Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    FELIPE BOSO BRIDA (PUCCAMP)

Minicurrículo

    Mestre em Artes Visuais pela PUC-Campinas, é graduado em Jornalismo pela Unirp, com especialização em Artes Visuais pela Unicamp e Gestão Cultural pelo Centro Universitário Senac. Autor do livro “Cinema em Foco”, é professor no Imes e Senac Catanduva. Atua com crítica de cinema desde 2004, cobre festivais como Berlinale e Mostra Intl. de Cinema de SP, é curador e júri de festivais como o Brafft (Toronto) e Anápolis (GO), comenta no jornal O Regional, blog Cinema na Web, Nova TV e rádio Vox FM.

Ficha do Trabalho

Título

    A infância maltratada no cinema de Sandra Kogut: análise fílmica de Mutum e Campo Grande

Mesa

    Audiovisual, infâncias e adolescências: representações, estéticas e consumos em múltiplas telas

Resumo

    A pesquisa investiga a representação da infância maltratada no cinema da diretora brasileira Sandra Kogut, a partir da análise fílmica de duas obras, Mutum (2007) e Campo Grande (2016). O objetivo é discutir como os personagens infantis são construídos e como reagem a um ambiente hostil, já que em ambos as crianças sofrem abusos como abandono e agressão psicológica. Para discutir os longas, que se enquadram no recente cinema de denúncia social brasileiro, foi recortada duas cenas de cada.

Resumo expandido

    Nas décadas de 1930 e 40, cineastas do mundo todo problematizaram questões sociais em torno de um cinema que ficou conhecido como “filmes de denúncia social” (BESKOW, 2016), em que procuravam resgatar personagens marginalizados, oprimidos, vítimas de guerra e mazelas, e dar destaque às suas vozes. Na França dos anos de 1930, por exemplo, houve o Realismo Poético e, na Itália de 1940, o Neorrealismo. No Brasil, nas duas décadas seguintes, jovens diretores inspirados no Realismo Poético e no Neorrealismo formalizaram um movimento chamado Cinema Novo, em que registravam uma série de problemas críticos do país, como a fome, a criminalidade e a marginalização das camadas mais pobres.
    Ao longo das décadas, esse universo continuou a ser explorado pelo cinema no Brasil, com diretores e diretoras como Hector Babenco, Walter Salles, Lúcia Murat e Sandra Kogut. Esta foi uma das poucas cineastas que reuniu o cinema de “denúncia social” à questão da infância — ou das “infâncias”, como diz Silva (2016), já que são várias as formas de viver essa fase da vida, a depender das relações estabelecidas entre crianças e adultos e das diferentes culturas e contextos socioeconômicos.
    Sandra Kogut (1965-) retratou em Mutum (2007) e Campo Grande (2016) crianças empobrecidas e vítimas de violências, como agressões físicas e verbais e abuso psicológico. Em Mutum, inspirado no livro Campo Geral (1964), de Guimarães Rosa, tem-se a história de um garoto de 10 anos chamado Thiago que vive com sua família no sertão de Minas Gerais, em um vilarejo chamado Mutum. Ele tem no irmão Felipe uma relação de intrínseca amizade, como forma de fugir dos abusos cometidos pelo pai autoritário. Já em Campo Grande, vê-se a dura jornada de um menino de oito anos, Ygor, abandonado pela mãe em frente a um condomínio de classe média em Ipanema, no Rio de Janeiro. Com ele está também a irmã pequena, Rayane. Perdidos, os irmãos são acolhidos por uma moradora do condomínio, Regina, que mora com a filha adolescente e enfrenta um processo de separação conjugal. Ela tenta a todo custo encontrar a mãe dos pequenos, que reside no bairro Campo Grande, na zona oeste do Rio.
    Nesta pesquisa, fruto da dissertação de mestrado defendida por mim na PUC-Campinas em 2022, procuro analisar as representações da criança empobrecida e maltratada nessas duas obras, a partir da construção dos personagens infantis, com foco principalmente nos protagonistas, Ygor e Thiago. Para isso, utilizo como metodologia a “análise fílmica”, em que se procura decompor elementos audiovisuais do filme, em planos, sequências, enquadramentos e trilha, além da história em si, com seus personagens, estabelecendo um entendimento desse conjunto (PENAFRIA, 2009). Portanto, a análise fílmica consiste em recortar fragmentos ou sequências inteiras de um filme e decompô-lo em elementos constitutivos, a partir de um roteiro do que se pretende discutir, descosturando e destacando materiais que não são percebidos no momento em que se vê o filme, já que ali se percebe a obra na sua totalidade (VANOYE; GOLIOT-LÉTÉ, 1992).
    Para a análise fílmica desta pesquisa, foram selecionadas duas cenas de cada filme, que mostram o complexo processo de amadurecimento das crianças envolvendo violências, respectivamente de Thiago e Ygor, e como eles se portam em ambientes opressores. Como resultado, entendo que o cinema produzido por Sandra Kogut pode ser visto como de resistência (SILVA,2016), pois as crianças são narradas em suas múltiplas relações com o mundo, complexas e contraditórias, e não de forma passiva e ingênua, de forma a desconstruir estereótipos da infância.
    Na pesquisa, debato ideias de James e James (2014), que defendem que “a vulnerabilidade não é um traço natural delas [as crianças], e sim uma condição que se forma mediante um conjunto de variáveis” (TOMAZ, 2023), e Marcello (2009), cujos trabalhos apresenta as diversas vivências e experiências das infâncias, ao mesmo tempo em que denuncia as condições duras em que milhares vivem.

Bibliografia

    BESKOW, C. A. O documentário no Nuevo Cine Latinoamericano: olhares e vozes de Geraldo Sarno (Brasil), Raymundo Gleyzer (Argentina) e Santiago Álvarez (Cuba). 2016. Tese (Doutorado em Meios e Processos Audiovisuais) – USP, 2016

    MARCELLO, F. A. Criança e imagem no olhar sem corpo do cinema. 2008. Tese (Doutorado em Educação) – UFRS, 2008

    PENAFRIA, M. Análise de filmes: conceitos e metodologia(s). In: CONGRESSO SOPCOM, 6., 2009, Lisboa, Anais… Lisboa: Sopcom, abr 2009

    SILVA, A. A. A infância no cinema: estética, políticas e poéticas. Crítica Educativa (UFSCAR – Campus Sorocaba), Sorocaba, v. 2, n. 2, p. 74-89, jul/dez 2016

    TOMAZ, R. O. Do YouTube à notícia: vulnerabilidade e agência nas representações de crianças produtoras de conteúdo. Galáxia, São Paulo (online), v. 48, p.1-24, 2023. Disponível em: . Acesso em: 21 abr. 2026

    VANOYE, F.; GOLIOT-LÉTE, A. Ensaio sobre a análise fílmica. Campinas: Editora Papirus, 1992