Ficha do Proponente
Proponente
- Mateus Araujo Silva (eca-usp)
Minicurrículo
- Mateus Araújo é doutor em filosofia (Sorbonne/UFMG) e professor de teoria e história do cinema na ECA-USP. Organizou ou co-organizou os livros Glauber Rocha / Nelson Rodrigues (2005), Jean Rouch 2009: Retrospectivas e Colóquios no Brasil (2010), Straub-Huillet (2012), Charles Chaplin (2012), Jacques Rivette (2013), Godard inteiro ou o mundo em pedaços (2015), O cinema interior de Philippe Garrel (2018), Glauber Rocha: crítica esparsa (2019) e Glauber Rocha: O Nascimento dos deuses (2019).
Ficha do Trabalho
Título
- Sujeito e mundo em Agnès Varda e Chantal Akerman
Seminário
- Estudos Comparados de Cinema
Resumo
- A comunicação compara as belgas Agnès Varda e Chantal Akerman, duas expoentes do cinema europeu do 2º pós-guerra, para discutir o modo como se articulam, no cinema de ambas, sua apreensão do mundo e seu exercício da subjetividade. Em Varda, pela transitividade entre o mundo mostrado e o eu da cineasta, que o filtra e por ele se deixa afetar; em Akerman, pela tensão frequente, na fatura dos filmes, entre a abertura para o mundo e a obsessão pela figura da sua mãe, com tudo o que ela representa.
Resumo expandido
- A comunicação abordará, com viés comparatista, duas realizadoras exponenciais do cinema europeu do segundo pós-guerra, as belgas Agnès Varda (1928-2019) e Chantal Akerman (1950-2015), que construíram filmografias preponderantemente francófonas, com ponto de ancoragem na França mas com parte significativa rodada nos Estados Unidos. Sua entrada no cânone do cinema mundial tem se consolidado nas últimas décadas, com o reconhecimento crítico geral e a acumulação de estudos de diversa procedência sobre seus respectivos trabalhos. Mais recentemente, pudemos aferir tal entrada pela eleição de Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce, 1080 Bruxelles (1975), de Akerman, como o mais importante filme de todos os tempos na última enquete decenal da revista inglesa Sight and Sound, de 2022 (e pela inclusão na lista dos Top 100 de 3 outros filmes das duas, em 14º, 52º e 67º lugar).
Embora informadas pela fortuna crítica de ambas as cineastas, a abordagem comparativa de seus filmes e a angulação da discussão previstas nesta comunicação se inscrevem num ciclo de pesquisas e estudos desenvolvidos nos últimos anos pelo proponente, que vem publicando e prepara novas publicações sobre as duas artistas, procurando atentar para a singularidade de seus respectivos projetos estéticos. A comunicação discutirá o modo como se articulam no cinema de ambas sua apreensão do mundo e seu exercício da subjetividade.
Em Varda, essa articulação se organiza por uma transitividade fluida entre o mundo mostrado e o eu da cineasta, que o filtra e por ele se deixa afetar. Tal transitividade se traduz pela conjunção aditiva “e”, presente no título brasileiro de um de seus melhores filmes, Os catadores e eu [Les glaneurs et la glaneuse, 2001], mas estrutura vários outros também, que poderiam ser descritos pela mesma fórmula: “A rua Mouffetard e eu” poderia ser o título de L’Opéra-Mouffe (1958); “Os cubanos e eu”, o título de Salut les cubains (1963); “Tio Yanco e eu”, o de Uncle Yanco (1967); “A rua Daguerre e eu”, o de Daguerréotypes (1975); “Los Angeles e eu”, o do díptico Mur murs (1980) e Documenteur (1981); “Uma foto de 1954 e eu”, o de Ulysse (1982); “Jane Birkin e eu”, o de Jane B. par Agnès V. (1987); “Jacques Demy e eu”, o do tríptico Jacquot de Nantes (1990), Les Demoiselles ont eu 25 ans (1992) e L’Univers de Jacques Demy (1995).
Em Akerman, a referida articulação assume a forma de uma tensão frequente, na estrutura mesma de seus filmes (dramaturgia, narrativa, montagem), entre, de um lado, a abertura para o mundo e, de outro, a obsessão pela figura da sua mãe (com tudo o que ela significa), presente em todo o seu itinerário de cineasta, do primeiro plano filmado por ela na juventude até o último longa-metragem que ela realizou (No Home Movie, 2015), pouco antes da morte da mãe, sucedida pela sua própria. Essa tensão organiza o fluxo, entre outros, de News from home (1976), Aujourd’hui, dis-moi (1980), Toute une nuit (1982), D’est (1993) e No Home Movie (2015).
Num caso como no outro, estaremos lidando com construções muito próprias da subjetividade das cineastas na lida com um mundo cada vez mais desafiador, entre a elaboração da experiência coletiva (trauma da Shoah, agressão ao Vietnã, emergência dos movimentos feministas, contracultura ocidental, desmantelamento do bloco soviético etc) e as novas formas de viver o cotidiano.
Bibliografia
- AKERMAN, Chantal. Oeuvre écrite et parlée (1968-2015), 3 volumes. Éd. Établie par Cyril Beghin. Paris: L’Arachnéen, 2024.
ARAUJO, Mateus. “Agnès Varda, da fotografia ao cinema”. São Paulo, IMS (Programa de cinema), março 2026, p.6-8.
_____. “Chantal Akerman, entre a mãe e o mundo”. In GARDNIER, Ruy (Org.). Retrospectiva Chantal Akerman. Rio de Janeiro, Cinemateca do MAM, 2023, p.10-29.
_____. “Um experimento documental: D’Est (1993), de Chantal Akerman”. In: Henri Gervaiseau, Marcius Freire & Paola Prestes Penney (Orgs.). Documentário: Território Expandido. São Paulo: Margem da Palavra, 2018, p.41-46.
_____. “Amor de filha” (sobre Toute une nuit, de Chantal Akerman). Devires (UFMG), Vol. 7, n. 1, jan/jun 2010, p. 138-147.
MARGULIES, Ivone. Nada Acontece: o cotidiano hiper-realista de Chantal Akerman. São Paulo, Edusp, 2016.
VARDA, Agnès. Varda par Agnès. Paris: Ed. Cahiers du Cinéma, 1994.
VVAA. Agnès Varda. Études cinématographiques n.179-186. Paris: Lettres Modernes, 1991.