Ficha do Proponente
Proponente
- Guilherme Lima de Assis (USP)
Minicurrículo
- Artista sonoro, sound designer e professor graduado em Produção Fonográfica pela Universidade Anhembi Morumbi; mestrado e atual doutorando pelo programa Meios e Processos Audiovisuais na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Atua como docente no Bacharelado em Audiovisual no Centro Universitário Senac desde 2014 e também pelo projeto É Nóis Na Fita desde 2015. Especialista na área de som, trabalha na realização de filmes desde 2010.
Ficha do Trabalho
Título
- Cinema orgânico: Diálogos contracoloniais entre as Filipinas e o Brasil
Resumo
- A pesquisa investiga, sob uma perspectiva contracolonialista, a concepção de tempo e espaço ancestrais presente em obras cinematográficas recentes das Filipinas e do Brasil. Nossa hipótese é a de que esses filmes apresentam uma proposta de ruptura com as concepções de tempo hegemônicas, o estudo analisa como a cinematografia pode atuar como uma “tecnologia do tempo”, capaz de contribuir com o resgate de modos de vida originários em confluência com os ciclos da natureza.
Resumo expandido
- A pesquisa investiga a concepção de tempo e espaço ancestrais presente em obras cinematográficas recentes das Filipinas e do Brasil. As principais obras escolhidas para análise são Morte na Terra de Encantos (Kagadanan sa Banwaan ning mga Engkanto, Lav Diaz, 2007), Crianças da tempestade, Livro 1 (Mga Anak ng Unos, Unang Aklat, Lav Diaz, 2014), Nũhũ Yãg Mũ Yõg Hãm: Essa terra é nossa! (Isael Maxakali e Sueli Maxakali, Carolina Canguçu e Roberto Romero, 2020) e Konãgxeka: O Dilúvio Maxakali (Isael Maxakali, Charles Bicalho, 2016).
A investigação do cinema como uma tecnologia capaz de mediar rupturas no espaço-tempo fundamenta-se na premissa de que a temporalidade hegemônica — linear, quantizada e regida por métricas artificiais de produtividade industrial — funciona como um mecanismo de controle colonial. Ao contrapor as noções de tempo impostas pela modernidade capitalista às concepções ancestrais presentes nas cinematografias das Filipinas e do Brasil, propõe-se um deslocamento que transita pela física teórica e pelas cosmologias originárias. Nesse cenário, a contribuição de Rasheedah Phillips torna-se crucial ao definir a temporalidade como uma construção social que, historicamente, excluiu as vivências negras e indígenas através da normatização do futuro e do passado. Para Phillips, o tempo não é neutro; ele é um instrumento de governança. Ela argumenta que a “colonização do tempo” é o que torna possível o racismo estrutural, ao relegar certos povos a um passado estático ou a um futuro inacessível. A partir de Phillips, pensamos o cinema como uma “tecnologia do tempo” que nos permite reescrever essas dinâmicas. Ao criar rupturas na narrativa, o realizador performa uma tecnologia capaz de curar traumas históricos e reconfigurar o futuro.
A argumentação central da dissertação estabelece o conceito de “cinema orgânico”, inspirado pela prática e discurso de Lav Diaz, e aqui ampliado através do pensamento de Antônio Bispo dos Santos sobre biointeração. Essa noção não se define apenas por um estilo ou estética, mas por uma metodologia de produção que abraça a transformação e inconstância da natureza como força orientadora que direciona o processo criativo. Trabalhamos esta ideia relacionando com os filmes analisados a partir de três pontos principais: suas narrativas guiadas a partir da prática da biointeração, a abertura a um processo de construção comunitária e o resgate e manutenção de tradições e culturas ancestrais.
Os resultados da pesquisa demonstram que, apesar da distância geográfica, os cineastas brasileiros e filipinos conjugam gestos de resistência similares. O cinema, nessas obras, deixa de ser uma ferramenta de representação para se tornar uma força de “reflorestamento” de memórias e territórios. A análise aponta que esses filmes funcionam como tecnologias de sobrevivência: ao registrar a cultura viva, os cantos e as lutas políticas dos povos Tikmũ’ũn (Maxakali) e das comunidades filipinas, os realizadores transformam o dispositivo cinematográfico em um veículo para a manutenção da soberania cultural. O cinema, aqui, é o espaço onde a ancestralidade não é um passado morto, mas uma força que atua no presente, necessária para enfrentar a crise climática e o esgotamento das formas de vida impostas pelo capitalismo.
Conclui-se, portanto, que a ruptura com a linearidade temporal hegemônica constitui um ato político fundamental. Ao acolher o tempo da natureza como guia, o cinema torna-se capaz de perturbar a percepção da realidade, permitindo que concepções de mundo ignoradas pela modernidade colonial venham à tona. O “cinema orgânico” revela-se como uma prática de libertação, uma forma de manter viva a sabedoria dos povos originários e de vislumbrar mundos sem fim, fundamentados no respeito à vida e na resistência aos cenários apocalípticos do contemporâneo. O estudo reafirma o papel do cinema não como registro de um fim, mas como promotor de mundos contínuos, renováveis e resistentes.
Bibliografia
- CAIXETA DE QUEIROZ, R. Cineastas Indígenas e pensamento selvagem. Revista Devires — Cinema e Humanidades. Belo Horizonte, 2008.
______.; OTTO DINIZ, R. Cosmocinepolítica Tikmu’un: Ensaio sobre a invenção de uma cultura e de um cinema indígena. GIS — Gesto, Imagem e Som — Revista de Antropologia. São Paulo, 2018.
DIAZ, L. Emancipated Cinema: A Conversation with Lav Diaz. Entrevista concedida a Amos Levin. MUBI, 2017. Disponível em: https://mubi.com/pt/notebook/posts/emancipated-cinema-a-conversation-with-lav-diaz. Acesso em: 25 abril. 2026.
DOS SANTOS, A. B. A terra dá, a terra Quer. São Paulo: Ubu Editora, 2023.
GUARNERI, M. Conversations with Lav Diaz. Bolonha: Massimiliano Piretti Editore. 2020.
PHILLIPS, R. Placing Time, Timing Space: Dismantling the Master’s Map and Clock. The Funambulist, 2018. Disponível em: https://thefunambulist.net/magazine/cartography-power/placing-time-timing-space-dismantling-masters-map-clock-rasheedah-phillips. Acesso em: 25 abril. 2026.