Ficha do Proponente
Proponente
- Gabriel Lucas Lima da Silva (UFPE)
Minicurrículo
- Gabriel Lucas é mestrando em Comunicação no Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). É graduado em Letras/Português pela mesma instituição e atua como docente de Língua Portuguesa em rede privada de ensino.
Ficha do Trabalho
Título
- A realidade se revela a mim: a poesia e a loucura em “Através de um espelho”, de Ingmar Bergman
Eixo Temático
- ET 2 – INTERMIDIALIDADES, TECNOLOGIAS E MATERIALIDADES FÍLMICAS E EPISTÊMICAS DO AUDIOVISUAL
Resumo
- Este trabalho busca discutir a presença da poesia e do gesto poético sob o arquétipo da loucura e da embriaguez em “Através de um espelho” (Ingmar Bergman, 1961), especialmente na composição dramática e na forma com que o longa rompe com os limites do sensível e do visível. Procuro entender como a escrita da poesia serve de base para a sobreimpressão, na narrativa, de afinidades estéticas e filosóficas entre as personas e realidades metafísicas sugeridas pelo encontro entre palavra e imagem.
Resumo expandido
- Esta proposta faz parte de um projeto de pesquisa maior, a partir do qual busco investigar as afinidades estéticas e filosóficas entre a poesia e o cinema nos filmes de Ingmar Bergman e Alain Resnais. Para isso, tenho me preocupado não somente com a relevância das ideias primeiras de Pasolini (1982) para um possível cinema de poesia nas realizações fílmicas, como também nas associações que podem ser estabelecidas entre estas e a obra de determinados poetas da literatura mundial.
Em Através de um espelho (Ingmar Bergman, 1961), acompanhamos um pequeno núcleo familiar durante o verão numa pequena ilha. Karin, juntamente de seu esposo, de seu irmão e de seu pai, procura recuperar-se de um recente colapso nervoso que aparentemente encontra-se sob controle. No entanto, é através do retorno de suas alucinações que Bergman irá propor uma reflexão filosófica sobre as zonas limítrofes entre o real e o irreal, entre a racionalidade e a loucura. Ora, o estudo sobre o sublime e a introspecção se apresenta, também, nos poemas do sueco Gunnar Ekëlof, agudamente matizados pela dúvida, pelo desassossego e pelo surrealismo existenciais.
Ao recuperar a experiência do mundo como embriaguez dionisíaca do sujeito – por meio dos sentidos e do espírito –, Nietzsche (1992) pressupõe no sujeito uma predisposição ao princípio de individuação, ou seja, uma maneira de acomodar os seus instintos mais profundos e primitivos. Torna-se evidente, assim, como a experiência de Karin – discursivamente tão próxima de um estado clínico de psicose – parece se desvencilhar cada vez mais da racionalidade da existência. Por meio de seus gestos, somos levados a questionar o seu estado de loucura e a perscrutar outras maneiras (ir)racionais de compreender os seus modos de ver e existir no mundo.
Igualmente relevantes, as ideias de Octávio Paz (1982) aproximam a fenomenologia e a metafísica das coisas ao estado amorfo da poesia. Esta constitui-se de uma forma insigne de libertação do espírito que, apesar de vinculada à escrita do poema, não se restringe unicamente a ele. Logo, o poético também se mostra presente no limiar entre o gesto narrativo e a sua suspensão, como defende Sitney (2015), no cinema de Bergman, especialmente pelos usos da investigação psicanalítica sobre a mente que pensam a transcendência da palavra e da imagem. Enquanto imagem-afecção, por sua vez, Deleuze (1985) defende o niilismo em Bergman e a convenção abissal que existe no gesto de olhar: em primeiro lugar, a câmera-olho que nos permite observar o que existe através da janela, na infinitude do espaço que excede o lar fragmentado; em segundo, o olhar dos personagens que se debruçam sobre si e os fenômenos que permeiam a sua existência progressivamente inconstante.
A aproximação cada vez mais intensa de sua narrativa com o sonho, com o enigma e com uma embriaguez pelo irracional nos permite observar como “Através de um espelho” experimenta com o gesto poético, sobretudo na manifestação de metáforas visuais. A relação de espelhamento, que por sua vez não aparece de forma concreta, mas subsiste na existência conflituosa de Karin e dos demais homens da casa – assim como de seu estado mental inconstante –, é impressa por uma montagem consciente da fragmentação inerente ao indivíduo. A câmera verte uma espécie de sublime sagrado, uma realidade divina e dolorosamente inalcançável, mas que é sugerida pelo extracampo e pelo olhar vivo da câmera e das personas em cena.
Assim, as afinidades entre Bergman e Ekëlof se tornam cada vez mais estreitas quando percebemos a poesia como tentativa de dar forma ao que é desconhecido. Enquanto o poeta articula lampejos de luz e os abismos da escuridão à infinitude do estranhamento, o cineasta irá figurar na íntima encenação de seus personagens o que Susan Sontag (2020) chama de sofrimento exemplar do artista, ou seja, uma forma de expressar outros modos de se relacionar com o visível e a incongruência inconsciente e estética da existência sensível.
Bibliografia
- BERGMAN, E. I. Lanterna mágica. 2. ed. São Paulo: Cosac, 2025.
BRAKHAGE, S. Metáforas da visão. In: XAVIER, I. A experiência do cinema: antologia. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1983.
DELEUZE, G. Cinema 1: A Imagem-Movimento. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.
EKËLOF, G. Songs of something else: selected poems of Gunnar Ekelof. Guilford: Princeton University Press, 2014.
NIETZSCHE, F W. O nascimento da tragédia, ou Helenismo e pessimismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
PASOLINI, P. P. Empirismo herege. Lisboa: Assírio e Alvim, 1982.
PAZ, O. O arco e a lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
SONTAG, S. Contra a interpretação: e outros ensaios. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
SARTRE, Jean-Paul. Que é a literatura? Petrópolis: Vozes, 2019.
SITNEY, P. A. The cinema of poetry. New York: Oxford University Press, 2015.
XAVIER, Ismail. O Discurso Cinematográfico: A Opacidade e a Transparência. São Paulo: Paz e Terra, 2005.