Ficha do Proponente
Proponente
- Leidson Luiz Passos Pedra (UFBA)
Minicurrículo
- Luiz Pedra é artista visual, diretor criativo e pesquisador. Bacharel em Artes com habilitação em Cinema e Audiovisual e Bacharelando em Comunicação pela UFBA. Dedica-se a pesquisar sobre ontologias afrodiaspóricas no campo das artes e do cinema. Foi membro do comitê curatorial e diretor criativo da Ocupa Casa do Benin. Co-criou a exposição “Ngongo: Paths of Memory Reinvention” na Wits University em Joanesburgo. Além de ter participado de exposições na FGV-Arte e no MAM-BA.
Ficha do Trabalho
Título
- Fazer transbordar a kalunga: cosmopoéticas do comum e a poética negra feminista em “Cais”
Eixo Temático
- ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL
Resumo
- Esta comunicação propõe analisar o filme Cais (2025), primeiro longa-metragem de Safira Moreira, sob a ótica das cosmopoéticas propostas por Marcelo Ribeiro aos estudos cinematográficos e da poética negra feminista elaborada por Ferreira da Silva, compreendendo a obra como um deslocamento entre a cosmopoética da descolonização e uma cosmopoética do comum, ao reelaborar o luto, o tempo e a ancestralidade a partir das ontoepistemologias banto-iorubanas, produzindo outras noções de vida e de corpo.
Resumo expandido
- Esta comunicação propõe analisar o filme Cais (2025), primeiro longa-metragem de Safira Moreira, sob a ótica das cosmopoéticas propostas por Marcelo Ribeiro aos estudos cinematográficos e da poética negra feminista elaborada por Ferreira da Silva, compreendendo a obra como um deslocamento entre a cosmopoética da descolonização e uma cosmopoética do comum, ao reelaborar o luto, o tempo e a ancestralidade a partir das ontoepistemologias banto-iorubanas, produzindo outras noções de vida e de corpo.
Em Cosmopoéticas da descolonização e do comum (2016), Ribeiro articula o conceito de cosmopoética da descolonização, associado aos cinemas africanos, como parte de um movimento emancipatório baseado na reivindicação do direito de olhar e na contraposição ao projeto universalizante colonial. Para isso, analisa filmes como Afrique sur Seine (1955), Soleil Ô (1967), Touki Bouki (1973) e Terra Sonâmbula (2007), compreendendo a cosmopoética do comum como um desdobramento desse movimento a partir da agência do cinema enquanto aparelho de recriação e narração de si das coletividades negras capaz de instaurar um entendimento pluriversal de identidade e de mundo, partilhado pela humanidade.
Nesse contexto, Ribeiro entende a descolonização como um percurso contínuo, iniciado pela inversão do olhar colonial e que, em determinados momentos, corresponde a um retorno inventivo às origens, sobretudo ligado à experiência do desterro, constitutiva da formação do sujeito negro e da diáspora negra.
Em Cais, a narrativa estabelece um percurso íntimo entre o luto pela partida da mãe de Safira e a chegada de seu primeiro filho, tendo o rio Paraguaçu e a cidade de Alegre como condutores do enredo. O filme integra também as falas de Mateus Aleluia, Tiganá Santana, Dona Maninha e de pessoas próximas da família sobre as noções de tempo, morte e vida mobilizadas por essas presenças. Desse modo, aproximo a produção de Safira Moreira por entendê-la como um retorno inventivo às origens em relação às ontoepistemologias banto-iorubanas presentes na vivência do sujeito afro-brasileiro, afinal, como vai nos dizer Martins (2025) ao discutir a ontologia na concepção ancestral africana, as divindades, a natureza cósmica, os mortos, os vivos, os que ainda irão nascer e tudo o que existe e irá existir fazem parte de um mesmo circuito fenomenológico em constante relação.
Desse modo, é possível aproximarmos com o conceito de poética negra feminista elaborada por Ferreira da Silva (2019) em que a autora descreve uma poética capaz de experimentar uma imagem do Corpus infinitum, uma imagem que se constitui a partir de um mundo pluriversal e interconectada que engloba tudo o que existe.
Portanto, busca-se nesta comunicação, evidenciar e articular, a partir de “Cais”, um cinema que nasce do vislumbre de outros mundos possíveis, deslocando uma visão de mundo eurocêntrica por meio da instauração de outros modos de relação, origem e ordenamento.
Bibliografia
- MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2025.
MOREIRA, Safira. Olhar de Cinema 2025: Safira Moreira fala sobre o processo de criação de Cais. Entrevista concedida a João Paulo Barreto. Scream & Yell, 2025.
RIBEIRO, Marcelo R. S. Cosmopoéticas da descolonização e do comum: inversão do olhar, retorno às origens e formas de relação com a terra nos cinemas africanos. Rebeca: Revista Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual, v. 5, n. 2, 2016.
RIBEIRO, Marcelo Rodrigues Souza. Do inimaginável. Goiânia: Editora UFG, 2019.
SILVA, Denise Ferreira da. A dívida impagável. São Paulo: Oficina de Imaginação Política; Living Commons, 2019.
SILVA, Denise Ferreira da. Homo modernus: para uma ideia global de raça. Rio de Janeiro: Cobogó, 2022.