Ficha do Proponente
Proponente
- Ana Maria Acker (UniRitter)
Minicurrículo
- Doutora em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e mestra pela mesma instituição. Professora dos cursos de Cinema, Jornalismo, Publicidade e Propaganda e Relações Públicas do Centro Universitário Ritter dos Reis – UniRitter. É bacharela em Comunicação Social – Jornalismo e especialista em Cinema pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos.
Ficha do Trabalho
Título
- The Backrooms (2019) e a experimentação do horror que atravessa dimensões da Internet ao cinema
Seminário
- Estudos do Insólito e do Horror no Audiovisual
Resumo
- A proposta investiga o curta The Backrooms (2019) e as produções que dele derivam a partir do found footage de horror e as relações com a Internet. A exploração dos espaços liminares possui conexões com a franquia V/H/S, que tem vários filmes entre 2012 e 2025. Por meio da análise das imagens técnicas e o incômodo claustrofóbico gerado pela câmera subjetiva diegética, argumentamos que as ambiências de passado que se repetem nos cenários dão indícios de sensações obtusas acerca dos usos da web.
Resumo expandido
- Ao concluir a tese de doutorado O dispositivo do olhar no cinema de horror found footage, em 2017, cheguei a apostar em saturação e certo esgotamento do estilo com o lançamento de obras de grande apelo de público e crítica, tais como A Bruxa (2016), de Robert Eggers ou Invasão Zumbi (2016), de Yeon Sang-ho. Essa inferência não se consolidou em razão do aumento de produções do que chamei de desktop horror (Acker; Monteiro, 2020), filmes produzidos totalmente por interfaces computacionais, como Amizade Desfeita (2014) e Amizade Desfeita 2 – Dark Web (2018). Ou seja, a premissa de filmes de gravações encontradas ou falsos documentários de horror se alarga muito e mantém como fio condutor diversificados dispositivos, artefatos, e a geração de imagens reiteradamente com alguma falha, distorção. A franquia V/H/S, com produções entre 2012 e 2025, constitui um esforço de experimentação no gênero, pontos de inflexão entre o horror e as ruínas da imagem. Neste contexto, é lançado em 2019 The Backrooms, dirigido por Kane Parsons (Pixels), baseado em uma creepypasta da Internet com narrativas sobre espaços liminares. A proposta investiga o curta e as produções que dele derivam a partir do found footage de horror e as relações com o universo digital.
As histórias das backrooms tiveram início em 2019 com a publicação de uma foto no 4chan de uma sala corporativa antiga vazia, de paredes amareladas e piso de carpete, acompanhada de uma legenda que referia possíveis passagens, noclip, para outras dimensões. A discussão no fórum permitiu uma expansão em outras apropriações, wikis, publicações de uma infinidade de fotos de lugares vazios, abandonados. Todo esse universo serviu de inspiração para Parsons impulsionar a saga, que em 2026 se tornou o longa Backrooms, também dirigido por ele e com o selo da A24.
A exploração dos lugares vazios e estranhamente familiares possui conexões com a franquia V/H/S. Por meio da análise das imagens técnicas e o incômodo claustrofóbico gerado pela câmera subjetiva diegética, argumentamos que as ambiências de passado que se repetem nos cenários dão indícios de sensações obtusas acerca dos usos da web (Crary, 2023; Fisher, 2020, 2022; Han, 2022; Kaufman, 2022). Munhoz (2022) vê as raízes antropológicas da liminaridade como um rito de passagem, transição de um estado a outro. Esses espaços, salienta o autor, podem incitar a memória do espectador que já os viu em algum momento. No horror, as passagens para outras dimensões ou conexões com o sobrenatural estão em uma infinidade de narrativas desde a literatura até games de realidade imersiva (Murray, 2003).
Nosso olhar para The Backrooms intenta perceber como esses novos desdobramentos do found footage com interfaces de Internet evidenciam traços da nossa experiência estética e incômoda com os ambientes digitais. O vazio dos lugares, a solidão do personagem que se desloca por labirintos que mais parecem infinitos reverberam um descolamento do mundo, um não-lugar que simboliza o quanto “a tela que determina nossa experiência do mundo nos protege da realidade. O mundo é desrealizado, descoisificado e descorporificado” (Han, 2022, p. 97).
Para Jonathan Crary (2023), a patologia da internet não é o que se passa nos ambientes menos acessíveis, “mas na naturalização do modo como nossas necessidades, desejos e afeições são desviados ou apartados do compromisso com o cuidado com um mundo vivido em comum com os outros” (p. 77). O universo Backrooms mostra personagens sozinhos, avançando por meio de coisas, espaços pouco iluminados e de aparência retrô, o que pontua uma imersão no digital que não traz perspectiva de futuro, mas um retorno e manutenção do passado. Ao citar Franco Berardi, Mark Fisher (2022) observa o lento cancelamento do futuro e como os efeitos do capitalismo tardio deixa as pessoas em um “estado simultâneo de exaustão e superestimulação” (p. 33). O filme de Parsons reitera a anomia do aparato internético e a impossibilidade de transformação.
Bibliografia
- ACKER, Ana Maria. O dispositivo do olhar no cinema de horror found footage. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação – UFRGS. Porto Alegre, 2017.
CÁNEPA, Laura. Um inventário de mídias mortas: reflexões sobre obsolescência tecnológica na franquia V/H /S. Abusões, Rio de Janeiro, n. 27, 2025.
CRARY, Jonathan. Terra arrasada: além da era digital, rumo a um mundo pós-capitalista. São Paulo: Ubu Editora, 2023.
FISHER, Mark. Fantasmas da minha vida: escritos sobre depressão, assombrologia e futuros perdidos. São Paulo, SP: Autonomia Literária, 2022.
HAN, Byung-Chul. Não-coisas: reviravoltas do mundo da vida. Petrópolis, Rj: Vozes, 2022.
KAUFMAN, Dora. Desmistificando a inteligência artificial. Belo Horizonte: Autêntica, 2022.
MUNHOZ, Pedro Schereiber. Cenografia e espaços liminares. [S.l.]: Unesp, 15 fev. 2022.
MURRAY, Janet. Hamlet no holodeck: o futuro da narrative no ciberespaço. São Paulo, Itaú Cultural: UNESP, 2003.