Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Silvia Okumura Hayashi (USP)

Minicurrículo

    Silvia Hayashi é Professora Doutora no Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo. Doutora em Meios e Processos Audiovisuais (ECA – USP) e mestre em Ciências da Comunicação (ECA – USP). Foi pesquisadora visitante na School of the Arts, Media, Performance Design da York University (Bolsista CAPES). Sua área de atuação docente abrange as áreas de montagem e pós-produção audiovisual.

Ficha do Trabalho

Título

    Urânia: vídeo-instalação, sistemas de vigilância e a crise de continuidade na montagem entre telas

Seminário

    Edição e Montagem audiovisual: reflexões, articulações e experiências entre telas e além das telas

Resumo

    Este trabalho propõe uma análise da montagem audiovisual de “Urânia – uma novela, um entretenimento, um meme, uma ficção”, vídeo-instalação de Renata Lucas. Construída a partir de imagens de câmeras de vigilância e por crises de continuidade entre o que aparece e desaparece entre o vídeo e os espaços expositivos, “Urânia” articula a relação entre múltiplas telas ao construir uma exposição que se desdobra como novela, meme, entretenimento e ficção.

Resumo expandido

    Urânia – uma novela, um entretenimento, um meme, uma ficção é uma vídeo-instalação em dois canais que mostra imagens de roubos que acontecem simultaneamente em locais separados por quilômetros de distância. Na tela da direita, imagens do circuito de câmeras do sistema de vigilância da galeria registram ladrões encapuzados que embalam e retiram obras de arte. O sistema multicâmera da galeria nos permite acompanhar o roubo à maneira de um filme do gênero heist. Na tela da direita um outro roubo acontece. Na escuridão noturna, nas amplas paisagens que as câmeras enquadram, os ladrões se parecem com pequenos pontos luminosos, vagalumes que saqueiam o canavial. Essa vídeo-instalação é um obra que integra a exposição de mesmo título de Renata Lucas, exibida simultâneamente nas galerias Luisa Strina e Marli Matsumoto entre setembro e outubro de 2025. Urânia aconteceu nesses dois espaços expositivos, mas não apenas. Recorrer ao subtítulo da exposição ajuda a investigar o que está em jogo. As palavras que seguem e adjetivam Urânia são novela, meme, entretenimento e ficção. A novela televisiva é o produto de maior presença no audiovisual brasileiro . Novelas são ficcionais, compostas por capítulos e o entretenimento é, nelas, central (HAMBURGER 2005). A definição de meme é a da unidade de informação cultural que se propaga rapidamente, como uma espécie de vírus que se espalha entre pessoas e dispositivos (DAWKINS 2007). Novelas e memes, ao menos no Brasil, têm uma relação imbricada. Ser espectador de novela é ser um propagador de memes. Entre o comentário nas redes sociais e a presença em larga escala em telas nos espaços públicos e privados (MANOVICH, 2020), a presença da novela é por vezes incontornável. Mas como “Urânia” acontece entre telas? O primeiro conjunto é o das câmeras de vigilância, das imagens que elas capturam e dos potenciais problemas que delas decorrem. O filme Os Mil Olhos do Dr. Mabuse (1960) já refletiu sobre a relação perigosa que pode existir entre sistemas de vigilância tecnológica, controle de informação, planos de dominação mundial e o caos (GUNNING, 2019). A visualização simultânea das múltiplas imagens capturadas pelo sistema de vigilância hoje tão corriqueira e onipresente em portarias de prédios é pouco associada ao assombro causado pelo surgimento de composições de quadros dentro de quadros criadas por Pablo Ferro na década de 1960 para o filme Crown, o Magnífico (1968), por coincidência ou não, também uma obra baseada nos temas do roubo e da prestidigitação. Urânia foi construída a partir das imagens das câmeras que operam 24 horas na vigilância das salas da galeria e no canavial, que afinal se movem para a galeria, onde a vídeo-instalação foi projetada numa parede. Nesse movimento, é preciso apontar um outro trânsito de imagens ou telas mobilizada pelo advento da vídeo-instalação, aquela que acontece entre a sala de cinema e a galeria de arte (UROSKIE, 2014). Além da vídeo-instalação uma série de memes foram editados com imagens de Urânia, e posts e reposts da artista, das galerias e dos visitantes acerca das obras expostas mantiveram o burburinho em torno da exposição. Assim como a telenovela, acompanhar Urânia, antes, durante e depois do período de vigência da exposição era acompanhar o rebuliço da trama nas redes sociais. Em textos escritos durante o processo de realização de Urânia, Renata Lucas descreve o desaparecimento de coisas e o reaparecimento em outros locais, produto de uma sequência de acontecimentos que se somam e se desenvolvem ao longo do tempo em diferentes espaços, como uma crise de continuidade. Um canavial que é roubado na vídeo-instalação exibida na Galeria Luisa Strina e um canavial é parte da exposição na Galeria Marli Matsumoto. Considerando o âmbito da ficção que Urânia abraça, a crise de continuidade não é mais a do cinema clássico mas a da pós-continuidade que usa as regras da continuidade de forma oportunista e ocasional dentro de um sistema narrativo (SHAVIRO, 2012).

Bibliografia

    AITKEN, Doug. The Broken Screen: Expanding the Image, Breaking the Narrative. New York and Los Angeles: D.A.P., 2006.

    BALSOM, Erika. After Uniqueness – A History of Film and Video Art in Circulation. New York: Columbia University Press, 2017.

    DAWKINS, Richard. O gene egoísta. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

    GUNNING, Tom. D. W. The Films of Fritz Lang – Allegories of Vision and Modernity. London: British Film Institute, 2019.

    HAMBURGER, Esther. O Brasil Antenado – A Sociedade da Novela. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.

    MANOVICH, Lev. Cultural Analytics. Cambridge: MIT Press, 2020.

    SHAVIRO, Steven. Post-continuity: full text of my talk. 2012. Disponível em: http://www.shaviro.com/Blog/?p=1034. Acesso: 22/04/2026.

    SHIFMAN, Limor. Memes in Digital Culture. Cambridge: MIT Press, 2013.

    UROSKIE, Andrew V. Between the Black Box and the White Cube Expanded Cinema and Postwar Art. Chicago and London: University of Chicago Press, 2014.