Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    SOFIA COSTA GUIMARAES (PUC-Rio)

Minicurrículo

    Designer (UTFPR) e mestranda (PUC-Rio) em Comunicação, sob orientação da professora Patricia Machado. Faz parte do grupo de estudos Práticas do Contra-Arquivo e pesquisa sobre a vida e obra da diretora Maria Helena Saldanha, cineasta desconhecida inserida no período da ditadura militar. Atua há 10 anos no mercado pós-produção audiovisual como montadora e assistente de montagem.

Ficha do Trabalho

Título

    A casa da menina e o cinema de mulheres: uma restituição do filme de Maria Helena Saldanha

Eixo Temático

    ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS

Resumo

    Este trabalho propõe uma investigação sobre o curta-metragem A Menina e a Casa da Menina, de Maria Helena Saldanha, cineasta desconhecida da historiografia do cinema brasileiro. Tal documentário, lançado em 1979, no Ano Internacional da Criança, será o primeiro filme a ser digitalizado pelo projeto INCT em parceria com o LUPA-UFF. Partindo de periódicos da época e entrevistas com colaboradores, nosso objetivo é buscar a história dessas imagens, seu contexto histórico e sua distribuição.

Resumo expandido

    Maria Helena Saldanha, cineasta desconhecida da historiografia do cinema brasileiro, teve sua produção de três documentários fixada entre 1978 a 1982, se envolvendo, através de seus filmes, em debates sobre temas em ebulição à sua época, como o movimento pela anistia; a realidade de crianças e mulheres de baixa renda; e o direito à terra.
    Com o intuito de recuperar a sua biografia e trazer visibilidade à sua obra; trabalhando na intersecção entre história, cinema e gênero; a nossa metodologia consiste na busca da trajetória das imagens, seguindo os passos de Patricia Machado e Thais Blank, que expandiram o método de Sylvie Lindeperg. Investigamos sobre o contexto da tomada, as intenções daquela que filmou, as condições factuais que tornaram o filme possível, e seu circuito de exibição. Para tanto, além da pesquisa em periódicos e arquivos públicos, também realizamos entrevistas com pessoas que trabalharam nesses filmes.
    Encontramos pouca fortuna crítica de sua produção nos arquivos e jornais da época, o que nos leva a crer que seu processo de apagamento já estava em curso mesmo antes de sua morte precoce: ao que parece, um suicídio, nos anos 1980, na Europa, quando tinha pouco mais de 30 anos.
    Entretanto, localizamos cópias de seus filmes em estado precário de conservação nos acervos da Cinemateca Brasileira e do CTAv, e trabalhamos em parceria com o Lupa-UFF para recuperar e digitalizar o curta-metragem de 1979 escolhido para esse seminário: A Menina e a Casa da Menina.
    Tal documentário de 9 minutos, lançado na ocasião do Ano Internacional da Criança proclamado pela ONU, foi o que teve maior relevância e circulação entre seus filmes, conquistando prêmios no Festival de Brasília e no Festival Internacional de Nyon em 1980.
    O curta-metragem acompanha um dia na vida de Rosana Banzatto, que segundo a sinopse da base de dados da cinemateca, é “uma menina de 11 anos que vive numa favela de São Paulo cuidando de sete irmãos menores, lavando roupa, cozinhando e estudando enquanto os pais trabalham”. Através de uma linguagem de cinema-verdade, Maria Helena conjuga crítica social e poética ao retratar a infância roubada de Rosana. Suas poucas críticas encontradas em periódicos, são marcadas pelos debates amplamente discutidos no cinema brasileiro à época: a exposição da miséria do país como algo inoportuno.
    Reconhecidamente, a ditadura militar divulgava uma ideia de progresso e milagre econômico para o Brasil, portanto, conteúdos que documentavam a miséria seriam comprometedores ao governo e alvo de críticas. Contudo, além de expor a miséria de uma favela em Americanópolis, nesse filme, Maria Helena retrata uma experiência compartilhada entre tantas infâncias por ser uma questão estrutural da modernidade e da contemporaneidade, devido às longas jornadas de trabalho dos pais e a insuficiência de creches públicas.
    A cineasta também cede espaço para reflexões de gênero a partir de uma montagem dialética: em sua última sequência, o filme mostra dois meninos de mesma idade, livres, caminhando provavelmente em direção ou saindo da escola; um contraponto à experiência feminina que acabamos de assistir em que a responsabilidade familiar se impõe sobre à leveza da infância.
    Também é nossa intenção mapear e relacionar outros filmes produzidos nesse contexto do Ano Internacional da Criança: documentários como Creche-lar de Maria Luiza D’Aboim; É Menino ou Menina de Eliane Bandeira; Minha Vida, Nossa Luta, de Susana Amaral; e Plantar nas Estrelas, de Geraldo Sarno.
    Seja pela suposta desvalorização do trabalho feminino sob o patriarcado ou pelas eventuais censuras impostas pelo regime ditatorial aos seus filmes, a história e produção de Maria Helena foram quase apagadas. Além de evidenciar esse apagamento, é também nosso objetivo “retornar as imagens a quem de direito, “ao bem público” ou “emancipá-las” (DIDI-HUBERMAN, 2015, p.209) a partir de uma tarefa benjaminiana de “escovar a história a contrapelo” (BENJAMIN, 2012, p. 13).

Bibliografia

    BENJAMIN, Walter. O anjo da história. Belo Horizonte, MG: Autêntica Editora, 2012.
    BLANK, Thais.; MACHADO, P. Em busca de um método: entre a estética e a história de imagens domésticas do período da ditadura militar brasileira. Intercom: Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, São Paulo, v. 43, n. 2, 2020.
    DIDI-HUBERMAN, Georges. Devolver uma imagem. In: ALLOA, Emmanuel (org.). Pensar a Imagem. Tradução de Carla Rodrigues. Belo Horizonte: Autêntica, 2015. p. 205-226.
    GUERRA, Nayla. Entre apagamentos e resistências: curtas-metragens feitos por diretoras brasileiras (1966-1985). São Paulo: Alameda, 2023.
    LINDEPERG, Sylvie. O caminho das imagens: três histórias de filmagens na primavera-verão de 1944. Revista Estudos Históricos, v. 26, n. 51, p. 9–34, 2013.
    PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. Bauru, SP: EDUSC, 2005.
    RANCIÉRE, Jacques. O espectador emancipado. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.