Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Mamô Silva Carmo (UFMG)

Minicurrículo

    Mamô Carmo é bacharel em Antropologia pela UFMG e mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA. Pesquisa as relações entre corpo, raça, gênero e sexualidade em narrativas audiovisuais e a potência da criação de mundos a partir da imaginação. Atualmente é doutorande em Comunicação Social no PPGCOM/UFMG na linha de pragmáticas da imagem. Integra o grupo (An)arqueologias do Sensível e o Laboratório Experimental (An)arqueologias do Sensível

Ficha do Trabalho

Título

    Na encruza: Diálogos entre o afro-surreal e as transmutações de Castiel Vitorino Brasileiro

Seminário

    Tenda Cuir

Resumo

    Esta comunicação propõe dialogar a não-teria afro-surreal de Terri Francis com o curta-metragem Uma noite sem lua (2020) de Castiel Vitorino Brasileiro. Indago de que maneira podemos ler as transmutações elaboradas no filme pela ótica do afro-surrealismo para pensar o ato de “abandonar a linearidade e assumir a encruzilhada”. Quais encontros, desencontros e tensão são possíveis ao aproximar elaborações do afro-surreal com as transmutações do filme.

Resumo expandido

    Tratando o afro-surrealismo como um direcionamento de olhar, uma forma de leitura, esta comunicação propõe experimentar colocá-lo em diálogo com o curta-metragem Uma noite sem lua (2020) de Castiel Vitorino Brasileiro. O filme mescla imagens de arquivo com registros feitos pela artista e por outros, culminando em uma vídeo-performance poética que sem seguir normas de linearidade se expande cruzando vários debates. São nas margens e nas brechas que o fluxo do filme se forma, em um processo aberto de indeterminações que refletem sobre ser e estar no mundo. Indago de que maneira podemos ler as transmutações elaboradas no filme pela ótica do afro-surrealismo para pensar o ato de “abandonar a linearidade e assumir a encruzilhada”. Quais encontros, desencontros e tensão são possíveis ao aproximar elaborações do afro-surreal com as transmutações do filme.
    A raça em sua complexidade é, simultaneamente, real e fictícia (Mbembe, 2018). A negação da humanidade e a invisibilidade que são características do racismo trazem uma fantasmagoria implicada na existência negra. O corpo negro é enredado por temporalidades que se misturam (Mombaça, 2020), por aquilo que não mais é, mas que segue sendo assombrado por. A dimensão fantasmagórica da raça não está separada do processo de coisificação, que fragmenta o sujeito. A raça tem em sua constituição o campo da fantasia porque, em seu cerne, ela envolve projeções imaginárias materializadas em representações.
    O fabular nos cinemas negros é produzir imagens que faltam (Barros; Freitas, 2018) e, para isso, é necessário imaginar radicalmente outros mundos, desenterrar outras possibilidades. Partindo da constatação da imaginação como uma ferramenta histórica de resistência e uma forma de direcionar a ação, o afro-surrealismo oferece mapas de fuga, maneiras de utilizar o tensionamento da realidade para lidar com a desumanização imposta às pessoas negras e outras subjetividades dissidentes e desobedientes. O afro-surrealismo é trabalhado aqui em sua fluidez e multiplicidade, a partir da não-teoria de Terri Francis, com atenção à sua conexão com a Imaginação Radical Negra, articulada por Robin. D. G. Kelley.
    Na noção de que nem o afro-surrealismo, nem o surrealismo e sequer o surrea,l podem ser limitados em uma prescrição, uma definição ou uma ideologia, temos a não-teoria de Francis. Não-teoria porque tem seu caráter fugitivo, porque rompe fronteiras cruzando pontos comumente vistos como binários e despertando emoções contraditórias, obscurecendo significados. A não prescrição; o interesse em dialogar com outras formas de surrealismo e outras linguagens artísticas; o interesse na materialidade, na interdisciplinaridade de métodos e em reivindicações artísticas/políticas ou de sensibilidade (Francis, 2011, 2013a, 2013b) são traços do afro-surrealismo proposto pela autora que ressoam com o trabalho de Castiel Vitorino. Um afro-surreal entendido em textura e tom, encontrado e inventado, como um objeto comum, mas extraordinário. Ele é mais um poema do que um programa, é tátil, algo a ser sentido.
    Segundo Brasileiro (2020a), “o trauma racial é a experiência cotidiana de viver o tempo cronológico, que é o tempoespaço onde a raça torna-se possível e preciso”. Contra essa temporalidade colonial, ela propõe um tempo exusiático, “temporalidade cíclica e espiralada para todas as direções” (Brasileiro, 2020, p.1) onde a liberdade é possível. O afro-surreal ensina a olhar para o abismo. E entender que ele também carrega o mar. O afro-surreal é fluido, ele não se limita a algo fechado. Ele é fragmentado em mil pedaços que podem ser reconfigurados nas mais diversas figuras. E em algum lugar ele se encontra com a encruzilhada de Castiel Vitorino, esse espiralado que se espalha em infinitas direções feito o ar (Brasileiro, 2020b).

Bibliografia

    BARROS, L. M.; FREITAS, K.. Experiência estética, alteridade e fabulação no cinema negro. Revista ECO-PÓS, vol. 21, n.3: 97-121, 2018.
    BRASILEIRO, Castiel Vitorino. 2020. “Exú Tranca-Rua das Almas”. Plataforma EhChO.
    ______. Ancestralidade sodomita, espiritualidade travesti. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, n. 14, p. 40-47, jul. 2020.
    ______.Uma noite sem lua. Vídeo (27’30).Vitória, Guarapari, São Paulo, Berlin. 2020
    FRANCIS, Terri. Afrosurrealism in Film/Video. Black Camera, vol. 3 n. 1, 2011.
    ______. Meditation. Black Camera, vol. 5, n. 1, 2013a.
    ______. Introduction: The No-Theory Chant of Afrosurrealism. Black Camera, vol. 5, n.1, 2013b.
    KELLEY, Robin D. G. Freedom Dreams: the Black radical imagination. Boston: Beacon
    MBEMBE, A. Crítica da Razão Negra. São Paulo: n-1 edições. 2018.
    MOMBAÇA, Jota. A plantação cognitiva. MASP Afterall, 2020.