Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Mariana Dutra de Carvalho Lopes (UFMG)

Minicurrículo

    Doutoranda em Cinema na Escola de Belas Artes da UFMG. Possui graduação em Letras pela UFMG (2004) e mestrado em Estudos de Linguagens pelo CEFET-MG (2015).

Ficha do Trabalho

Título

    Deslocamentos urbanos e efeitos de montagem em O dia que te conheci (2023)

Resumo

    Este estudo analisa cenas de deslocamento do filme O dia que te conheci (André Novais Oliveira, 2023) a partir de escolhas de montagem. Fundamentado em Aumont e Amiel, observa como movimentos de câmera, ambientação sonora e composição dos planos produzem sentidos ligados à subjetividade das personagens e à experiência de mobilidade urbana, evidenciando dimensões estéticas e políticas do filme.

Resumo expandido

    O deslocamento de personagens no cinema é um recurso narrativo vinculado a intenções diversas, como reconhecer um território ou elaborar traços de subjetividade. No âmbito da narrativa, pode ocorrer a pé, de ônibus ou de carro, entre outros meios, com personagens sozinhas ou em grupo, com uma finalidade ou a esmo. No âmbito da linguagem, pode ser realizado por meio de travellings ou panorâmicas, em planos longos ou curtos, com a câmera estável ou trêmula, com ruídos ambientes ou trilha musical. Cada uma dessas escolhas faz do deslocamento um indicador de significados para os filmes.

    No recorte de filmes mineiros contemporâneos, Miranda realça o olhar dedicado ao espaço urbano e a vivências de pessoas comuns. Segundo o autor, esses filmes destacam-se por “um modo de aproximação da urbanidade” e são voltados “para residências de classe média e baixa ou para a vivência na metrópole e nas comunidades” (Miranda, 2022, p. 126). Nesse contexto, como caso exemplar, destacamos “O dia que te conheci” (André Novais Oliveira, 2023), que aborda o cotidiano urbano pelo ponto de vista de um trabalhador em seu deslocamento diário para o trabalho. Propomos aqui uma análise das escolhas de montagem em cenas de deslocamento desse filme a fim de compreender os significados criados para as personagens e para a experiência no espaço urbano.

    “O dia que te conheci” começa destacando a rotina de Zeca em sua tentativa frustrada de ser pontual no trabalho e depois concentra-se no encontro dele com Luísa, uma colega de trabalho. O filme, portanto, aborda as situações enfrentadas por quem mora longe do trabalho e as mudanças advindas de um encontro amoroso. As cenas de deslocamento, assim, envolvem tanto Zeca sozinho quanto com Luísa.

    Para a análise dessas cenas, recorremos ao entendimento de Aumont (2005) sobre os objetos da montagem. Para o autor, um plano pode ser decomposto em unidades menores, o que permite a análise de aspectos como composição plástica e movimentos de câmera. Além disso, a trilha sonora, que não depende da duração dos planos, é também objeto da montagem. E, considerando o entendimento de Amiel (2016) sobre a dramaturgia das imagens, analisamos as escolhas de montagem associadas à composição de pontos de vista.

    As cenas de Zeca a pé a caminho do trabalho são compostas por movimentos de panorâmica da câmera que, sem se deslocar, gira em seu próprio eixo para acompanhar a personagem. Em oposição, quando Zeca está andando com Luísa, a câmera os acompanha em um travelling frontal percorrendo um quarteirão inteiro no centro da cidade. Comparando esses dois movimentos de câmera, percebemos a diferença entre o caminhar sozinho de Zeca, limitado a um eixo, e o caminhar com Luísa, com maior mobilidade, antecipando as mudanças advindas desse encontro.

    Outra oposição é percebida na composição da ambientação sonora durante os deslocamentos por ônibus e por carro. No coletivo, a trilha sonora é feita com ruídos de trânsito e vozes de outros passageiros. No carro, os ruídos do trânsito são mais baixos e as vozes das personagens se sobressaem, criando um ambiente mais intimista. Assim, a montagem constrói essa diferença fundamental entre os meios de transporte público e privado.

    A composição dos planos durante as cenas de deslocamento destaca murais de grafite com figuras de pessoas negras. No bairro, a caminho do ponto de ônibus, Zeca passa por um mural e, no caminho de volta para casa, aguarda a carona de Luísa em frente a outro. Assim, a composição dos quadros revela escolhas estéticas e políticas que ressaltam o enfoque temático da obra.

    As cenas de deslocamento em “O dia que te conheci”, portanto, por meio de recursos de montagem, criam efeitos relacionados à subjetividade da personagem principal, à experiência de mobilidade urbana e à observação crítica dos territórios. Assim, recursos como a movimentação da câmera, a ambientação sonora e a composição dos planos ampliam os significados do filme.

Bibliografia

    AMIEL, Vicent. Estética da montagem. Lisboa: Texto & Grafia, 2016.

    AUMONT, Jacques. A estética do filme. São Paulo: Papirus, 2005.

    MIRANDA, Marcelo. As aldeias de todos nós: o novo cinema em Minas Gerais olha a vida e os espaços de quem o faz. In: D’ANGELO, Raquel Hallak; D’ANGELO, Fernanda Hallak. O cinema brasileiro em resposta ao país: 2016 – 2021. Belo Horizonte: Universo Produção, 2022.

    O DIA que te conheci. Direção: André Novais. Brasil, 2023. 71 min.