Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Denise Costa Lopes (PUC-Rio)

Minicurrículo

    Professora do curso de Comunicação da PUC-Rio e de cursos livres independentes de Cinema, Pintura e Arte Contemporânea. Doutora em Artes Visuais pela EBA/UFRJ. Sua área de interesse se encontra na confluência do cinema com as outras artes, em especial com a pintura.

Ficha do Trabalho

Título

    O espectador como agente da imaginação em O Agente Secreto: pirraça, fabulação e contra-arquivo

Mesa

    Cinema, Arte, Política – entre deslocamentos e invenções III

Resumo

    Em O Agente Secreto, o espectador pode ser lido como o próprio agente do título que infiltrado na trama espreita o protagonista e reconstrói pela imaginação o período que se tentou apagar. Citações de diferentes imaginários da época, fundados sobretudo pelo cinema, demonstram o poder de fabulação da imagem em resgatar memórias coletivas silenciadas. Enquanto o dispositivo estético da pirraça, como recusa e desvio da história oficial dos anos 70, ativa um contra-arquivo de imagens sobreviventes.

Resumo expandido

    Em O Agente Secreto (2025), de Kleber Mendonça Filho, o espectador funciona como um agente infiltrado da imaginação, que, ao espreitar o protagonista pela trama, reconstrói o período de exceção do regime militar que se tentou apagar. É ele que, diante de lacunas, referências cruzadas, pistas falsas, pontas soltas, numa profusão estonteante de elementos deliberadamente fragmentados, conflitantes e inconclusos, será convocado a fabular a imagem pelo dispositivo estético da pirraça. Entendida como gesto de recusa, resistência, desvio e provocação formal, a pirraça não apenas desorganiza a narrativa, mas institui um regime sensível em que a imaginação deixa de ser acessória e passa a ser o motor da experiência. É nesse espaço instável que a imagem se afirma como potência fabulatória, não para reproduzir o real, mas para reinscrevê-lo como problema.
    A fabulação crítica da imagem articula-se, assim, a uma política do olhar. O espectador emancipado (Rancière) constrói conexões a partir de restos, sobrevivências e choques de registros heterogêneos diversos. A narrativa se oferece como campo de montagem, onde o visível e o dizível são reconfigurados. Nesse processo, o filme aproxima-se da ideia de fábula cinematográfica (Rancière), em que a história não se organiza pela causalidade linear clássica, mas pela intensidade das relações entre imagens, sons e afetos a fim de criar possíveis poéticas da metamorfose.
    As referências cinematográficas cruzadas desempenham papel central nessa dinâmica. O filme revisita uma constelação de gêneros, movimentos e estilos _ trash, surrealista, experimental, hollywoodiano, realista fantástico, noir, terror, thriller, western, etc. _, mas é na filiação ao Cinema Marginal e à Boca do Lixo que sua estética parece encontrar uma relação mais próxima. A presença do grotesco, do trash, do erótico, da violência, do cômico, do horrendo, do escatológico, do gore, do deboche, do escracho, retoma a lógica contracultural desses movimentos, para os quais a desordem formal e a anarquia constituíam uma resposta à opressão histórica de regimes de exceção e miséria. Sem possibilidade de mudanças reais, a “avacalhação” emergia como linguagem, rejeição do acabamento e da transparência narrativa, e forma de revolta e expressão estética capazes de transformar precariedade em estilo e insubordinação.
    A partir da noção foucaultiana de contra-arquivo, o filme tensiona por meio de imagens que escapam à normatização o arquivo oficial, instaurando uma arqueologia descontínua, feita de fissuras e reaparições. É nesse ponto que se articula a dimensão warburguiana das imagens sobreviventes em O Agente Secreto: fragmentos visuais de diferentes tempos e origens que persistem, retornam e se reconfiguram, assombrando o presente. As imagens não funcionam apenas como citações, mas como vestígios ativos que atravessam a história, criando uma temporalidade anacrônica pulsante.
    A imaginação, nesse contexto, não é mera faculdade subjetiva, mas uma prática relacional, como sugere Lennon ao pensar o imaginário como dimensão constitutiva da experiência. Em diálogo com essa perspectiva, o filme evidencia que imaginar é também um modo de conhecer. Ao preencher lacunas, projetar sentidos e articular memórias, o espectador participa da construção de uma realidade possível. A imagem cinematográfica não se limita, assim, a representar, mas engendra mundos, ativando uma experiência em que o real e o imaginado se entrelaçam de forma indissociável.
    Desse modo, O Agente Secreto se configura como um dispositivo de fabulação crítica. Ao estabelecer uma estética da pirraça e apresentar um emaranhado de referências cinematográficas, o filme convoca o espectador a assumir o risco da criação pela imaginação, transformando-o em coautor de uma história que resiste ao apagamento. Entre o arquivo e sua negação, entre o passado e suas sobrevivências, a obra afirma o cinema como espaço privilegiado de resistência política e de reinvenção do sensível.

Bibliografia

    DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 1985.
    DIDI-HUBERMAN, Georges. A imagem sobrevivente: história da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.
    ELSAESSER, Thomas; HAGENER, Malte. Teoria do cinema: uma introdução pelos sentidos. Campinas: Papirus, 2018.
    FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.
    LENNON, Kathleen. Imagination and Imaginary. New York: Routledge, 2015.
    MENDONÇA FILHO, Kleber. O agente secreto. São Paulo: Amarcord, 2025.
    RAMOS, Fernão Pessoa. Cinema Marginal (1968/1973): A Representação em seu Limite. São Paulo: Brasiliense, 1987.
    RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
    ________. A fábula cinematográfica. Campinas, SP: Papirus, 2013.
    ________. O destino das imagens. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012.
    ________. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Editora 34, 2005.