Ficha do Proponente
Proponente
- Angela Nelly dos Santos Gomes (UFPA)
Minicurrículo
- Professora do curso de graduação em Cinema e Audiovisual da UFPA. Doutora em Comunicação (UFPA). Pesquisa cinemas indígenas da Amazônia e políticas públicas do cinema e audiovisual. Roteirista, documentarista, produtora e jornalista.
Ficha do Trabalho
Título
- Imagens e atuação da coalização da Mídia Indígena na COP30 como contranarrativa estético-política
Seminário
- Cinemas, Comunidades, Territórios: interpelações aos gestos analíticos
Resumo
- Este trabalho analisa a atuação e produção audiovisual de cineastas e comunicadores indígenas na 30ª Conferência Mundial do Clima, a COP30, realizada em Belém, Pará, em novembro de 2025, a partir da cobertura colaborativa feita pela rede de comunicação Mídia Indígena. O foco é a reflexão sobre as estratégias de apropriação da linguagem audiovisual e os processos e práticas acionados para demarcar telas, redes e mentes, e construir uma contranarrativa estético-política desde dentro ou situada.
Resumo expandido
- A apropriação da linguagem audiovisual pelos povos originários, no contexto contemporâneo latino-americano, configura uma prática que ultrapassa o domínio técnico, constituindo-se como ferramenta política e epistêmica de resistência. Durante a 30ª Conferência Mundial do Clima, a COP30, realizada em Belém, Pará, em novembro de 2025, o coletivo de comunicação Mídia Indígena elaborou estratégias próprias de atuação para produzir conteúdo, diante da discussão de temas que dizem respeito diretamente aos povos originários e tradicionais, e principalmente às regiões onde se situam seus territórios, como é o caso da Amazônia.
O coletivo Mídia Indígena foi criado em 2015 como alternativa descentralizada e autônoma para marcar presença nas redes digitais. Durante a CO30, empreendeu uma cobertura colaborativa como uma iniciativa inédita que reuniu comunicadores de diversas etnias para ocupar as redes sociais e midiáticas. Através de observação participante, entrevistas e análise de conteúdo do perfil do coletivo (@midiaindigenaoficial) na rede social Instagram, observamos a atuação dos comunicadores que se organizaram para produzir não apenas registros, como também manifestos audiovisuais simbólicos e políticos das atividades que ocorriam em diversos pontos de Belém, como Cúpula dos Povos, Aldeia COP, Green e Blue Zone, locais que sediaram debates acerca do impacto global das mudanças climáticas, além da Casa Maraká, ponto de encontro e eventos específicos promovidos pela Mídia Indígena. A organização prévia, a divisão das funções para a produção contínua de conteúdos indicam a conformação de uma coalizão digital que operou estrategicamente na ocupação das redes.
Pensando numa abordagem relacional da apropriação audiovisual, analisamos essa organização e conteúdo como uma prática situada que articula técnica, política e cosmologia. Nessa perspectiva, a utilização do cinema, da imagem e das redes digitais constituiu um modo de reorganizar os próprios circuitos de produção de sentido. Uma forma de “guerrilha simbólica” (Viveiros de Castro, 2017) em que tais ações foram elaboradas propositadamente para operar no campo das sensibilidades e das disputas de sentido, tensionando regimes hegemônicos de representação e instaurando outras formas de ver, narrar e existir.
A escolha por formatos como os vídeos no Instagram indica uma consciência dos regimes contemporâneos de atenção e engajamento, nos quais a linguagem audiovisual se adapta sem perder sua densidade política. Como aponta Castells (2017) na sociedade em rede, o ativismo digital potencializa a visibilidade e a articulação das lutas sociais. Observamos, por exemplo, que vídeos curtos informativos, e vídeos-manifestos, em formato Reels, articulam estética e política na construção de narrativas que expressam culturas, ancestralidades e a urgência da preservação do território amazônico.
É a utilização de linguagem e audiovisual para além da expressão artístico-cultural; como forma de extrair das imagens a potência de intervenção na realidade (Brenez, 2017), pois “na intersecção com as lutas por direitos, o cinema passou a ser tomado pelos indígenas como um instrumento de luta, ou uma ferramenta a serviço das suas lutas” (Gomes, 2024, p.21). A apropriação instrumental (Costa; Galindo, 2021), portanto, é tensionada por um gesto criativo e político que desloca o audiovisual de sua função representacional clássica para um campo de incidência sociopolítica.
Com isso, acionamos a noção de “demarcação de telas” (Krenak, 2021) para compreender como os comunicadores indígenas buscaram com essas ações e estratégias ocupar espaços previamente estabelecidos, estendendo as lutas territoriais para o campo simbólico-digital. A partir da coalizão em rede, os indígenas produziram uma contranarrativa estético-política “desde dentro”, fundada em suas próprias cosmologias, experiências e modos de vida, contribuindo para a reconfiguração das percepções sobre si, e neste caso, sobre a Amazônia.
Bibliografia
- BRENEZ, Nicole. Contra-ataques, sobressaltos de imagens na história da luta de classes. Levantes. São Paulo: Sesc São Paulo, p. 71-89, 2017.
COSTA, Gilson; GALINDO, Dolores. Produção audiovisual indígena no Brasil: cartografia de um percurso. Comunicação & Sociedade, [S. l.], v. 43, n. 1, p. 103–139, 2024.
Gomes, A. N. S. (2023). O cinema de luta dos Mêbengôkre-Kayapó: as múltiplas dimensões de resistência nos filmes e práticas de produção do Coletivo Beture. [Tese de doutorado, UFPA]. https://repositorio.ufpa.br/jspui/handle/2011/16680
Krenak, A. (2021) Intuir mitologias: audiovisual indígena, um cinema de ação. In: DUARTE, Daniel Ribeiro; ROMERO, Roberto; TORRES, Junia. (coord.). Cosmologias da imagem: cinemas de realização indígena. Belo Horizonte: Filmes de Quintal.
Viveiros de Castro, E. (2017) Os involuntários da pátria: elogio do subdesenvolvimento. Caderno de leituras, v. 65, p. 1-9.
CASTELLS, Manuel. Redes de indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet. 2017