Ficha do Proponente
Proponente
- Francis Vogner dos Reis (ECA-USP)
Minicurrículo
- Francis Vogner dos Reis é mestre em Meios e Processos Audiovisuais na ECA-USP e doutorando pelo mesmo departamento. Como crítico de cinema, foi colaborador da Revista Cinética (2006-2014). Lançou em coautoria com Jean-Claude Bernardet o livro O Autor no Cinema (2018). É co-roteirista dos longas O Último Trago, de Pedro Diógenes, Luiz Pretti e Ricardo Pretti (2017) e Os Sonâmbulos, de Tiago Mata Machado (2018). É diretor de A Máquina Infernal (2021) e Rapina (2026).
Ficha do Trabalho
Título
- Cartografando um arquipélago: complexidade e dispersão no cinema brasileiro contemporâneo
Seminário
- Políticas, economias e culturas do cinema e do audiovisual no Brasil
Resumo
- Fazer a cartografia desse arquipélago que é o cinema brasileiro contemporâneo consiste em, antes de buscar enquadrar o cinema na perspectiva de uma “nova indústria”, reconhecer, a partir de algumas linhas históricas do cinema brasileiro, sua multiplicidade descontínua, o que gera um problema de difícil solução: como construir uma indústria a partir de um cinema que resiste, por impossibilidade e temperamento, à padronização, concentração e verticalização da produção?
Resumo expandido
- A figura adotada para estudar o cinema brasileiro contemporâneo das duas últimas décadas é a do arquipélago: diversas ilhas interligadas, mas insulares, que surgem e desaparecem. Ilhas polilógicas (que não se constituem de uma única fonte, nem são reduzíveis a uma única linha de tradição); do idílico e do idealizado, do isolamento e do silenciamento. O esforço é cartografar esse conjunto parcial de ilhas, fazer um “mapa-mundi” e lançando olhar atento a ilhas invisíveis e colocando em perspectiva outras mais visíveis, no entanto dispersas. Se o modelo industrialista, nunca consolidado, sugere padronização produtiva, concentração, hierarquia e ordenamento, tal como os modelos continentais (europeus) a proposta é pensar a condição de dispersão e fragmentação desse cinema.
Fazer a cartografia desse arquipélago que é o cinema brasileiro contemporâneo consiste em, antes de buscar enquadrar o cinema na perspectiva de uma “nova indústria”, reconhecer, a partir de algumas linhas históricas do cinema brasileiro, sua multiplicidade descontínua, o que gera um problema de difícil solução: como construir uma indústria a partir de um cinema que resiste, por impossibilidade e temperamento, à padronização, concentração e verticalização da produção?
Para tanto a tese agrupa filmes e conjuntos de filmes em constelações de ilhotas. A hipótese é que o arquipélago do cinema brasileiro remonta a fios de tradição que se fizeram em caráter experimental. Cada ilha remete a uma prática que se desdobra para uma arqueologia de modelos pretéritos, ainda visíveis ou há muito submersos.
Se por um lado a tecnologia digital renovou a economia e a produção da indústria audiovisual de maior porte (ou seja, que respondia a valores de produção e tinha como destino o circuito exibidor e a venda para televisão), por outro, por meio dela, foi possível criar outras circunstâncias de produção e métodos de produção como bem exemplificados em realizadores de outras gerações como Eduardo Coutinho e Andrea Tonacci, ou pela produção indígena na qual o projeto Vídeo nas aldeias seria um dos marcos. Ou seja: há uma mudança no chamado “ecossistema audiovisual” que implica não só outras formas, mas também outros métodos e outras temporalidades distintas daquelas constituídas pelo modelo industrial do século XX
Se o problema da industrialização desde as origens do pensamento industrial brasileiro repreende a irracionalidade amadora de uma produção cinematográfica indisciplinada, subdesenvolvida, que não responderia às expectativas de profissionalização e formação de mercado para o setor, a persistência dessa produção desorganizada e que nasce e morre sem um mercado varia de acordo também com os movimentos e momentos de uma indústria nunca consolidada econômica e institucionalmente, mas que, dependendo das circunstâncias, pode se abrir a invenções que não responderiam às expectativas normativas do setor, sejam elas econômicas ou ideológicas.
Esse embate toca em questões que remontam à primeira metade do século passado: a dispersão da produção no território nacional (os ciclos regionais); o amadorismo como um constrangimento para um setor que deseja civilizar sua produção por meio de valores de produção e valores narrativos; a crítica aos filmes e realizadores que insistem em existir sem uma perspectiva de conquista de um público.
Entre a persistente ideologia industrial e a uma suposta nova condição pós-industrial que abdicaria de uma sistematização mínima de produção, o cinema brasileiro desafia uma nova formulação para essa história que há mais de um século responde a padrões circunstanciais numa anomalia em que o artesanal não está superado, dado o grau de invenção de formas e procedimentos singulares e o industrial não se completou em sua totalidade. Essa tensão se amplia já que os anos 2000 viu uma multiplicação de modos e formas em estranhos e descontínuos hibridismos de produção e invenções técnicas à parte das normas consolidadas no setor “profissional”.
Bibliografia
- AUTRAN, Arthur. O pensamento industrial cinematográfico brasileiro. São Paulo: Hucitec Editora, 2013.
BAHIA, Lia. O espaço audiovisual brasileiro em movimento: transformações, limites e desafios contemporâneos. Acrobata: literatura, audiovisual e outros desequilibrios , v. 1, p. 62-69, 2013.
BERNARDET, Jean-Claude. Historiografia claissica do cinema brasileiro. Sao Paulo: Annablume, 1995.
BRESSANE, Julio. O experimental no cinema nacional. In: VOROBOW, Bernardo; ADRIANO, Carlos (Org.). Júlio Bressane: Cinepoética. São Paulo: M. Ohno, 1995. p. 153-156.
FOSTER, Lila Silva. Cinema amador brasileiro: história, discursos e práticas (1926-1959). 2016. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27161/tde-10032017-164617/. Acesso em: 31 mar. 2026.