Ficha do Proponente
Proponente
- VINICIOS KABRAL RIBEIRO (UFRJ)
Minicurrículo
- Professor Associado e chefe do Departamento de Expressão e Linguagens da ECO/UFRJ. Professor do PPGCINE/UFF. Doutor em Comunicação e Cultura pela ECO/UFRJ. Lidera o grupo de pesquisa “Formas de Habitar o Presente”. Coordenou o Simpósio “Tenda Cuir” (SOCINE, 2023-2025) e compõe a diretoria como secretário, gestão 2025/27. Estágios de Pós-doutorado pela UFRJ e PPGCINE/UFF. Pesquisa cinema, fotografia, cultura visual e marcadores sociais da diferença.
Ficha do Trabalho
Título
- Ninguém é hétero em Los Angeles
Seminário
- Tenda Cuir
Resumo
- O artigo analisa a inserção da música Ain’t Nobody Straight in L.A., de The Miracles, na novela Pecado Capital (Janete Clair, 1975), entendendo como a trilha constituiu um arquivo sonoro de afetos e saberes cuirs de circulação cifrada dentro da televisão brasileira. Dialogando com Raymond Williams (1979), Matthew Tinkcom (2002), Jonathan Sterne (2003) Gayle Rubin (2016), rastreamos artefatos culturais massivos de memórias dissidentes em estratos televisivos varados por contextos inamistosos.
Resumo expandido
- A cena de Pecado Capital (Janete Clair, 1975) em que irrompe Ain’t Nobody Straight in L.A., de The Miracles, atua como uma brecha sonora dentro da ficção televisiva produzida em plena ditadura de Ernesto Geisel. O desfile de modas avança até a trilha colocar em circulação um mundo audível destoante do controle moral e estético dominante. A televisão brasileira daquela época exercicia uma aparente coreografia rígida de norma/normalidade e mesmo assim deixava escapar essas vibrações de circuitos cuirs internacionais.
Matthew Tinkcom (2002), ao discutir o trabalho gay nas artes e no cinema, destaca esse tipo de infiltração inscrita numa combinação estética de humor, estilização, deslocamento de repertórios e sensibilidades. A música cria exatamente esse efeito, atuando como força lateral reorganizadora do sentido da cena, driblando a impossibilidade explícita de personagens cuirs nas novelas brasileiras; afiliando saberes e ironias. A letra abre com a afirmação “Ain’t nobody straight in L.A. (Não há ninguém hétero em L.A.”) A Los Angeles da música é um emblema de circulação cultural condensador de liberdade afetiva e desembaraço erótico. O refrão “It seems that everybody is gay” carrega um tom leve e dançante, ancorado simultaneamente às lutas por liberdade em diversas cidades do mundo. A sequência “Homosexuality is a part of society. Freedom of expression is really the thing” fala de liberdade de expressão num contexto em que a televisão brasileira estava submetida a censura prévia. O uso da palavra variety evoca diversidade, mudança, mistura e também o universo dos espetáculos, apontando para desafio formulado por Rosi Braidotti (2000), como viver juntos num espaço de diferença?
Raymond Williams (1979) ajuda a entender essa movimentação, nos convocando a ficarmos atentas ao que ainda não foi capturado pela hegemonia. A trilha dá forma a uma estrutura de sentimentos. Sensibilidades compartilhadas ainda sem corpo discursivo pleno encontravam na música uma expressão antecipada, ligada ao desejo de circulação e de outras formas de sociabilidade a serem reprimidas pela ditadura.
A mistura de espanhol e inglês na letra, com referências a AC/DC como gíria para pessoas bissexuais, anuncia multiplicidades linguísticas e culturais combinadas à ideia de circulação global de referências cuirs. A parte falada insere a teatralidade no coração do desfile com diálogos sobre bares em Sunset e Hollywood Boulevard, ambiguidades de gênero, humor diante da surpresa e a frase final “Gay people are nice people too, man”. Jonathan Sterne (2003) obtempera ser o som portador de afetos com grande liberdade, sendo difuso, ambiental, contagioso, o que podemos visulumbrar à construção de paisagems sonoras/históricas. Além de ambientar o desfile, a trilha contaminava a percepção de quem assistia? A novela apostava nessas duas frequências, a imagem mantendo a normalidade enquanto o som cuirizava os lares brasileiros de forma cifrada, produzindo o que Susanna Paasonen (2011) chama de ressonâncias.
Essa persistência do arquivo sonoro se junta ao problema mais amplo formulado por Gayle Rubin (2016), ao identificar uma amnésia estrutural na transmissão dos saberes cuirs entre gerações, descrevendo como conhecimentos aglomerados em camadas sedimentares são repetidamente perdidos, redescobertas e novamente esquecidos pela ausência de infraestruturas institucionais duráveis. A metáfora geológica é precisa, certos estratos sendo ricos em fósseis tanto pelas condições produtoras de vida quanto pelas condições favoráveis à preservação.
A leitura da cena de Pecado Capital busca evidenciar como afetos cuirs criaram capilaridade dentro da televisão brasileira, articulando escutas, o arquivo, o devir camaleônico e as memórias desertoras das normas de gêneros e sexualidades. Buscamos contribuir para a empreitada geológica dos saberes cuirs, sentindo vibrações, cavando com as mãos e perfurando o esquecimento com humor, estilização de repertórios, imagens, sons e vidas.
Bibliografia
- BRAIDOTTI, Rosi. Sujetos nómades. Buenos Aires: Paidós, 2000.
PAASONEN, Susanna. Carnal resonance: Affect and online pornography. Cambridge: MIT Press, 2011.
RUBIN, Gayle. Geologias dos estudos queer: um déjà vu mais uma vez. Sociedade e Cultura, Goiânia, v. 19, n. 2, 2017. DOI: 10.5216/sec.v19.48676. Disponível em: https://revistas.ufg.br/fcs/article/view/48676. Acesso em: 26 abr. 2026.
STERNE, Jonathan. The Audible Past: Cultural Origins of Sound Reproduction. Durham: Duke University Press, 2003.
TINKCOM, Matthew. Working like a homosexual: camp, capital, and cinema. Durham: Duke University Press, 2002.
WILLIAMS, Raymond. Marxismo e literatura. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.