. 19, p. 41–60, 2012.
    KOLB, Alexandra. Choreography in the age of post-privacy: sex, intimacy and disclosure in Pina Bausch and Michael Parmenter. Dance Chronicle, v. 43, n. 1, p. 32–62, 2020.
    MATZEMBACHER, Filipe; REOLON, Marcio. Ato Noturno. Brasil, 2025.
    MIELI, Mario. Por um comunismo transsexual. São Paulo: n-1 edições, 2021 [1977].
    MÜLLER, Alicja. Choreopolitics and haunted bodies. Didaskalia. Gazeta Teatralna, 2025.
    RANCIÈRE, Jacques. O dissenso. In: NOVAES, Adauto (org.). A crise da razão. São Paulo: Companhia das Letras. 1996. (p-367-382).