Ficha do Proponente
Proponente
- Julio Bezerra (UFMS)
Minicurrículo
- Professor do curso de Audiovisual e do PPGCOM da UFMS. Fez estágios pós-doutorais na ECO-UFRJ e na Columbia University. Autor de “Documentário e jornalismo”, “A eterna novidade do mundo” e “Never Ending Wonder” (2026). Repórter e crítico de cinema, colaborou com uma ampla gama de publicações. Curador e produtor de diversas retrospectivas (Abel Ferrara, Samuel Fuller, Jean Renoir etc.). Coproduziu e codirigiu a série Esquinas para o Canal Brasil, dirigiu os curtas “E agora?” e “Pontos corridos”.
Ficha do Trabalho
Título
- Quando o real deixa de ser problema: documentário e regimes contemporâneos de crença e imagem
Seminário
- Estudos Comparados de Cinema
Resumo
- Partindo da constatação do desinteresse de estudantes pelo documentário, a apresentação, articulando experiência pedagógica, investigação teórica e análise de Present Perfect (Shengze Zhu), propõe-se a pensar essa indiferença como sintoma de uma mutação mais ampla nas formas de crença, nos regimes de verdade, nas relações com as imagens e nas condições contemporâneas de experiência do real. A hipótese: não vivemos uma crise do real, mas talvez um desinteresse pelo real como problema teórico.
Resumo expandido
- Há algum tempo, uma suspeita vem se afirmando como fato em sala de aula: estudantes de cinema e audiovisual parecem cada vez menos interessados em documentários. Não apenas veem menos, como demonstram uma indiferença difícil de nomear que atravessa também a discussão teórica sobre o gênero. Até mesmo os debates sobre as fronteiras sempre móveis entre ficção e realidade tendem a não mobilizá-los — o que é curioso, já que essa indistinção foi, por muito tempo, horizonte da teoria e da prática documentais.
À primeira vista, poderíamos associar essa estranha espécie de sintoma a uma ideia de “crise do real”. No entanto, tal hipótese rapidamente se mostra insuficiente. Os mesmos estudantes consomem cotidianamente uma profusão de conteúdos que reivindicam algum tipo de ancoragem no real: reality shows, true crimes, relatos em primeira pessoa etc. Essas imagens circulam num regime de transparência e imediatismo que nivela diferenças ontológicas entre registro e encenação e privilegia a adesão afetiva sobre a pertinência factual. Nesse cenário, o documentário, que exige mediação, distância crítica e trabalho de montagem, talvez apareça como anacrônico.
Arrisca-se, então, outra hipótese: não estaríamos diante de uma crise do real, mas de um desinteresse pelo real como problema teórico. Esta apresentação se propõe a especular em torno dessa constatação, partindo da ideia de que as novas gerações operam segundo outros regimes de crença, modos de evidência e afetos predominantes. O cinismo, tal como descrito por Sloterdijk e Žižek, surge aqui como um operador importante: não se trata mais de desvelar o real, mas de habitar uma relação já saturada de desconfiança, na qual a revelação perde sua potência.
Em um contexto marcado pela plataformização da cultura, pela centralidade dos algoritmos e pela circulação intensiva de imagens digitais, o real passa a operar como efeito de visibilidade, de repetição e de engajamento. Em diálogo com autores como Zuboff, Latour e Bucher, propõe-se compreender o deslocamento dos regimes de verdade do plano discursivo para o plano infraestrutural, no qual plataformas e sistemas de dados organizam o que aparece, circula e se estabiliza como real. Nesse regime digitalizado, a distinção entre ficção e realidade perde centralidade não por ter sido resolvida, mas por ter se tornado operacionalmente irrelevante. A isso soma-se o enfraquecimento da mediação como valor. O digital privilegia o imediato, o contínuo, o acessível, enquanto o documentário exige duração, interpretação e elaboração.
Como objeto e interlocutor, toma-se Present Perfect, de Shengze Zhu. O filme, uma colagem feita de imagens filmadas e transmitidas por streamers chineses desconhecidos, nos força a repensar não apenas o que é uma imagem. Ela já não se oferece como janela, moldura ou interface, mas como ambiente, uma superfície contínua à qual os corpos se aderem. Trata-se de uma imagem sem interior, sem espessura, sem fora: o lugar mesmo da experiência. Nela, tudo se exterioriza — afeto, desejo, frustração, sobrevivência — tornando-se visível, registrável, compartilhável. Já não vemos apenas o mundo, mas o mundo se vendo. O olhar torna-se ubíquo: o espectador é simultaneamente quem vê, quem é visto e quem se observa sendo visto. Ver torna-se uma forma de autoexposição permanente.
Ainda em estágio inicial, esta apresentação não busca conclusões, mas mapear um campo de problemas. Ao articular experiência pedagógica, investigação teórica e análise de Present Perfect, propõe-se pensar o desinteresse pelo documentário não como recusa de um gênero, mas como sintoma de uma mutação mais ampla nas formas de crença, nos regimes de verdade, nas nossas relações com as imagens e nas condições contemporâneas de experiência do real. Talvez, como uma última aposta, não estejamos apenas diante do declínio do documentário, mas de uma oportunidade para repensá-lo, cultivando a imaginação crítica que Fisher temia estar em falta sob o realismo capitalista.
Bibliografia
- BUCHER, Taina. If…Then: Algorithmic Power and Politics. Cambridge: Polity, 2018.
COULDRY, Nick. Media, society, world: social theory and digital media practice. Cambridge: Polity, 2012.
FISHER, Mark. Realismo Capitalista: é Mais Fácil Imaginar o fim do Mundo do que o fim do Capitalismo? São Paulo: Autonomia Literária, 2020.
LATOUR, Bruno. Reagregando o Social. Uma Introdução à Teoria do Ator-Rede. Salvador: Edufba, 2012.
REGIANE ISHII, Regiane, MELLO, Cecília. “Live-streaming and Saved Footage in Zhu Shengze’s Present Perfect”. In: MELLO, C., SCHULTZ, Corey (eds.). Chinese Film in the Twenty-First Century. Nova York: Routledge, 2024.
SLOTERDIJK, Peter. Crítica da Razão Cínica. São Paulo: Estação Liberdade, 2012.
ZUBOFF, Shoshana. The age of surveillance capitalism: the fight for a human future at the new frontier of power. New York: PublicAffairs, 2019.