Ficha do Proponente
Proponente
- Mariana de Lima Siqueira (UFF)
Minicurrículo
- Mestranda pelo PPGCine (UFF), onde mantém vínculo com o laboratório Kumã. Tem interesse nas relações entre criação de imagem e políticas comunitárias. Atua como oficineira nos projetos Cine Quilombola e Cinema de Griô do Instituto Marlin Azul (Vitória- ES). Participou da coletânea “Cinemas da terra”, com organização de André Brasil e Cláudia Mesquita pela Fafich/PPGCOM- UFMG, em 2024. É integrante da Associação Mulheres Coralinas, na Cidade de Goiás. Edita, escreve e fotografa.
Ficha do Trabalho
Título
- A imagem refratária: políticas da diferença em oficinas de cinema no quilombo da Pedra Branca/ES
Seminário
- Cinemas, Comunidades, Territórios: interpelações aos gestos analíticos
Resumo
- Roberto Carlos é morador do quilombo de Pedra Branca, no Espírito Santo, ele participou da primeira oficina que realizamos pelo projeto Cine Quilombola. Foi com ele que vivemos a cena que levantou as perguntas para esta apresentação: o que surge quando olhamos para uma mesma fotografia por minutos a fio, esperando que ela nos encare de volta? O que acontece quando o foco da relação é a diferença e não a identificação? O que se passa quando a imagem ao invés de refletir refrata o objeto filmado?
Resumo expandido
- Em 2022 realizamos a primeira oficina do projeto Cine Quilombola, em Pedra Branca, quilombo em Vargem Alta/ES. Propusemos a realização de filmes-carta, com o desejo de estabelecer correspondências entre os quilombos que iríamos percorrer. O primeiro exercício proposto foi que cada participante escrevesse uma carta a alguém de sua escolha e narrasse algum detalhe da vida na comunidade. Pedimos também que levassem fotos pessoais. Um dos participantes era um rapaz chamado Roberto Carlos. Roberto Carlos, o quilombola, endereçou sua carta a Roberto Carlos, o cantor, e levou uma foto 3×4 dele mesmo. Gravamos a leitura da carta e filmamos a foto narrada por ele. Daí surgiram questões importantes para pensar a metodologia de nosso trabalho.
No plano que fizemos da 3×4, a câmera rodou por 8 minutos seguidos. A primeira pergunta que fiz foi qual era sua idade na foto, ele calculava ter uns 35 anos. Ele me parecia bem mais novo. Na segunda metade do plano, Roberto se lembra que era uma criança quando a foto foi feita. Sinto como se nós, olhando a mesma imagem por alguns minutos, ensaiássemos um pequeno “bloco de movimento e duração” tal qual descrito por Gilles Deleuze (1987). A duração para Deleuze difere do entendimento do tempo como uma sucessão cronológica de instantes – 8 minutos entre início e fim do plano – e sugere que o cinema cria um agrupamento de diferentes qualidades de espaço e tempo, remontando o espaço e o tempo e, com isso, os modificando. Um bloco de movimento e duração é a forma como o cinema cria uma sensibilidade da imagem, tomando sensibilidade como a capacidade de transformar-se.
Quando nada parece acontecer, uma atenção ao mínimo pode ser ativada. A câmera estava no modo manual e o sol variou algumas vezes. A passagem do tempo fica escancarada quando não há corte. A partir dessa duração, Roberto percebe a passagem do tempo em seu próprio rosto. Tomemos emprestado a luz do sol para investigar isso que pode ser o cinema: um feixe luminoso. Um feixe luminoso é um conjunto de raios que se propagam juntos, que irradiam de uma fonte de luz. A reflexão de um feixe luminoso acontece quando uma onda de luz atinge uma superfície ou meio e retorna ao meio original. É o fenômeno que permite ver reflexos em espelhos. O que reflete não deixa entrar, ou, pior, devolve uma imagem semelhante. Em termos metodológicos, mirávamos justamente o contrário. O principal oposto da reflexão na óptica e ondulatória, é a refração. A refração acontece quando a onda de luz atravessa a fronteira entre dois meios diferentes, mudando sua velocidade e, geralmente, sua trajetória. Refração é, portanto, o desvio do caminho da luz quando ela encontra superfícies diferentes e se propõe a atravessar todas elas. Ao construir um método de experimentação com cinema que se dá entre nós e os moradores de uma comunidade quilombola, lembrar disso era fundamental. Nossa grande questão em uma oficina de cinema feita em um quilombo é a diferença. Sustentar o movimento entre diferentes, criar movimento na diferença.
Demoremos um pouco mais na ideia do feixe de luz, como forma de visualizar uma sensibilidade visível pelas imagens. Feixes luminosos são importantes na óptica geométrica para descrever como a luz se move e interage com objetos. Ao olhar para um lápis mergulhado em um copo d’água é a refração do feixe de luz que permite que enxerguemos a cena, o lápis submerso parece torto, quebrado. A diferença de densidade entre o ar e a água quebra, visualmente, o lápis, desvia sua trajetória. Sofrer a diferença é necessariamente um processo que altera as formas. Ao final de nossa conversa pergunto se Roberto quer cantar uma música, ele canta “Você deixou alguém a te esperar”, de Roberto Carlos. A espera cantada ao fim da conversa nos põe a pensar no tempo exigido por esse modo refratário e não reflexivo de fazer cinema. Para exercitar imagens que se aproximem de uma prática política, e construir uma comunidade interessada e criadora, é preciso calma e coragem.
Bibliografia
- CUNHA, Roberto Carlos. [Carta ao amigo]. Destinatário: Roberto Carlos. Rio de Janeiro, 29 de abril de 2022.
DELEUZE, Gilles. O que é o ato de criação? Conferência proferida na FEMIS, Paris, 17 mar. 1987. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=uX29ZnaZ7-s. Acesso em: 21 jan 2026.