Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Christiane Matos Batista (FEUSP)

Minicurrículo

    Christiane Matos Batista é mestranda em Educação, Linguagem e Psicologia (Feusp) – com pesquisa sobre memória e transmissão simbólica a partir do cinema de Eduardo Coutinho -, pós-graduada em Cinema (Centro Universitário Belas Artes), licenciada em Pedagogia (Feusp) e bacharel em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo (UFS) e em Publicidade & Propaganda (Unit-SE).

Ficha do Trabalho

Título

    Gabriel Joaquim dos Santos: um corpo-casa-voz a transitar pelo tempo

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    Este trabalho tece reflexões sobre o modo como o filme O fio da memória (1991), de Eduardo Coutinho, interroga a narração tradicional de documentários ao contrapor a “voz do saber”, de Ferreira Gullar, à “voz da experiência”, de Gabriel Joaquim dos Santos. Ao valorizar a oralidade, a memória e a vivência, o filme questiona a autoridade do narrador onisciente e afirma o direito de sujeitos historicamente marginalizados de produzirem e transmitirem suas próprias narrativas.

Resumo expandido

    A análise da narração no documentário O fio da memória, dirigido por Eduardo Coutinho, permite problematizar os modelos tradicionais de construção discursiva no cinema documental, especialmente aqueles vinculados ao que Jean-Claude Bernardet (2003) denomina de “voz do saber”. Nesse modelo, a narração se apresenta de forma técnica, impessoal e homogênea, assumindo uma suposta neutralidade que, na prática, estabelece uma hierarquia entre o narrador e os sujeitos filmados. Enquanto os entrevistados fornecem relatos fragmentados de suas experiências, cabe ao locutor interpretar e atribuir sentido geral aos fatos, produzindo um saber que se pretende mais amplo e legítimo, ainda que desvinculado da vivência direta.

    No entanto, O fio da memória tensiona essa estrutura ao propor uma narração compartilhada entre Ferreira Gullar e Gabriel Joaquim dos Santos. Essa escolha instaura uma dinâmica dialética entre duas vozes de naturezas distintas: de um lado, a voz letrada, associada ao discurso sociológico e à tradição escrita; de outro, a voz da experiência, marcada pela oralidade, pela subjetividade e pela implicação direta com os acontecimentos narrados. Ao colocar essas vozes em diálogo, o filme questiona a autoridade da narração onisciente e abre espaço para outras formas de produção de conhecimento.

    Nesse contexto, a figura de Gabriel Joaquim dos Santos adquire centralidade como narrador-personagem que fala a partir de um lugar historicamente marginalizado. Sua fala, atravessada por elementos do sonho, da espiritualidade e da memória, não se submete às normas da linguagem culta, mas revela um saber próprio, construído na experiência e na relação com o mundo. Tal perspectiva aproxima-se das reflexões de Amadou Hampâté Bâ (2010) sobre as sociedades orais, nas quais a palavra falada constitui um compromisso ético e um meio fundamental de preservação da memória coletiva.

    A Casa da Flor, construída por Gabriel a partir de materiais descartados, pode ser compreendida como uma extensão dessa prática narrativa. Mais do que uma edificação, ela se configura como uma história materializada, resultado da recombinação de restos e fragmentos que adquirem novos sentidos. Essa operação remete à figura do “narrador sucateiro”, proposta por Jeanne Marie Gagnebin (2009) a partir de Walter Benjamin (1994), caracterizado por recolher aquilo que foi rejeitado pela história oficial e reinscrevê-lo em uma nova narrativa. Assim, ao reorganizar objetos e memórias, Gabriel também se reposiciona como sujeito histórico, afirmando sua presença no mundo.

    Além disso, o filme evidencia uma distinção fundamental entre memória e informação. Conforme apontam autores como Byung-Chul Han (2023), a memória constitui uma prática narrativa que articula acontecimentos em uma rede de significados, ao passo que a informação se apresenta de forma cumulativa e fragmentada. Nesse sentido, a narrativa de Gabriel, ainda que não linear ou sistematizada, constrói uma história ao estabelecer conexões entre experiências, afetos e lembranças.

    Por fim, a presença de Gabriel como narrador tensiona não apenas os modos de narrar no documentário, mas também as disputas em torno do direito à memória. Ao assumir a palavra e narrar sua própria trajetória, ele rompe com a lógica que historicamente negou aos descendentes de povos escravizados o acesso à produção de suas narrativas. Dessa forma, O fio da memória não apenas revisita o passado, mas propõe uma reflexão crítica sobre quem tem o direito de contar a história e sob quais formas esse relato pode se constituir.

Bibliografia

    BENJAMIN, W. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte política: ensaios sobre a literatura e história da cultura. 7ª Ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

    BERNARDET, Jean-Claude. Cineastas e imagens do povo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

    COUTINHO, Eduardo. Entrevista para a Revista Sexta-feira. In: OHATA, Milton (Org.). Eduardo Coutinho. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

    EVARISTO, Conceição. Olhos d’água. Rio de Janeiro: Pallas, 2014.

    GAGNEBIN, J. M. Memória, história, testemunho. In: Lembrar escrever esquecer. São Paulo: Editora 34, 2009, p. 49-57.

    HAN, Byung-Chul. A crise da narração. Tradução: Daniel Guilhermino. Petrópolis, RJ: Vozes, 2023.

    HAMPATÉ BÂ, Amadou. A tradição viva. In: História geral da África, I: Metodologia e Pré-história da África. 2.ed – Brasília: UNESCO, 2010.

    O FIO da memória. Direção de Eduardo Coutinho. Rio de Janeiro: Cinefilmes: Fundação de Artes do Estado do Rio de Janeiro, 1991. (120min).