Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Paloma Oliveira (UESB)

Minicurrículo

    É doutoranda em Memória: Linguagem e Sociedade, desenvolvendo pesquisa voltada às relações entre direção de fotografia e memória no cinema contemporâneo brasileiro. Mestra (2025) pelo mesmo programa, foi e ainda é bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Atua profissionalmente como fotógrafa, diretora de fotografia e assistente de câmera em produções audiovisuais de diferentes formatos.

Ficha do Trabalho

Título

    Filmar entre mãe e filha: memória, afeto e direção de fotografia em Eneida

Mesa

    Imagens da memória: fotografia, cinematografia e os regimes do íntimo no audiovisual brasileiro

Resumo

    O trabalho se propõe a analisar o filme Eneida (2022), dirigido e fotografado por Heloísa Passos, investigando como a direção de fotografia articula memória e afeto na construção das imagens. A partir da relação entre mãe e filha, o filme tensiona as fronteiras entre ficção e não ficção, configurando a cinematografia como um espaço de elaboração sensível da memória e de experiências atravessadas por tempos, lacunas e lembranças em constante reconstrução.

Resumo expandido

    As imagens no audiovisual contemporâneo têm se configurado como espaços de elaboração da memória e de construção do íntimo, tensionando as fronteiras entre registro e criação. Nesse contexto, o presente trabalho destaca o filme Eneida (20022), dirigido e fotografado por Heloísa Passos, que acompanha a trajetória de uma mãe em busca da filha que não vê há mais de vinte anos. No filme, a realizadora também ocupa o lugar de filha da personagem, instaurando uma relação atravessada por implicações afetivas entre quem filma e quem é filmado.
    A partir desse contexto, o artigo busca analisar de que modo a direção de fotografia participa da construção de um regime do íntimo, compreendendo a imagem não como um registro neutro, mas como um dispositivo que articula memória, afeto e tensiona as relações entre ficção e não ficção no interior dessa experiência. Parte-se da ideia de que o íntimo não está dado, mas se constrói na própria relação cinematográfica, sendo mediado tanto pelas escolhas formais quanto pela presença implicada da câmera.
    Este é um documentário íntimo que acompanha a jornada de Eneida, aos 83 anos, em busca de sua filha primogênita, com quem não tem contato há mais de 20 anos. Acompanhada por sua filha do meio, Heloísa Passos, Eneida embarca em uma viagem a Portugal, onde esperam reencontrá-la e reconstruir os laços familiares rompidos. Ainda que se trate de um documentário, vemos que aqui Heloísa Passos participa de um jogo entre ficção e não ficção, construindo uma cinematografia fundamentada em uma memória feita de lembranças, esquecimentos e lacunas de experiências que não aconteceram.
    Em diálogo com Laura Marks e Fayga Ostrower, o trabalho analisa como a direção de fotografia em Eneida articula a dimensão sensível das imagens e o processo de criação como elaboração da memória, especialmente na relação entre mãe e filha. A partir de Georges Didi-Huberman, a memória é compreendida como um campo plural, marcado por temporalidades heterogêneas e lacunas, o que permite pensá-la como constitutiva da criação cinematográfica. Nesse sentido, a direção de fotografia é entendida, com Rogério Luiz, como um espaço de criação atravessado pela memória, no qual se articulam dimensões técnicas, afetivas e temporais da imagem.
    Para tentar entender essa questão, nossa metodologia de pesquisa se baseia em uma análise fílmica com foco na direção de fotografia, buscando compreender como as imagens mobilizam a memória em sua relação com a ficção, a não ficção e um campo híbrido entre essas formas. No caso de Eneida, essa mobilização ganha contornos específicos ao ser atravessada pela relação entre Eneida e Heloísa Passos, na qual a realizadora também ocupa o lugar de filha, fazendo com que a construção das imagens seja marcada por essa implicação afetiva.
    Unindo esses apontamentos, retomamos a ideia de um afeto que se organiza e se transforma na própria cinematografia de Heloísa Passos. Nesse sentido, mobiliza-se o pensamento de Fayga Ostrower, já apresentado ao longo do texto no que se refere ao processo de criação das imagens e à materialidade fílmica, agora a partir de uma perspectiva que aproxima forma cinematográfica e ordenamento dos afetos. As imagens produzidas por Heloísa, nesse sentido, não apenas registram, mas organizam diferentes tempos e camadas de memória, aproximando-se de um movimento de ordenação sensível. Trata-se de processos interiores, nos quais forma e afeto se articulam como modos de dar sentido à vida.
    No caso de Eneida, essa dimensão se intensifica ao envolver a relação entre mãe e filha, fazendo com que a construção das imagens seja atravessada por esse ordenamento afetivo. Assim, a direção de fotografia se configura como um espaço em que memória, experiência e sensibilidade se entrelaçam, produzindo uma forma cinematográfica que não apenas mostra, mas elabora o íntimo.

Bibliografia

    CHAUVIN, Irene. Geografías afectivas. Desplazamientos, prácticas espaciales y formas de estar juntos en el cine de Argentina, Chile y Brasil. Estados Unidos, 2019.
    DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante do tempo: história da arte e anacronismo das imagens. Tradução de Vera Casa Nova e Márcia Arbex. Belo Horizonte: EdUFMG, 2015.
    OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. Petrópolis: Vozes, 2014.
    MARKS, Laura U. The Skin of the Film: Intercultural Cinema, Embodiment, and the Senses. Durham; London: Duke University Press, 2000.
    OLIVEIRA, Rogério Luiz. Memória e criação na direção de fotografia audiovisual. Rio
    PASSOS, Heloísa. Eneida (Documentário). Direção: Heloísa Passos. Colorido. Brasil, 2021. 79 min.