Ficha do Proponente
Proponente
- NEZI HEVERTON CAMPOS DE OLIVEIRA (COC/Fiocruz)
Minicurrículo
- Possui graduação em Cinema pela Universidade de São Paulo (1994), mestrado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (2006) e doutorado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense (2022). É assessor da Direção da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, onde atua nas áreas do Patrimônio Cultural, da Divulgação Científica e da Produção Audiovisual. É curador da Mostra de Filmes “Memória em Movimento”, evento integrante da Semana Fluminense do Patrimônio
Ficha do Trabalho
Título
- Curadoria e circuitos queer nos festivais Mix Brasil e Rio LGBTQIA+
Seminário
- Festivais e Mostras de Cinema e Audiovisual
Resumo
- Este trabalho analisa o Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade e o Rio LGBTQIA+ Festival Internacional de Cinema como instâncias de mediação, curadoria e legitimação no audiovisual brasileiro. A partir de abordagem teórica e historiográfica, examina como estruturam circuitos queer de circulação e regimes de visibilidade, articulando dimensões territoriais, performativas e transnacionais na produção de valor e reconhecimento LGBTQIA+.
Resumo expandido
- Este trabalho analisa os festivais Mix Brasil de Cultura da Diversidade e Rio LGBTQIA+ Festival Internacional de Cinema como dispositivos institucionais de mediação, curadoria e legitimação no campo do audiovisual brasileiro contemporâneo, com ênfase na constituição de circuitos queer de circulação. A partir de uma perspectiva historiográfica e comparativa, investiga-se como tais eventos operam na produção de regimes de visibilidade e inteligibilidade das dissidências sexuais e de gênero, participando da conformação de um campo audiovisual LGBTQIA+.
A análise parte da compreensão dos festivais como instâncias de valoração e consagração simbólica que articulam produção, circulação e recepção (DE VALCK, 2007; DAWSON; LOIST, 2018), em diálogo com a teoria queer (BUTLER, 2003; SEDGWICK, 2007), que problematiza a estabilidade das categorias identitárias e evidencia os processos discursivos que regulam a produção de sujeitos. Nesse quadro, os festivais são compreendidos como operadores de enquadramentos normativos que definem condições de visibilidade, reconhecimento e pertencimento.
No contexto brasileiro, o debate é tensionado pelas contribuições de Karla Bessa, a partir do trabalho pioneiro de B. Ruby Rich, que situam o cinema queer como campo de disputa estética e política, e pelas pesquisas de Marcos Aurélio da Silva, que compreende os festivais como territórios de desejo e espaços performativos de produção de sociabilidade. A partir de abordagem etnográfica, Silva demonstra que tais eventos não apenas organizam a circulação de filmes, mas produzem territorialidades simbólicas e experiências coletivas, articulando cinema, corpo e cidade e reconfigurando usos do espaço urbano e formas de pertencimento.
Metodologicamente, a pesquisa adota abordagem qualitativa, baseada na análise documental de programações, catálogos e materiais institucionais dos festivais, entendidos como arquivos de práticas curatoriais e estratégias de posicionamento no campo. Parte-se da hipótese de que a curadoria opera como prática de mediação dotada de agência, responsável por produzir hierarquias de valor, estruturar circuitos de circulação e definir regimes de visibilidade.
No plano comparativo, o Festival Mix Brasil configura-se como eixo estruturante de um circuito nacional, articulando dimensões culturais, urbanas e mercadológicas e operando, conforme Silva, por meio de um espraiamento territorial que conecta diferentes espaços e sociabilidades. Já o Rio LGBTQIA+ Festival Internacional de Cinema evidencia uma lógica de inserção transnacional, atuando como plataforma de circulação internacional e conexão com redes globais de festivais queer. Essas diferenças indicam a coexistência de regimes distintos de mediação, nos quais se tensionam escalas territoriais, formas de capital simbólico e estratégias de legitimação. Embora o Festival Mix Brasil já conte com produção acadêmica consolidada, o Rio LGBTQIA+ Festival Internacional de Cinema permanece relativamente pouco explorado na literatura, o que reforça a relevância de um trabalho específico sobre o evento.
Sustenta-se que, ao selecionar, organizar e enquadrar obras e experiências, esses festivais participam ativamente da produção de um campo audiovisual LGBTQIA+, definindo não apenas o que circula, mas o que é reconhecido como culturalmente relevante. Configuram-se, assim, como espaços de disputa simbólica e performativa, nos quais se negociam identidades, pertencimentos e formas de visibilidade.
Dessa forma, a análise evidencia a centralidade das práticas curatoriais e institucionais na constituição de circuitos queer de circulação no Brasil e permite compreender os festivais como experiências territoriais, performativas e urbanas que articulam mediação cultural, produção de sociabilidade e legitimação simbólica no audiovisual contemporâneo.
Bibliografia
- BESSA, K. Os festivais GLBT de cinema e as mudanças estético-políticas na constituição da subjetividade”. Cadernos Pagu, Campinas, n. 28, 2007, p. 257-283
BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
DAWSON, L.; LOIST, S..Queer/ing film festivals: history, theory, impact. Studies in European Cinema, v. 15, n. 1, p. 1–24, 2018
DE VALCK, M. Film festivals: from European geopolitics to global cinephilia. Amsterdam: Amsterdam University Press, 2007.
RICH, B. R. New gay film. A queer sensation. The Village Voice, March 24, 1992.
SEDGWICK, E. K. A epistemologia do armário. Tradução de Plínio Dentzien. Cadernos Pagu, Campinas, n. 28, p. 19-54, jan./jun. 2007.
SILVA, M. A. A cidade de São Paulo e os territórios do desejo: uma etnografia do festival Mix Brasil de Cinema e Vídeo da Diversidade Sexual. EcoPós, Rio de Janeiro, v. 16, n. 3, 2013.