Ficha do Proponente
Proponente
- ANDREA MORAIS DE FARIAS (UFPA)
Minicurrículo
- Doutoranda e Mestre em Artes pela UFPA com extensão na USP, especialista em Cinema e Produção Audiovisual pela Estácio. Bolsista da Capes. Participante do Projeto de Pesquisa intitulado Laboratório de Análise Neoformalista do Cinema e Audiovisual: LAB NeoCine.
Ficha do Trabalho
Título
- Dispositivo de escuta e poética do encontro: alteridade na criação de O Outro e Eu.
Eixo Temático
- ET 5 – ETAPAS DE CRIAÇÃO E PROCESSOS FORMATIVOS EM CINEMA E AUDIOVISUAL
Resumo
- Esta pesquisa parte da realização do filme O Outro e Eu para investigar o cinema como dispositivo de escuta em práticas docuficcionais. O filme reúne homens convidados a narrar ou performar histórias de violência relacionadas ao universo feminino, articulando falas, gestos e memória. A partir de dispositivos abertos, tensiona os limites entre documentário e ficção, compreendendo o cinema como prática relacional e espaço de produção de alteridade.
Resumo expandido
- Este trabalho parte da realização do filme O Outro e Eu, atualmente em processo de criação, para investigar como o cinema pode operar como dispositivo de escuta e produção de alteridade em práticas docuficcionais contemporâneas. O filme propõe encontros com homens de diferentes idades, convidados a narrar ou performar histórias de violência relacionadas ao universo feminino, produzindo situações em que memória, imaginação e fabulação se entrelaçam. Ao deslocar esses sujeitos para um lugar de escuta e enunciação, o dispositivo tensiona posições de fala e ativa um campo relacional atravessado por assimetrias e distanciamentos, em diálogo com práticas de escuta no documentário brasileiro, especialmente em Eduardo Coutinho no filme Jogo de Cena (2007).
Inspirado em procedimentos centrados no encontro e na palavra, o filme se constrói a partir de dispositivos abertos, com um roteiro prévio, porém baseado na escuta, no improviso e na indeterminação, recusando estruturas narrativas limitadas em favor de uma criação que emerge no próprio acontecimento da filmagem. Trata-se, portanto, de um processo em que criação artística e investigação teórica se desenvolvem de modo simultâneo e interdependente.
Nesse contexto, o cinema é compreendido não apenas como meio de representação, é prática que produz situações nas quais o outro não é objeto de discurso. Tal perspectiva aproxima-se das reflexões de Ismail Xavier (2005) e Fernão Pessoa Ramos (2008), que compreendem o documentário como prática discursiva e relacional, atravessada por escolhas éticas e formais.
A pesquisa se inscreve no campo da pesquisa-criação, assumindo o processo artístico como espaço de produção de conhecimento. Parte-se da hipótese de que a relação entre eu e o outro não se reduz à representação, mas se configura como experiência ética e estética mediada por dispositivos que mobilizam falas, silêncios, representações e fabulações.
Em diálogo com Paul Ricoeur (1996), especialmente no livro O si-mesmo como um outro, o sujeito é compreendido como identidade narrativa, constituída na tensão entre permanência e transformação. A identidade pessoal, nesse sentido, não é fixa, mas construída na narrativa com o outro. Nesse sentido, a cena fílmica torna-se um laboratório de reconfiguração do sujeito, no qual narrar, escutar e performar implicam deslocamentos que desestabilizam identidades fixas e abrem a possibilidade de novas formas de existência, tanto de si quanto do outro.
Ao propor que homens testemunhem ou encenem experiências de violência que atravessam o universo feminino, o filme produz deslocamentos subjetivos e instaura uma zona de instabilidade entre experiência vivida e imaginação. Em um primeiro momento, os participantes narram uma história vivida ou escutada; em seguida, assumem, em cena, a posição de personagens, inclusive a do agressor, reinscrevendo essas narrativas por meio da performance, deslocando-se de uma identidade fixa para uma identidade em constante construção. A ficção, nesse contexto, não se opõe ao documentário, e sim, opera como estratégia poética que permite acessar dimensões subjetivas que excedem o dado empírico, aproximando-se de uma concepção de memória como imaginação ativa, conforme Gaston Bachelard (1960).
Assim, o estudo busca compreender o cinema como prática de produção de alteridade, na qual o gesto de escuta se afirma como operador central. Ao articular escuta, violência e imaginação, o trabalho dialoga com o tema “fins do mundo, mundos sem fim” ao conceber o cinema como território de ruína e emergência, onde o colapso das narrativas estáveis não conduz ao silêncio, mas à invenção de outras formas de dizer, lembrar, narrar, assistir e existir; um espaço em que o fim se desdobra como condição de possibilidade para que outros mundos apareçam, ora frágeis, ora potentes , que emergem no encontro com o outro que é outro e, simultaneamente, no outro que também sou eu.
Bibliografia
- BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
COUTINHO, Eduardo. Jogo de Cena. Rio de Janeiro: Videofilmes, 2007. Filme.
RAMOS, Fernão Pessoa. Mas afinal… o que é mesmo documentário? São Paulo: Senac, 2008.
RICOEUR, Paul. O si-mesmo como um outro. Campinas: Papirus, 1996.
XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. São Paulo: Paz e Terra, 2005.