Ficha do Proponente
Proponente
- Isadora Clemente Filgueira de Menezes (UFPE)
Minicurrículo
- Isadora Clemente é designer gráfica formada pelo IFPE, onde realizou iniciação científica e publicou no P&D Design (RJ). Atualmente, graduanda em Cinema e Audiovisual na UFPE, desenvolve pesquisa PIBIC sobre horror social sob orientação de Rodrigo Carreiro. Atua profissionalmente como continuista, tendo trabalhado no longa “Ela está no meio de nós” e em projetos selecionados para festivais, como o curta “receptáculo”.
Ficha do Trabalho
Título
- Luvas Canibais: Transgressão Materna e Individuação Feminina em Raw e Vinil Verde
Eixo Temático
- ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL
Resumo
- Esta pesquisa investiga como a transgressão a interditos maternos impulsiona a autonomia feminina nos filmes Vinil Verde (2004) e Raw (2016). A metodologia fundamenta-se no conceito de horror social, na abjeção de Kristeva e no monstruoso-feminino de Barbara Creed. Os resultados indicam que o canibalismo e a desobediência metaforizam a ruptura com a mãe arcaica e o complexo de castração. Assim, a monstruosidade viabiliza a individuação e a construção da subjetividade.
Resumo expandido
- O cinema de horror contemporâneo deslocou-se de ameaças sobrenaturais para focar em conflitos inerentes às estruturas sociais. Essa vertente, o “horror social”, utiliza tropos clássicos para discutir questões de classe, gênero e poder, transformando o medo em ferramenta de análise política e cultural. A representação feminina ganha complexidade através da psicanálise, desafiando a visão da mulher como eterna vítima. Esta pesquisa realiza uma análise comparativa entre os filmes Raw (2016) dirigido por Julia Durcournau e Vinil Verde (2004) dirigido por Kleber Mendonça Filho, para investigar como a transgressão às normas maternas funciona como metáfora para o processo de individuação feminina.
A fundamentação teórica reside no conceito de “monstruoso-feminino” de Barbara Creed (2023), que apresenta a “mãe arcaica” — aquela que gera, mas também consome e controla. Nas obras, a figura materna personifica uma força de contenção que tenta impedir a autonomia da filha através de interditos. Em Raw, a proibição manifesta-se pelo vegetarianismo compulsório imposto à protagonista Justine. Em Vinil Verde, a interdição é verbal e material: a proibição de ouvir um disco e usar luvas verdes. A quebra dessas proibições desencadeia o processo de individuação, tratando a independência como uma ruptura complexa com normas e figuras de autoridade.
A análise psicanalítica liga essa ruptura à abjeção de Julia Kristeva (1982), que descreve a reação humana diante da perda de distinção entre sujeito e objeto. O contato com sangue e carne em Raw evoca essa reação, lembrando a matéria que compõe os corpos. A monstruosidade feminina é construída como um abjeto por ameaçar a ordem simbólica através da evocação de uma ordem natural e animal. O desejo de Justine por carne espelha a descoberta de sua sexualidade, servindo como metáfora para as transformações da vida adulta. Ducournau desafia a tradição cinematográfica que atrela a sexualidade feminina à culpa, tratando o canibalismo como a libertação do animal interno.
Em Vinil Verde, a desobediência simboliza a busca por autonomia. Embora a narrativa gire em torno do objeto fantástico, o tema central é a relação mãe e filha, marcada por afeto e rebeldia. A atitude da filha de usar maquiagens na ausência da mãe ilustra o desejo de se sentir adulta, mudança que se consolida quando ela ocupa o quarto materno após a morte da progenitora. O vinil verde funciona como metáfora dos medos da mãe, que tentou transferi-los à filha por zelo e proteção. Ao desobedecer, a filha recusa-se a ser conduzida pelo medo materno, buscando sua própria trajetória.
Conclui-se que a transgressão torna-se o único caminho possível para a construção da subjetividade e identidade. O canibalismo feminino e a desobediência revisitam mitos como o da vagina dentata, retirando a mulher do papel de vítima castrada para o de detentora de sua própria pulsão. Através do horror social, percebe-se que corpo e sexualidade são centrais na inquietação que reflete angústias domésticas e a transição para a maturidade. A pesquisa contribui para a compreensão de como o horror contemporâneo utiliza o monstruoso para narrar o processo de individuação feminina sob a ótica da filha.
Bibliografia
- CREED, Barbara. The monstrous-feminine: film, feminism, psychoanalysis. 2. ed. London; New York: Routledge, 2023.
DE OLIVEIRA, M. R. D. O conceito de abjeção em Julia Kristeva. Revista Seara Filosófica, n. 21, p. 185-201, 8 abr. 2021.
CARREIRO, Rodrigo; CANEPA, Laura. Cinema de horror: uma introdução. Campinas: Papirus, 2023.
SANTOS, Jaime César P. A. et al. “Uma análise do curta-metragem Vinil Verde (2004), de Kleber Mendonça Filho, como expressão do cinema moderno pernambucano”. ResearchGate, 2023.
KELLER, Raquel Maysa. O canibal feminino nos filmes da New French Extremity. In: GOMES, Carlos Magno; CARDOSO, Ana Maria Leal (orgs.). Representações do feminino e do masculino nas artes e na literatura. 2017. p. 142-152.
MEDEIROS, Daniel. Grave: o canibalismo como descoberta da sexualidade. In: MARKENDORF, Marcio; RIPOLL, Leonardo; LEHNEMANN, Andrey Kolling (org.). Violências várias: estudos da brutalidade no cinema. Florianópolis: Biblioteca Universitária Publicações