Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Jyan Carlos Sales de França (UFPE)

Minicurrículo

    Doutorando em Comunicação pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco, pesquisando imagens de violência no cinema brasileiro deste século. Pesquisa as intersecções entre imagem, cinema, e literatura.

Coautor

    Arthur Henrique Feijó de Almeida (UFPE)

Ficha do Trabalho

Título

    Re/de/compondo as imagens da raça: Tenda dos Milagres (Nelson Pereira Santos, 1977)

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    Analisamos Tenda dos Milagres (1977) descrevendo uma ética da forma em três frentes: uma zona híbrida cinema‑literatura, a inespecificidade do racial, e a subversão do arquivo científico pelo repertório mestiço. O protagonista Pedro Archanjo se constrói na decomposição de uma identidade marcada pela racialização, apontando para a falência da raça como tecnologia de subjugação. Assinalamos os efeitos da miscigenação como gesto discursivo de montagem, e não como cenário para o debate racial.

Resumo expandido

    Analisamos o filme Tenda dos Milagres (Nelson Pereira dos Santos, 1977) observando três aspectos que nos parecem cruciais para uma aproximação ética da obra: o hibridismo entre cinema e literatura, a inespecificidade do racial enquanto índice apto a in/de/formar “identidade”, e a subversão da lógica colonial de um arquivo da práxis da ciência pelo olhar diferencial do repertório de práticas culturais mestiças. Primeiro, entendemos o filme numa zona híbrida entre a literatura e o cinema, operando a partir da mistura dos componentes heterogêneos de seus atores – raça, classe, gênero – para ordenar ambas as narrativas e construir essa zona composta por tons de cinza fundamentais à poética de Jorge Amado, especialmente em seu romance homônimo de 1969. Nesse argumento, entendemos as tendas construídas por ambas as obras não só como o espaço da/para a obra de arte, mas também como fluxos transpassados pela malha da cultura popular, do escrutínio acadêmico, e de suas associações ao real como as principais linhas narrativas. Segundo, um ponto de elocução de onde podemos inferir que, daqueles componentes heterogêneos constitutivos, se destaca a raça e os processos de mestiçagem como colorações inespecíficas, índices que não olham de volta o olhar que lhes é dado por Ojuobá – os olhos de Xangô, nome ritual do protagonista, Pedro Archanjo. Enquanto a obra de Amado se apropria do texto científico que in/de/forma o sujeito (levemente) bronzeado como símbolo de uma identidade nacional para pôr em xeque o sucesso dessa obliteração frente aos cruzos de Exu (Rufino, 2017), sua adaptação por Nelson reforça a fragilidade da tese da transparência ao brincar entre o real e o encantado na construção do mestiço Archanjo.

    Apoiados nas ideias de Denise Ferreira da Silva (2024) acerca da construção pós-iluminista da analítica da racialidade, esboçamos essa deserção da raça como um passo adiante que damos junto ao protagonista Pedro Archanjo, para a eventual demolição dessa textualidade racial moderna, esbarrando na inespecificidade do racial como índice e complicando as interconexões das categorias branco, negro, mulato, e mestiço. Em terceiro lugar, propomos uma conjuntura teórica onde o corpo passa longe de ser autossuficiente e onde o sujeito já foi velado há muito. A genealogia discretamente insurreta de Archanjo dá vazão a um movimento do arquivo (o livro, o espaço da academia, a literatura que lhe dá vida) contra o repertório da cultura popular que lhe informa (o candomblé, a culinária, a luta de capoeira) que acontece nesse espaço do pensamento mestiço (Gruzinski, 2001) que é a cidade de Salvador, e especificamente nas imediações do Pelourinho, onde se localiza a tenda do milagreiro Lídio Corró, que confere o título a ambas as obras. Esses três pontos de análise se conjugam aos escritos de Édouard Glissant (2023) sobre a Relação, compreendendo Archanjo como epítome desse processo de recompor as imagens de um povo e de um lugar que experimentam uma suposta democracia tropical (Silva, 2024) através da decomposição da identidade que lhe foi assinalada, figurando tanto no cinema quanto na literatura como “complexas sentenças matemáticas que se dispõem a anunciar em si mesmas a impossibilidade de as vidas terráqueas apresentarem-se numa única Forma” (Brasileiro, 2022). Nossa análise segue na direção de desfazer esses impasses do texto moderno que acabam se depositando na crítica cinematográfica e literária, que capturam não apenas o debate, como também as formas de produção de imagens, a fim de lhes conferir um lugar nesse “cadinho da cultura”, mirando a falência da raça como tecnologia de subjugação exposta nas imagens do cinema e nas passagens do texto. Deslocamo-nos da elaboração do texto analítico calcada no conteúdo para, ao invés disso, descrever uma ética da forma na literatura de Amado e na imagem cinematográfica de Nelson Pereira dos Santos, que apresentam os efeitos da miscigenação não como tema, mas como gesto de uma montagem híbrida.

Bibliografia

    AMADO, Jorge. Tenda dos milagres. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
    BRASILEIRO, Castiel Vitorino. Quando o sol não mais brilhar: a falência da negritude. São Paulo: n-1 Edições; Editora Hedra, 2022.
    GLISSANT, Édouard. Tratado do todo-mundo. São Paulo: n-1 Edições, 2023.
    GRUZINSKI, Serge. O pensamento mestiço. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
    RUFINO, Luiz. Pedagogia das encruzilhadas. Rio de Janeiro: Mórula, 2019.
    SILVA, Denise Ferreira da. Homo modernus: para uma ideia global de raça. Rio de Janeiro: Editora Cobogó, 2024.
    TENDA dos Milagres. Direção: Nelson Pereira dos Santos. Rio de Janeiro: Regina Filmes, 1977. YouTube (132 min).