Ficha do Proponente
Proponente
- Luís Gustavo Baptista e Ribeiro (ECA-USP)
Minicurrículo
- O autor é bacharel em Ciências Moleculares e em Audiovisual pela Universidade de São Paulo. É mestre em ciências pela Faculdade de Medicina da USP, tendo estudado alterações no cérebro com Alzheimer. Hoje desenvolve seu doutorado na Escola de Comunicações e Artes, também na USP. Sua tese busca pontos de aproximação entre o cineasta soviético Andrei Tarkovski e o artista plástico catalão Joan Miró.
Ficha do Trabalho
Título
- Estratégias de sobrevivência ao fim do mundo: “O Sacrifício” e “Sirât”
Resumo
- Buscamos comparar dois longas que refletem com hombridade: o que fazer diante do fim do mundo? “O Sacrifício” (1986) e “Sirât” (2025) têm protagonistas que recebem a notícia de uma premente Terceira Guerra Mundial; sua missão última será a de produzir uma nova realidade. Nossa comparação se utiliza do estruturalismo de Lévi-Strauss, tratando as obras como mitos e estabelecendo pares de oposições internas para estudar a pulsão de realização de filmes sobre situações limítrofes da humanidade.
Resumo expandido
- Não é infrequente no cinema o exercício imaginativo distópico. Já que a própria arte cinematográfica tem um alardeado prognóstico que a coloca em estado terminal, não é estranho que haja um grande número de cineastas que se ponha a pensar sobre o fim do mundo. No presente trabalho, analisaremos duas obras que lidam com as consequências de uma irrefreável Terceira Guerra Mundial: nos debruçaremos sobre os longas “O Sacrifício” (1986), de Andrei Tarkovski, e seus ecos em “Sirât” (2025), de Oliver Laxe.
Ora, a semelhança entre as duas obras é extensa demais para ser considerada meramente anedótica. Em ambas, a eclosão dessa inescapável guerra é incidente incitante: a partir de uma radical situação geopolítica, seus personagens principais se veem inequivocamente às voltas com uma questão ontológica: o que devo fazer em um mundo que está ruindo?
Comecemos por “Sirât”: Luis, um senhor espanhol, vai às montanhas do sul do Marrocos com seu filho mais jovem procurar por sua outra filha desaparecida, frequentadora das festas de música eletrônica que acontecem sem trégua no deserto. No entanto, sem que tenha obtido sucesso, testemunha a chegada de soldados que põem fim ao frenesi. Ao mesmo tempo, os personagens recebem pelo rádio notícias “do mundo de lá”: a guerra se espalha e esfarela a ordem mundial. Junto a alguns aficcionados por essas raves apocalípticas, Luis foge, eles atrás de hedonismo, ele em busca da filha.
“O Sacrifício” é diferente na sua formulação. Não obstante, seu personagem principal, Alexander, também é um homem mais velho e de relação próxima com um filho bastante jovem. Aqui, entretanto, os sujeitos estão situados na Suécia: sua ampla casa à beira mar é afastada de qualquer vizinhança por extensas pradarias. É neste isolamento, junto à sua família próxima e à criadagem, que Alexander descobrirá (novamente pelo rádio) que a aniquilação completa se impinge sobre eles.
Luis e Alexander se encontram cada qual em um ambiente inóspito, segregados da humanidade, e com a premente questão do fim do mundo. Mesmo assim, é interessante perceber como lidarão com isso de forma diversa: enquanto o intelectual Alexander não se detém em sacrificar tudo o que tem – inclusive sua família – para que esse pesadelo acabe, Luis, de maneira diametralmente oposta, só fortalece mais seus laços com os tipos estranhos que configuram sua nova família peregrina.
Aqui nos valemos de um termo freudiano: é a sublimação de suas questões que se dá por vias diferentes. Ao invés de darem conta do estatuto fatal do mundo, cada um se põe a completar missões secundárias, para eles mais formuláveis nas suas neuroses. Luis se coloca em uma perigosa viagem que põe em risco a vida daqueles que ele tenta proteger. Já Alexander dá cabo de uma aventura mítica e sexual, instruído por um estranho adivinho, para restaurar a ordem. Num paradoxo, o que mais se apega aos convivas é o que foge; já o que sacrifica os seus é o que se liga (carnalmente) a outrem.
Para realizar essa comparação, estabeleceremos como metodologia o estruturalismo de Lévi-Strauss. Entendendo os filmes como narrativas análogas aos mitos estudados pelo antropólogo, podemos observar os pares de oposições que lhes são comuns para encontrar significados subjacentes estruturantes. Buscamos entender o que organiza essas histórias sobre o fim da humanidade, explorando (i) a solidão e a companhia; (ii) a aridez e a fertilidade; (iii) a intelectualidade e a ignorância; e (iv) a velhice e a juventude.
Sirât, no Islã, é a ponte que todos deverão passar no dia do juízo final; é descrita como “mais fina que um fio de cabelo e mais afiada que uma espada”. No fim das contas, tanto Luis quanto Alexander estão, à sua maneira, atravessando-a. Ao fazê-lo, criam para si uma realidade radicalmente nova, produzindo um espaço impossível, fantástico. Nosso objetivo é entender o que os aproxima e afasta, de forma a compreender, por extensão, um pouco da estrutura das obras que tratam do terror do apocalipse.
Bibliografia
- FREUD, Sigmund. “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” (1905). In: Sigmund Freud: Obras Completas, Volume 6. Tradução: Paulo César Lima de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
LÉVI-STRAUSS, Claude. “Antropologia estrutural” (1958). Tradução: Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Cosac Naify, 2008.
LÉVI-STRAUSS, Claude. “Mito e Significado” (1978). Tradução: António Marques Bessa. Lisboa: Edições 70, 19877.
TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o Tempo (1985). Tradução: Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora, 1990.
SITNEY, P. Adams. Andrey Tarkovsky, Russian Experience, and the Poetry of Cinema. New England Review, Vol. 34, No. 3/4 (2014), pp. 208-241.
SONTAG, Susan. “Diante da Dor dos Outros” (2003). Tadução: Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.