Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Ana Caroline de Almeida (UFPE)

Minicurrículo

    Carol Almeida é pesquisadora independente, professora e curadora de cinema. Doutora no programa de pós-graduação em Comunicação na UFPE, com pesquisa centrada no cinema contemporâneo brasileiro. Faz parte da equipe curatorial do Festival Olhar de Cinema desde 2017, da Mostra de Cinema Árabe Feminino desde 2021, e da Mostra que Desejo também desde 2021. Foi também uma das curadoras da Mostra de Cinema Feminino da Palestina, que aconteceu em 2024, em Foz do Iguaçu.

Ficha do Trabalho

Título

    Estratégias arquivísticas queer no cinema árabe contemporâneo

Resumo

    Inspirada em estratégias de linguagem do filme Neo Nahda (2024), da libanesa May Ziadé, esta comunicação pretende mover uma leitura fabulativa sobre o estatuto dos arquivos nos contextos de violência colonial vivida por pessoas queer árabes. Se propõe a fazer isso observando como o cinema contemporâneo de realizadoras/es árabes reage, com práticas arquivísticas, à instrumentalização da comunidade queer/cuir para promover agendas antiárabes, antipalestinas e islamofóbicas.

Resumo expandido

    “Por que você demorou tanto a nos achar?” A personagem do passado interpela a jovem lésbica do futuro. Num exercício de imaginação com e a partir de arquivos, o filme Neo Nahda (2024), de May Ziadé, faz imagens dos anos 1920, 30, 40 em países árabes como Líbano, Palestina, Síria e Egito ganharem vida e relevo em uma ficção calcada em documentos quase sempre fotográficos. Na encenação em movimento das personagens dessas fotos, em registros daquilo que hoje o Ocidente nomeia como crossdressing (termo que talvez faça pouco sentido no circuito histórico em que essas imagens foram feitas), o filme produz uma série de questões sobre a ativação dos arquivos no processo de revisão de gênero e sexualidade de uma jovem árabe em diáspora.

    Esta comunicação pretende, inspirada no gesto que o filme carrega, mover uma leitura fabulativa (HARTMAN, 2020) sobre o estatuto dos arquivos nos contextos de violência colonial vivida por pessoas queer árabes. Se propõe a fazer isso a partir de como o cinema contemporâneo de realizadoras/es árabes reage, com práticas arquivísticas, à instrumentalização da comunidade queer/cuir para promover agendas antiárabes, antipalestinas e islamofóbicas, agendas estas que sustentam práticas genocidas. Além das estratégias usadas por Neo Nahda, a comunicação pretende investigar as formas de ativamento dos arquivos nos filmes A canção da besta (2019), de Sophia Al-Maria e We will haunt your archive (2026), de R.R., sendo este último um dos filmes que pertence à curadoria do projeto Queer Cinema For Palestine.

    Para tanto, será fundamental primeiro entender de que modo o próprio conceito de arquivo é agenciado em territórios onde a manutenção de qualquer documento contra-hegemônico está sempre sujeita a práticas de apagamentos. Numa região tensionada por regimes autoritários, como no caso do Egito e, por tantos anos, da Síria, por projetos de fragmentação política, no caso do Líbano, e por um aniquilamento sistemático promovido pelo estado de Israel de toda a identidade de um povo, no caso da Palestina, a prática de arquivar se torna um desafio em si.

    Sobreposto a isso, é necessário entender que “no campo dos estudos queer, a virada arquivística trouxe uma intensificação dos questionamentos acerca da vulnerabilidade e constante ausência de documentações e registros sobre tudo aquilo relacionado às vidas queer” (FREITAS, 2018). Portanto, quando esses estudos se debruçam sobre um território que não vai atender ao enquadramento que o Ocidente produz sobre experiências queer e, mais grave, vai diretamente sofrer com práticas de “pinkwashing” por Israel e seus parceiros no mundo ocidental, as nuances do arquivamento e as práticas artísticas implicadas com os arquivos queers vão inevitavelmente se tornar uma forma de “pinkwatching” (ALQAISIYA, 2018). Ou seja, um gesto de resposta e monitoramento do apagamento que o Ocidente faz dessas experiências no mundo árabe.

    Algumas das questões acionadas dentro do filme de May Ziadé – “por que eu nunca vi essas fotos antes?” ou “vocês não acham que o nosso uso de definições e nomenclaturas contemporâneas de gênero e sexualidade não nos induz ao erro sobre a realidade dessas mulheres naquela época?” – se somam a uma problemática central na lida com esses arquivos. A saber, em que medida ferramentas como a ideia de um arquivamento radical de emoções da comunidade queer (CVETKOVICH, 2003) e bases teóricas produzidas em contextos que alijam e, muitas vezes, negam experiências de sexualidades dissidentes no contexto de países árabes da chamada região do Levante podem servir, ou não, como suporte de análise para a forma como esses arquivos têm sido usados no cinema contemporâneo de artistas árabes.

Bibliografia

    ALQAISIYA, Walaa. Decolonial Queering: The Politics of Being Queer in Palestine. Journal of Palestine Studies XLVII.3, p. 29-44, 2018.

    BORGES FREITAS, Camila. Acolher sentimentos, produzir sentidos: arquivos queer como espaço de resistência e construção de memória. In: XIV Encontro Estadual de História da ANPUH-RS: Democracia, Liberdades, Utopias, 2018, Porto Alegre. Democracia, liberdade e utopias. Anais do 14 Encontro Estadual de História da ANPUH-RS, 2018.

    CVETKOVICH, Ann. An archive of feelings: Trauma, Sexuality, and Lesbian Public Cultures, New York, USA: Duke University Press, 2003.

    HARTMAN, Saidiya. Vênus em dois atos. Tradução: Fernanda Silva e Sousa; Marcelo R. S. Ribeiro. Revista Eco-Pós, v. 23, n. 3, p. 12–33, 2020.

    NACHABE, Yasmine. Marie al-Khazen’s photographs of the 1920s and 1930s. Tese, McGill University, 2012.