Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Gustavo Sant’Anna (ECA-USP)

Minicurrículo

    Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais da ECA – USP. Na mesma instituição, graduou-se no Curso Superior do Audiovisual, apresentando como Trabalho de Conclusão de Curso, a pesquisa “Vigilância nos filmes de Michael Mann e Abel Ferrara”. Na pós-graduação, busca estabelecer um diálogo entre as obras de John Cassavetes, Abel Ferrara e irmãos Safdie, debruçando-se sobre um trio de filmes.

Ficha do Trabalho

Título

    Dívida de jogo: os filmes de John Cassavetes, Abel Ferrara e Irmãos Safdie

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    A comunicação propõe uma análise comparativa entre três filmes: “A morte de um bookmaker chinês” (1976), de John Cassavetes, “Go Go Tales” (2007), de Abel Ferrara, e “Joias brutas” (2019), dos irmãos Safdie. Dada a abundância de relações entre tal conjunto de filmes, iremos nortear a análise a partir da figura de seus protagonistas – cada um, à sua maneira, busca uma forma de manter seu estabelecimento em meio às dívidas decorrentes do vício em jogos de azar.

Resumo expandido

    A cena de abertura de “A morte de um bookmaker chinês” é emblemática: o protagonista, Cosmo Vitelli (Ben Gazzara), realiza o pagamento de uma dívida acumulada de sete anos. Cosmo é dono de um strip club, em Los Angeles, chamado Crazy Horse West, ele adquire uma nova dívida em um jogo de poker e, ameaçado pelo gângster Mort (Seymour Cassel) e por sua trupe, aceita, em troca do perdão financeiro, matar um bookmaker chinês. Em “Go Go Tales”, Ferrara realiza sua versão do filme de Cassavetes. Ray Ruby (Willem Dafoe), em meio às dívidas decorrentes do vício em loteria e do fracasso comercial de seu strip club (o Ray Ruby’s Paradise, em Nova Iorque), deve lidar com a ameaça de despejo e com o motim de suas dançarinas. Howard Ratner (Adam Sandler), em “Joias Brutas”, é um joalheiro no Diamond District de Nova Iorque que, em virtude de seu vício em apostas em jogos de basquete, está endividado. Para pagar seus credores, Ratner busca estratégias para recuperar o dinheiro, mas, sempre que consegue qualquer quantia significativa, decide realizar uma nova aposta.
    Joias Brutas não é um remake de nenhum dos filmes citados, entretanto, há alguns paralelos notáveis. Em termos narrativos, como demonstramos por meio de breves e simplificadas sinopses, os três filmes compartilham um protagonista cujo problema com o jogo gera uma ameaça direta à própria vida e/ou a seu estabelecimento: Howard e Cosmo têm sua integridade física ameaçada por seus credores; Cosmo coloca sua boate como salvaguarda de sua dívida e Ray se encontra na iminência do despejo.
    Estabelecer uma aproximação entre os entre os cineastas, sobretudo no que diz respeito ao par Cassavetes-Ferrara, não configura uma novidade. A influência de Cassavetes na obra de Ferrara também foi, por muitas vezes, publicizada pelo realizador – o mesmo vale para os Safdie que, em diversas oportunidades, citaram a obra dos outros dois realizadores aqui mencionados – Ferrara, inclusive, já fez aparições como ator nos filmes dos irmãos. Nesse contexto, nos parece fundamental olhar de perto para tais obras, permitindo destrinchar, de fato, as aproximações e distanciamentos possíveis a partir de tal premissa comum: o vício em jogo de seus protagonistas.
    A escolha por direcionar, em um primeiro momento, o olhar sobre os protagonistas de cada filme evocará, naturalmente, a abordagem de outros aspectos de cada um deles. Nesse caso, veremos como o vício coloca cada uma das personagens em situações-limítrofe, tornando-se um terreno fértil para a efervescência de algumas das características formais e narrativas mais marcantes na obra de cada um dos diretores.
    Ainda, em consonância com o texto escrito por Nicole Brenez (2007) – no qual, para além dos filmes de Cassavetes e Ferrara ela aborda o filme “A Loja da Esquina” (1940), de Ernst Lubitsch – identificamos na figura de Cosmo e Ray uma projeção de seus realizadores, dois ícones de um certo cinema independente americano. Cassavetes não raro se referia aos produtores de Hollywood como gângsters. Ferrara, de modo similar, se revoltou com o sistema de produção estadunidense e, não por acaso, passou, a partir do início do século XXI, a buscar coproduções europeias – “Go Go Tales”, por exemplo, é um filme ambientado em Nova Iorque mas filmado inteiramente na Cinecittà, em Roma. A carreira dos irmãos Safdie, por sua vez, também se inicia em um contexto de produção independente e, embora, eles estejam cada vez mais assimilados pela indústria e “Joias” seja uma produção da Netflix, foram necessários dez anos para que eles conseguissem financiamento para a realização do filme. Tal qual Ray e Cosmo, Howard possui a mesma ânsia por defender seu estabelecimento e por ver no jogo, ainda que de modo deturpado, uma chance de salvá-lo. Dessa forma, a discussão parece enriquecer quando olhamos para esses personagens como extensões de seus realizadores.

Bibliografia

    BRENEZ, Nicole. Abel Ferrara. Chicago: University Of Illinois Press, 2007
    ________. Shops of Horror: Notes for a Visual History of the Reification of Emotion in a Capitalist Regime, or (to put it more bluntly) “Fuck the Money”. Tradução de Adrian Martin. Rouge, n. 11, out. 2007.
    ________. On the figure in general and the body in particular. Londres: Anthem Press, 2023.
    CARNEY, Raymond. (ed.) Cassavetes on Cassavetes. Londres: Faber & Faber, 2001.
    CHIARETTI, Maria. O cinema instável de Jacques Rivette e John Cassavetes: happening, improvisação, teatralidade. 2019. 216p. Tese (Doutorado) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2019.
    FELTRIN, Rafael. Abel Ferrara: questões de estilo. 2020. 143p. Dissertação (Mestrado) ― Escola de Comunicações e artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2020.
    OLIVEIRA JR, Luiz Carlos. A mise en scène no cinema: do clássico ao cinema de fluxo. Campinas: Papirus, 2013.