Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Gianna Gobbo Larocca (UERJ)

Minicurrículo

    Gianna Larocca é professora adjunta do Departamento de Integração Cultural da Escola Superior de Desenho Industrial ESDI-UERJ. É bacharel em Comunicação Social – Cinema e Vídeo pela UFF e pós-graduada em Design pela ESDI-UERJ. Tem experiência em trabalhos de arte gráfica para a direção de arte de obras audiovisuais e pesquisa nas interseções entre os campos do design e do cinema.

Ficha do Trabalho

Título

    Cenários futuros: perspectivas do design e da direção de arte audiovisual

Seminário

    Estética e Teoria da Direção de Arte Audiovisual

Resumo

    A produção de cenários (projetados, simulados, construídos) é prática comum entre os campos do audiovisual e do design, em particular nas investigações imaginativas de futuros. Este estudo busca uma aproximação entre as áreas, articulando perspectivas do design especulativo e da desobediência tecnológica com práticas de direção de arte em filmes brasileiros contemporâneos de ficção científica. Neles, a direção de arte expõe disputas sobre tecnologias e tensiona visões hegemônicas de futuro.

Resumo expandido

    Imagine uma paisagem composta por um plano branco recoberto por uma malha geométrica que se estende até o horizonte. Essa grade atravessa montanhas, desertos e cidades, como se o mundo tivesse sido redesenhado por um único algoritmo. Em certos pontos, blocos prismáticos emergem da superfície, lisos e espelhados, refletindo um céu pálido. A escala é desconcertante: pequenas figuras humanas aparecem irrelevantes diante da monumentalidade silenciosa da estrutura. Tudo parece limpo, lógico e, ao mesmo tempo, profundamente inquietante.
    A descrição remete ao cenário de um filme de ficção científica? Sem dúvida, seria possível arriscar um título. Contudo, a imagem descrita corresponde à obra Monumento Contínuo, do coletivo italiano Superstudio, vinculada às práticas radicais de arquitetura e design que emergiram nas décadas de 1960-70. Frequentemente mobilizada nos currículos de design no Brasil sob o rótulo de antidesign, essa produção reaparece hoje em um contexto em que a área volta a demandar formas mais imaginativas de pensar o futuro.
    A construção de cenários futuros é compartilhada entre o cinema – especialmente o de ficção científica – e o design, em particular nas vertentes do design especulativo, cujas formulações frequentemente retomam experiências do design radical. Ao lado dessas práticas, muitos cenários também são produzidos para antecipar inovações tecnológicas com fins comerciais.
    A imagem do Superstudio, entretanto, não celebra o progresso; ela o problematiza. Ao filiar-se ao design radical, o design especulativo pode ser compreendido como um exercício de imaginação crítica diante dos desafios contemporâneos. Em relação à direção de arte, Jennifer Fay nos oferece uma perspectiva interessante ao propor abordar o Antropoceno como um problema de production design: a criação de mundos sob a égide humana. Para a autora, o cinema é uma resposta estética que nos permite aprender a habitar essa era geológica.
    A autora também enfatiza, na produção contemporânea, discursos que apostam na construção de laços de solidariedade e de soluções inventivas nas ruínas de um mundo à beira do apocalipse. Este tipo de criatividade coletiva pode corresponder ao conceito de desobediência tecnológica, proposto por Ernesto Oroza, para descrever práticas de reapropriação e desvio de artefatos técnicos. É relevante que o designer, inicialmente influenciado pelo design radical italiano, tenha deslocado sua perspectiva ao observar soluções populares na produção de artefatos em Cuba.
    Neste sentido, e colocando os campos aqui abordados em diálogo, Maciel e Souza (2021) apontam a contribuição de Bacurau (2019) para introduzir uma perspectiva decolonial no design especulativo, frequentemente carente dessa dimensão. De modo mais amplo, filmes brasileiros contemporâneos de ficção científica – como O último azul; Divino amor; Branco sai, preto fica – oferecem um campo fértil para pensar imaginações de futuro situadas.
    Nessa produção, a direção de arte não apenas projeta futuros, mas explicita disputas sobre quem projeta, para quem e sob quais condições. Por um lado, os filmes mobilizam imaginários tecnológicos globalizados, por outro, evidenciam práticas de adaptação que tensionam essas mesmas lógicas. A direção de arte se configura como instância projetual que materializa hipóteses de mundo, articulando regimes de temporalidade heterogêneos. O futuro deixa de ser um horizonte homogêneo para se apresentar como um campo informado por permanências históricas, desigualdades estruturais e apropriações tecnológicas localizadas.
    O encontro de metodologias na concepção de cenários futuros aponta para a potência da articulação entre as áreas do design e do audiovisual. Aqui, a direção de arte emerge como prática capaz de tornar visíveis tanto dispositivos de captura quanto possibilidades de desvio, fazendo do cinema um espaço privilegiado para observar como diferentes regimes tecnológicos são imaginados, apropriados e contestados na cultura contemporânea.

Bibliografia

    BERARDI, F. Futurabilidad: la era de la impotencia y el horizonte de la posibilidad. Buenos Aires: Caja Negra, 2019.
    DUNNE, A.; RABY, F. Speculative everything: design, fiction, and social dreaming. Cambridge, MA: MIT Press, 2013.
    FAY, J. Inhospitable world: cinema in the time of the Anthropocene. Oxford: Oxford University Press, 2018.
    FAY, J. A portal to another world. Film Quarterly, v. 72, n. 4, 2019.
    HAMBURGER, V. Arte em cena: a direção de arte no cinema brasileiro. São Paulo: Senac, 2014.
    KRENAK, A. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
    MACIEL, L.; SOUZA, E. O design de produção enquanto design especulativo decolonial. In: CIDI 2021. Anais.
    OROZA, E. Desobediencia tecnológica. Ciudad de México: Alias, 2015.
    ROCHA, I. Artesanalidade, gambiarra e artifício na direção de arte do cinema brasileiro contemporâneo. In: FERREIRA, B. et al. Dimensões da direção de arte na experiência audiovisual. Rio de Janeiro: Nau, 2023.