Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Sabrina Tenório Luna da Silva (UFMT)

Minicurrículo

    Sabrina Tenório Luna é professora da graduação em Cinema e Audiovisual da UFMT e do programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM – UFMT). Doutora e mestre em comunicação pela UFPE, realizou doutorado sanduíche na Universidade Livre de Berlim com bolsa da Capes.

Ficha do Trabalho

Título

    O verde e o azul no cinema brasileiro: Da Muiraquitã à baba azul do Caracol

Seminário

    Estética e Teoria da Direção de Arte Audiovisual

Resumo

    Neste artigo, pretendemos investigar elementos de direção de arte nos filmes Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade, 1969) e O Último Azul (Gabriel Mascaro, 2025), dando destaque ao amuleto verde Muiraquitã e ao caracol de baba azul. Nestas obras, os elementos em questão apresentam pontos importantes de virada narrativa, fazendo alusão a histórias que remetem ao território Amazônico. Além disso, pretendemos analisar como as cores verde e azul apresentam pontos de reflexão entre as obras.

Resumo expandido

    Nesta comunicação, pretendemos investigar o uso das cores verde, presente no amuleto Muiraquitã, no filme Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade, 1969) e azul, proveniente da baba azul de um caracol mítico da Amazônia em O Último Azul (Gabriel Mascaro, dir. de arte: Dayse Barreto, 2025).
    O Muiraquitã aparece no filme quando Macunaíma, já homem branco saído do campo para a cidade, encontra Ci, que usa, junto ao seu traje jeans, pensado pelo figurinista Anísio Medeiros, o amuleto verde pendurado no pescoço. Documentado por exploradores europeus desde o século XVI, logo após sua chegada ao Brasil, o Muiraquitã era utilizado por indígenas guerreiras (COSTA, SILVA, ANGÉLICA, 2002), representando força e proteção.
    Os Muiraquitãs eram produzidos a partir de jade nephrita, sendo “artefatos em pedra verde com forma batraquiana com furos laterais duplos, não visíveis pela parte frontal” (IBIDEM, 2002, p. 471). No filme, Ci representa as guerreiras amazonas provenientes de tribos formadas só por mulheres. Já vivendo com Macunaíma, a guerreira, ao plantar uma bomba colocada no carrinho de bebê do filho de ambos, explode. A pedra, então, é encontrada pelo Gigante.
    O verde representa a natureza, sendo uma cor secundária, fruto da junção das cores primárias amarelo e azul (HELLER, 2013). No filme, a sua cor reconfigura os cenários e figurinos, desembocando no encontro entre Macunaíma, vestido de verde e o Gigante, que traja um paletó roxo violeta, “cor que, em termos psicológicos, mais contrasta com o verde” (HELLER, 2013, p. 194), representando o antinatural e o artificial. Através das cores, a vitória do anti-herói diante do Gigante, que ocorre na feijoada canibalística que tem como locação a piscina do Palácio Lage, já se anuncia.
    Enquanto Macunaíma apresenta relação com o modernismo, tendo o componente antropofágico (JACOB, 2017), como elemento que perpassa a narrativa e desemboca na cena mencionada, O Último Azul é um filme distópico, que mostra uma sociedade que envia os seus idosos para colônias distantes. Ao ser forçada pelo governo a ir para as colônias, a personagem Tereza, 77 anos, inicia uma saga de fuga e redescoberta pelos rios Amazônicos. O seu primeiro contato com o caracol da baba azul, elemento fantástico criado para o filme, vem quando o barqueiro Cadu encontra um desses seres raros e pinga a baba azul no seu olho.
    O caracol aparece novamente para Tereza em um segundo momento da narrativa, quando esta já se encontra navegando pelos rios com Roberta, idosa que vende bíblias digitais e vive livre das colônias. Ao encontrarem o caracol, as duas pingam a baba azul em seus olhos, o que lhes revela possibilidades de futuro e abertura de caminhos em um mundo que as exclui.
    O azul é considerado a cor favorita pelos ocidentais (HELLER, 2013), (PASTOUREAU, SIMONNET, 2007). “Há apenas um setor em que o azul deve se encontrar em menor número: não há quase nada de cor azul entre os alimentos e as bebidas” (HELLER, 2013, p. 46). Essa característica, apresenta um tom de fábula à baba azul, que apesar de não ser bebida, é pingada nos olhos, apontando também para a distopia que transformou o mundo habitado pelas personagens. Esse mundo é resultado do que pode ser considerado como o enigma central do Antropoceno, que em seu esforço para tornar o planeta mais acolhedor, seguro e produtivo, adota medidas que “tornaram esta Terra menos hospitaleira” (FAY, 2018, p. 2).
    Ao analisar tais filmes a partir das cores azul e verde, pretendemos iniciar uma investigação do cinema brasileiro a partir das cores e de suas representações ligadas a imaginários de simbologia, território e paisagem, sendo a última um dos elementos base da cenografia cinematográfica (HAMBURGER, 2014). As cores verde e azul, além disso, se comunicam de forma direta: “Ao contrário do divinal azul, o verde é terrestre, é a cor da natureza. No acorde azul-verde, o céu e a terra se unem” (HELLER, 2013, p. 47). Através dessa união, pretendemos iniciar os acordes deste estudo.

Bibliografia

    COSTA, Marcondes Lima; SILVA, Anna Cristina Resque Lopes da; ANGÉLICA, Rômulo Simões. Muyrakytã, ou Muiraquitã, um talismã arqueológico em jade procedente da Amazônia: Uma revisão histórica e considerações antropogeológicas. ACTA AMAZÔNICA 32(3): 467-490. 2002.

    FAY, Jennifer. Inhospitable World Cinema in the Time of the Anthropocene. New York: Oxford University Press, 2018.

    JACOB, Beth. A direção de arte e a construção de uma certa visualidade brasileira, em: BUTRUCE, Débora e BOUILLET, Rodrigo (org). Direção de arte no cinema brasileiro. Caixa cultural. Rio de Janeiro.1ª Ed. 2017.

    HAMBURGER, Vera. Arte em cena: a direção de arte no cinema brasileiro. São Paulo: Ed. SENAC Edições SESC, 2014.

    HELLER, Eva. A psicologia das cores: como as cores afetam a emoção e a razão. São Paulo: Editora G. Gili, 2013.

    PASTOUREAU, Michel; SIMONNET, Dominique. Breve historia de los colores. Barcelona: Ediciones Paidós Ibérica, 2007.