Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Ana Lúcia Barbosa Moraes (UFRN)

Minicurrículo

    Professora Associada do DECOM – UFRN, integra os grupos de pesquisa EPA! – Grupo de Pesquisa em Economia Política do audiovisual e Plexo – Grupo de Trabalho em Perplexidades, Estudos interdisciplinares, Internacionais e Interinstitucionais. Pesquisa atualmente intervenções culturais, estratégias estéticas e políticas; arquivo e memória; migração, tradução e interpretação; relações entre pensamento e imagem.

Ficha do Trabalho

Título

    IMAGENS DE ARQUIVO E VERDADE EM FILMES DE NÃO FICÇÃO: O CASO DE PARAÍSO DE 2024

Resumo

    A proposta é analisar como estratégias estéticas presentes no filme não ficcional Paraíso, de 2024, de Ana Rieper, por meio de material de arquivo, constroem uma narrativa crítica sobre a Memória e a História do Brasil. A crítica da cultura de Nietzsche é a principal base teórica para postularmos que a pesquisa de linguagem e de imagens de arquivo que vemos em Paraíso coloca em questão a noção de verdade, tanto em relação à linguagem dos documentários, quanto a certas narrativas sobre o Brasil.

Resumo expandido

    Paraíso é um filme não ficcional brasileiro de 2024, com duração de 76 minutos, dirigido por Ana Rieper, cineasta com formação em Geografia, Antropologia e Cinema. Realizado em parceria com o Canal Curta! por meio de um edital do Fundo Setorial do Audiovisual de 2016, o filme constrói sua narrativa a partir da ressignificação de imagens de arquivo como instrumento de crítica. A obra teve sua primeira exibição no Brasil durante a 20º CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, em 2025, na qual conquistou o prêmio Vila Rica de Melhor Filme.
    Rieper caracteriza o documentário como um filme-ensaio que se debruça sobre a herança colonial na família brasileira, conduzindo-nos com ironia a observar as relações fundadas pelo latifúndio, pelo patriarcado e pelo racismo, entre outros pontos, cuja permanência atravessa gerações, ainda exercendo influência decisiva na contemporaneidade. Segundo ela, o “objetivo nesse filme era questionar a maneira como a história havia sido escrita e contada, principalmente a parte em que o Brasil se constrói como terra da cordialidade e da gentileza, enquanto vivemos uma violência brutal” (Maruchel, 2025).
    A linguagem do filme se propõe a funcionar como um fluxo de consciência no sentido em que os temas vão surgindo de maneira aparentemente desconexa. Para a diretora, chega-se a um ponto do filme, em que o nexo surge justamente quando o confronto dos temas revela-se nas contradições que a sociedade tenta mascarar. A partir dessa linguagem experimental, a narrativa, segundo Rieper, é construída junto com sua equipe, por meio de alguns elementos: seis núcleos de personagens contemporâneos, evidenciando suas trajetórias de vida; materiais de arquivos brasileiros de natureza diversa; intenso estudo junto a pesquisadores sobre a vida privada no Brasil Colônia/Império e a narração de Elisa Lucinda em voz off desses textos; além de uma seleção minuciosa de trilha musical.
    Esses elementos pertencem a tempos históricos distintos e, ao longo da narrativa, vão sendo reorganizados para fortalecer a crítica proposta. Portanto, no decorrer do filme, os diferentes elementos parecem não entrar em sintonia, mas de fato um está complementando ou distorcendo o outro para criar sentidos. O uso de material de arquivo funcionaria de forma semelhante à apontada por Éric Blondel no texto nietzschiano, como se o material de arquivo funcionasse como citações – como se fossem imagens entre aspas.
    Observando as críticas feitas ao filme, aparentemente, este recurso não fica claro ou é percebido como uma espécie de cinismo (Carmelo, 2025). Mas, parece-nos que, em Paraíso, o uso de imagens de arquivo funcionaria como base para uma crítica da moral e da cultura, inclusive porque o filme sublinha o discurso forjado para criar uma imagem do Brasil de país harmônico, o que dialogaria com o núcleo da análise nietzschiana, na qual a linguagem moral forjaria palavras (ou conceitos), “não somente não-isomorfas à linguagem dos fortes ou ao texto da realidade, mas semanticamente vazias ou positivas, sem nenhuma referência ao real, sem referido” (Marton, 1985, p. 125). Em Paraíso, percebe-se a denúncia do discurso moral da família patriarcal brasileira, mas também a criação de uma linguagem que lança mão de artifícios explícitos para realizar tal denúncia, sem cair no maniqueísmo de querer dizer a verdade, criticando na linguagem mesma do documentário o discurso moral, que Nietzsche denuncia – a exigência de se dizer a verdade.
    Não se trata de uma tentativa de retratar fielmente a realidade brasileira, mas de criar uma expressão da realidade desconexa latino-americana em sua herança colonial. Ao fazê-lo, Rieper indica que está fazendo arte, criando artifícios e realizando uma pesquisa que além de estética, é também política.

Bibliografia

    Professora Associada do DECOM – UFRN, integra os grupos de pesquisa EPA! – Grupo de Pesquisa em Economia Política do audiovisual e Plexo – Grupo de Trabalho em Perplexidades, Estudos interdisciplinares, Internacionais e Interinstitucionais. Pesquisa atualmente intervenções culturais, estratégias estéticas e políticas; arquivo e memória; migração, tradução e interpretação; relações entre pensamento e imagem.