Ficha do Proponente
Proponente
- Bruno Leites (PPGCOM/UFRGS)
Minicurrículo
- Professor da UFRGS. Membro do Conselho Deliberativo da Socine. Coordena a linha Agenciamentos da Imagem (GPAGI), do grupo de pesquisa Semiótica e Culturas da Comunicação (GPESC). Autor de Cinema, Naturalismo, Degradação: Ensaios a partir de filmes brasileiros dos anos 2000 (Sulina, 2021), coautor de Semiótica Crítica e as materialidades da comunicação (Ed. UFRGS, 2020) e organizador, com André Araujo, de Teoria de cineastas: Práticas e Políticas do Pensamento Audiovisual (Intermeios, no prelo).
Ficha do Trabalho
Título
- O muro e a personagem: contraprovas nos pequenos museus de Lincoln Péricles
Seminário
- Teoria de Cineastas: dos processos de criação à dimensão política do cinema
Resumo
- Com esta apresentação, tenho o objetivo de fazer uma aproximação com o pensamento de Lincoln Péricles (LK) acerca do cinema e sua relação com a construção da realidade. Tomarei como eixo central duas noções propostas em entrevistas: a contraprova e o pequeno museu. Como exemplo de contraprova, LK aciona as figuras do muro e da personagem com subjetividade. Tais exemplos não são aleatórios, eles nos fornecem uma ancoragem para observar o pensamento do cineasta expresso em filmes e textos.
Resumo expandido
- Com esta apresentação, tenho o objetivo de fazer uma aproximação com o pensamento de Lincoln Péricles (LK) acerca do cinema e sua relação com a construção da realidade. Tomarei como eixo central duas noções propostas por LK em suas entrevistas: a contraprova e o pequeno museu. Como afirma o cineasta (LK; Eduardo, 2022), cada filme é um pequeno museu [“fazer cinema dentro da quebrada é criar pequenos museus”] composto de contraprovas [“registrar todo dia esse espaço, que se modifica diariamente, é documentar e produzir “contraprova” contra as provas que o Estado tem contra nós.”].
Como exemplo de contraprova, LK aciona as figuras do muro e da personagem com subjetividade. Filmar todo dia o mesmo muro da própria quebrada é “histórico”, assim como construir personagens da quebrada com subjetividade (LK; Eduardo, 2022): “Quem faz cinema dentro dos nossos territórios precisa ter noção de quão histórico é filmar todo dia o mesmo muro de sua quebrada”. Tais exemplos podem parecer aleatórios, mas eles nos fornecem uma ancoragem para observar a obra do cineasta. Há filmes inteiros que exploram a materialidade dos territórios – suas formas, cores, textura, sons – sempre em relação com a materialidade do dispositivo cinematográfico em que foi produzido, e não condicionados a um discurso interpretativo (“Cohab”, 2013; “Entrevista com as coisas”, 2015; “Meu amigo Pedro mixtape”, 2024). Outro eixo da produção é em torno das personagens e seus conflitos (“Aluguel: o filme”, 2015; “Filme de domingo”, 2020; “Roubar um plano”, 2025). Nesses casos, as personagens têm profundidade, conversam longamente variando entre temas cotidianos e existenciais.
Do ponto de vista político e teórico, em relação à imagem, a proposta do conceito de “contraprova” merece algumas considerações: a contraprova se coloca em contraponto a uma série dominante de imagens que são descritas como “provas”. Tais imagens são, nomeadamente, imagens policiais, institucionais e, inclusive, da maior parte do audiovisual brasileiro (LK, 2018). A contraprova, contudo, não se coloca como a afirmação de uma verdade contra a ilusão. O par “prova e contraprova” não é igual a “falso e verdadeiro”, ou “engano e revelação”. A contraprova tampouco reivindica uma nova interpretação dos fatos, isto é, não é a tomada do lugar de fala sobre uma realidade já dada. Nesse sentido, o cinema é parte fundamental de uma disputa de provas e contraprovas em que a realidade é cuidada e construída: “o Estado brasileiro não tem interesse nenhum em cuidar da memória das quebradas e das periferias desse país. Desse jeito fica fácil dizer que a gente nunca existiu.” (LK; Eduardo, 2022).
Esta pesquisa utiliza a abordagem Teoria de Cineastas, com foco na criação e crítica de conceitos a partir de palavras e filmes de cineastas. No caso, conceito é compreendido como uma construção intelectual multifacetada e eventualmente fragmentada, com elementos advindos de fontes diversas, e sempre inscrito em uma rede conceitual. (Deleuze; Guattari, 1992).
Nesse sentido, gostaria de notar dois componentes relevantes. Um deles é o viés da tecnologia, à medida em que a câmera é vista como uma “violência”, que, de saída, já é um instrumento de controle (LK et al, 2018). É possível desejar a horizontalidade da produção, mas para tanto é preciso enfrentar a violência do aparelho: é como se a câmera tivesse um DNA com dominantes violentas (próximo do que afirma Ariella Azoulay sobre câmera e colonialismo), expressando um pensamento controlador que exige um jogo contra o aparelho (próximo do que afirma Vilém Flusser sobre a ética do fotógrafo). O outro aspecto diz respeito à experimentação. A contraprova, tal como produzida por LK, é experimental e com grande ênfase na linguagem cinematográfica.
Nesta apresentação, pretendo ter como plano de fundo a obra completa e uma coleção de entrevistas e textos de LK, mas manter maior proximidade com “Cohab” e “Mutirão: o filme”, pequenos museus de cinema e moradia.
Bibliografia
- AZOULLAY, Ariella. História potencial: desaprender o imperialismo. São Paulo: Ubu editora, 2024.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia? Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.
FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta: Ensaios Para uma Filosofia da Fotografia. São Paulo: Annablume, 2013.
LK- PÉRICLES, Lincoln; FRANCO, Diego; KUHNERT, Duda; BOGADO, Maria. Entrevista com Lincoln Péricles: “O que a gente faz é impossível de se apagar”, Revista Beira, 2018.
LK – PÉRICLES, Lincoln; EDUARDO, Renan. Fazer cinema na quebrada é construir pequenos museus: uma conversa com Lincoln Péricles (LKT), camarescura, 2022.
LK – PÉRICLES, Lincoln. Participação de Lincoln Péricles LKT no debate “Direito a Memória Audiovisual”, 17º CINEOP, 2022.