Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Paulo Cunha (iA*, UBI)

Minicurrículo

    Paulo Cunha é Professor Associado em Artes e investigador integrado do iA* Unidade de Investigação em Artes da Universidade da Beira Interior. Diretor do Mestrado (2018-2022) e da Licenciatura em Cinema (2022-2023, 2026) na UBI. Cocoordenador do GT “Cinemas pós-coloniais e periféricos” da AIM desde 2015, editor da Aniki : Revista Portuguesa da Imagem em Movimento (2018-2020, 2024-2026) e curador do festival Curtas Vila do Conde e Cineclube de Guimarães.

Ficha do Trabalho

Título

    “O riso e a faca”: no cruzamento entre Che Guevara e Frantz Fanon

Mesa

    Imagens anti-coloniais da contemporaneidade

Resumo

    O objetivo desta proposta é, com base numa análise narrativa e contextual, refletir sobre o processo criativo do filme “O riso e a faca” (2025, Pedro Pinho). A partir de propostas metodológicas interseccionais (Brah, 2022; Hickney-Moody & Garf, 2024), serão identificadas e analisadas as formas como o filme se relaciona com as complexas dinâmicas entre indivíduos, comunidade e relações de poder e de opressão que vigoram desde o passado histórico colonial.

Resumo expandido

    Poucas horas após chegar de carro a Bissau, depois de atravessar o deserto Sahara, Sérgio (Sérgio Coragem) é surpreendido num táxi coletivo pela misteriosa Diara (Cleo Diára), que dá instruções ao motorista para a deixar no cruzamento da Che Guevara com Frantz Fanon. A Praça Che Guevara é bem conhecida no centro da cidade de Bissau, no cruzamento da Avenida Domingos Ramos (guerrilheiro do PAIGC morto pelas tropas coloniais) e da Rua Eduardo Mondlane (fundador e primeiro presidente da FRELIMO, movimento de libertação moçambicano, morto num atentado terrorista não reivindicado). No entanto, não existe na capital guineense nenhum elemento toponímico com referência ao psiquiatra e filósofo pan-africanista que se destacou na luta pela independência da Argélia. Para além do português branco Sérgio e da guineense mestiça Diara (interpretada por uma atriz cabo-verdiana), o triângulo central da narrativa de “O riso e a faca” (2025, Pedro Pinhp) completa-se com Gui (Jonathan Guilherme), um brasileiro queer que fugiu para a Guiné-Bissau e integra uma comunidade de expatriados progressistas.

    Em declarações aquando da estreia no festival de Cannes, o cineasta Pedro Pinho explicou que “O riso e a faca”, a sua segunda longa-metragem de ficção, uma coprodução entre Portugal, Brasil, França e Roménia, “não serve necessariamente para criticar, mas para levantar questões e problemas”, sublinhando a intenção de promover debates políticos e questionar o desequilíbrio na representação mediática europeia sobre o Sul Global. Pedro Pinho denunciou que “todos os canais de produção de discurso estão nas mãos de uma elite, que tem uma agenda própria, que não é necessariamente a agenda da diversidade, reflexão e igualdade”. O cineasta criticou também a “filtragem que é feita pelos meios de comunicação europeus”, referindo que “tudo o que não é Europa, é miséria, desgraça, guerra e fome”. Na sua perspetiva, esta “é uma visão empobrecedora, muito colonial e muito racista”.

    Assim, o objetivo desta proposta é, com base numa análise narrativa e contextual, refletir sobre o processo criativo do filme “O riso e a faca” (2025, Pedro Pinho). A partir de propostas metodológicas interseccionais (Brah, 2022; Hickney-Moody & Garf, 2024), serão identificadas e analisadas as formas como o filme se relaciona com as complexas dinâmicas entre indivíduos, comunidade e relações de poder e de opressão que vigoram desde o passado histórico colonial. Também será analisado o discurso produzido em torno do filme por Pedro Pinho, diretor e co-argumentista, e as suas repercussões no contexto mediático português.

Bibliografia

    Andrade-Watkins, C. (1995). Portuguese African cinema: Historical and contemporary perspectives, 1969 to 1993. Research in African Literatures, 26(3), 134–150. https://www.jstor.org/stable/3820143

    Brah, A. (2022). Decolonial Imaginings. Intersectional Conversations And Contestations. Goldsmith Press

    Diawara, M. (2000). In search of Africa. Harvard University Press.

    Hall, S. (2003). Da diáspora: Identidades e mediações culturais. UFMG.

    Hickney-Moody, A. & Garf, D. (2024). Disability, intersectionality, and decolonial perspectives from the global south. In The Routledge International Handbook of Critical Disability Studies. Routledge.