Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Amanda de Luna Cavalcanti (UFPE)

Minicurrículo

    Mestra no Programa de pós-graduação em comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). e especialista em escrita criativa por meio da Pós-graduação lato sensu pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) em conjunto com a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Pesquisa narrativas sonoras, processo criativos e escrita cinematográfica. Atua como produtora e produtora executiva com ênfase em coproduções internacionais.

Ficha do Trabalho

Título

    Afetos e “megalomanias” ressonantes: articulações do som no documentário Os arcos dourados de Olinda

Resumo

    Esta comunicação busca analisar a construção sonora do curta-metragem documental Os Arcos Dourados de Olinda (2025), dirigido pelo pernambucano Douglas Henrique. Propõe-se, através do conceito de ponto de escuta (CHION, 2008) compreender o som como componente articulador de afetos e memória no documentário de arquivo. A partir da análise de sons ambientes e da presença do narrador não-confiável reflete-se o papel sonoro na constituição da memória e do imaginário sobre o passado documentado.

Resumo expandido

    O curta-metragem documental Os arcos dourados de Olinda (Douglas Henrique, 2025), sugere, de modo irônico, o que seria um grande feito da população da cidade de Olinda ao resistir ao imperialismo estadunidense, tendo sido supostamente responsáveis pela falência de uma franquia da rede McDonald’s na cidade. Como uma afirmativa do que se concebe popular e localmente como “megalomania pernambucana”, que pode ser traduzida como o orgulho de serem os primeiros em eventos incomuns, o filme traz como principal provocação “o que fez Olinda ficar conhecida como a primeira cidade do mundo a falir um McDonald’s?”

    O documentário é estruturado por materiais de arquivo, sendo a sua construção sonora composta por elementos oriundos dos próprios arquivos, bem como pela voz do narrador e por sons ambientes que contextualizam a geografia e a conjuntura sociopolítica local. Ancorado em um evento real, o documentário utiliza-se da ironia para relatar acontecimentos ficcionais, estando primeiramente comprometido com os afetos e as relações entre a cidade e seus habitantes.

    Na medida em que apresenta como contexto histórico os ecos do fim da guerra fria, sendo a propagação de franquias da empresa norte-americana McDonald’s pelo mundo uma expressão do imperialismo estadunidense, o curta-metragem trata a cidade de Olinda como um contraponto político e ideológico, hiperbolizando feitos locais. O som nesse ponto apresenta-se primordialmente como vetor da sensibilidade do espectador, gerando uma comunicação além do visível pela paralelização e incongruência (GORNE, 2017) com a imagem, por meio de elementos sonoros que se associam à imagem de arquivo a serviço do discurso atrelado ao contexto identitário e local.

    Nesse sentido, a presença do narrador onisciente apresenta-se como destaque para esta pesquisa, pois a ele foi dado o papel principal na condução do espectador pelos eventos do passado. Com base nessa percepção, o presente trabalho busca compreender como a voz de autoridade do narrador (RUOFF, 1992) em conjunto com os sons ambientes, direciona o ponto de escuta não apenas no sentido físico a um ponto do passado, mas principalmente no posicionamento afetivo e emocional do espectador (CARREIRO, OPOLSKI, MEIRELLES, 2025).

    A motivação da questão proposta possui fundamento desde a escolha da voz do narrador, pertencente ao ator pernambucano Giordano Castro, passando pelo texto, até as técnicas e tecnologias utilizadas na captação e mixagem. Alternando entre a tonalidade formal e a comicidade, a presença do narrador contribui para compreender a estrutura narrativa do documentário que dialoga com a historicidade do arquivo, atravessada por um imaginário da comunidade que ressoa através das materialidades sonoras trabalhadas no filme.

    Em paralelo, o documentário também chama a atenção pelos seus sons ambientes, que acompanham de modo estruturante o tom mordaz adotado pela narrativa, reconstruindo eventos do passado como produtores de sentidos e afetos compartilhados. As representações dos burburinhos das grande filas do McDonald’s em contraste com a massa de vozes em um bloco de carnaval ou em uma campanha eleitoral para a prefeitura de Olinda no ano de 2000, cumprem o papel de localizar a ação dramática (CARREIRO, 2024). Mais ainda, também se articulam em conjunto com o narrador irônico, operando no campo discursivo ao expressar o conflito entre a presença estrangeira e a resistência local.

    Assim, partindo-se da compreensão da escuta como um construto histórico (STERNE, 2003,),sugere-se que o curta-metragem possa contribuir para reflexões acerca de que maneira as técnicas sonoras utilizadas para o posicionamento do ponto de escuta podem ressoar na política do imaginário e na constituição das relações de afeto entre pessoas e lugares.

Bibliografia

    ALTMAN, Rick (org.). Sound theory, sound practice. New York: Routledge, 1992.

    CARREIRO, Rodrigo, OPOLSKI, Débora, MEIRELLES, Rodrigo. A imersão sonora no cinema. 2ª ed. São José dos Pinhais: Estronho, 2025.

    CARREIRO, Rodrigo, OPOLSKI, Débora, SOUZA, João (orgs.). O som do filme: uma introdução. 2 ed. e rev. Curitiba: Editora UFPR, 2024.

    CHION, M. A audiovisão: som e imagem no cinema. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2008.

    GORNE, Thomas. The emotional impact of sound: a short theory of film sound design. In: KESSLING, P.; GÖRNE, T. (eds.). KLG 2017. EPiC Series in Technology, v. 1. [S.l.]: EasyChair, 2017. p. 17–30.

    HENRIQUE, Douglas (dir.). Os arcos dourados de Olinda. Brasil: Inferno Produções, 2025. 24 min.

    RUOFF, Jeffrey K. Conventions of sound in documentary. In: Rick Altman (org.). Sound theory, sound practice. New York: Routledge, 1992. p. 217–234.

    STERNE, Jonathan. The audible past: cultural origins of sound reproduction. Durham: Duke University Press, 2003.